quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

A vida em xeque, ou terror cotidiano (parte 1)

[Jogo em 3 partidas com um presente no final]

Correr, terror, morrer. Não é apenas o som dessas palavras que as aproxima: seu sentido, sua função e sua combinação também. No texto que se desenvolve em três partidas, tentarei unir essas palavras em um ciclo inteligível para discutir nosso atual estilo de vida. Digo "nosso", pois se você tem condições de acessar a internet para ler este blog, saberá do que se trata.

Trabalhei em uma redação de marketing por 2 longos anos de minha vida e não preciso de catálogo ou pesquisa para enumerar com exatidão as palavras mais usadas em meus textos nesse período: "você", "exclusivo", "oportunidade", "benefício", "agora", "já", "faça", "ter", "seu" ("sua"), "carreira", "bem-estar", "vantagem", "possibilidade", ", poder", "acesso", "valor", "aprimoramento", "melhor", "maior" e "futuro". Vendi aos incautos todas essas palavras tempo suficiente para saber que o objetivo era vender apenas o significado, o valor irreal da idéia que as acompanha. No entanto, na empresa específica em que trabalhei, nunca me foi permitido mencionar a palavra "preço". Esta é uma palavra perigosa em marketing e talvez esteja exatamente aí a chave da questão.

O que vem à sua mente quando lê agora a palavra "preço"? Valor? Dinheiro? Pois eu me permito então adicionar outras palavras que dão seqüência a essa corrente, desta vez em ordem: salário, trabalho, sobrevivência, educação, criação, nascimento. É mais ou menos o caminho que nos é pedido, sugerido ou imposto seguir por nossos pais, pela televisão, pelo governo, pela opinião pública, pelo consenso ou, como eu prefiro, convenção geral. É o caminho para se equiparar ao valor dos produtos à venda, para ter direito a eles, mercadorias/idéias que trazem conforto. Quem segue por outro caminho por opção ou por falta dela é costumeiramente rotulado de marginal, excluído, escória. Voltarei a isso mais tarde.

E qual é o preço de sustentar essa coluna, ou essa escada, se assim a seqüência decrescente lhe parecer? A resposta está no seu dia-a-dia. Neste momento, você está lendo este texto, pensando nele, mas é muito provável que um segundo pensamento assombre a sua mente com uma afirmação velada, confusa, misturada com um sentimento instintivo: "eu poderia estar fazendo algo melhor", ou "ler é bom, mas quero acabar logo com isso para fazer outras coisas". Todo clichê tem razão de ser, e "tempo é dinheiro" se aplica bem aqui. Se você está no local de trabalho, tem tarefas a concluir, para ganhar dinheiro, para não perder o emprego. Se você estuda, tem outros textos a ler, projetos a esboçar, matérias em que se aplicar, para poder trabalhar, para ganhar dinheiro. Se você não faz nem um, nem outro, nem os dois combinadamente, talvez tenha urgência em fazê-lo, para estudar, para poder trabalhar, para ganhar dinheiro e comprar produtos, guardando algum para sustentar seus filhos, que com sorte terão condições, então, de realizar exatamente o mesmo ciclo antes de morrer.

Morrer. Se temos medo de perder o emprego, temos medo de não obter meios de sustento, de alimentação, temos medo de morrer. Somos aterrorizados todos os dias com a idéia de que se não mantivermos as engrenagens rodando, se não susentarmos (com nossa escalada em direção ao valor das coisas) a economia vigente, vamos morrer de fome. Se ouvimos no noticiário que um governo estatiza suas empresas, temos medo do que ameaça nosso estilo de vida, que pode nos impedir de repetir o que fizeram nossos pais, o que levará à morte. Então, corremos. Disputamos corrida com a morte, mas o que há para nós na chegada? A morte. (continua)

Um comentário:

Maraísa Bueno disse...

Quem sabe um dias as máscaras caiam e a gente possa ver a verdade por de trás de tanta mentira e tanta ganância. Trabalhar e ver o poder subir a cabeça de muitos é lamentável. O que será verdade e o que será mentira?