segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Pra acabar

Tanto se falou no fim do mundo e tão pouco esforço vi no intuito de defendê-lo. Afinal, que lugar, tempo ou experiência se quer conservar, ou é apenas a noção de mundo, para que possamos ter onde expor esse medo? Medo estúpido da finitude, como se a continuidade, do jeito que temos conduzido as coisas, fosse benéfica para alguém ou algo. Imagino, se fosse perpétua a parvidade dos homens e mulheres que hoje habitam a "estimada" Terra, muitos lamentariam sua não extinção. Para lamentarmos o fim, precisaríamos, antes, viver uma vida digna de saudade. (Viver, apenas, sem adjetivos) E de onde, pergunto, essa perda seria sentida? Do além, do paraíso, do inferno, do espaço, de outro plano ou existência? Pois sem antes nem depois, agora é o que há, e não ouço sequer um noticiário alardear: "Este é o momento pelo qual esperamos. O dia em que nós, seres humanos, descobrimos a infinita beleza deste finito mundo".

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Um gole do outro (adendo)

Achei que a postagem anterior, Café sem Açúcar, merece um adendo: ainda que todos sejamos capazes de suportar sozinhos esse café amargo da vida, é muito melhor se pudermos fazê-lo juntos! Quando alguém amado, necessitado, estranho ou conhecido estiver passando por um grande sofrimento, dor terrível ou momento de tristeza, podemos provar um gole do café do próximo... Isso se chama compaixão. Não é fácil engolir, muitas vezes, esse sabor forte. Para dividir o fardo, basta estarmos presentes, sentir um pouco do amargor alheio, segurar a mão. Não se trata de soltar umas poucas palavras de conforto vazias ("vai ficar tudo bem") ou artifícios para curar o que só a própria experiência cura, deixa passar, dispersa. Nada impede, mas isso seria apenas jogar um pouco de açúcar no café. Partilhar um dissabor é um presente que damos com a nossa presença - e isso é mais subestimado do que podemos imaginar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Café sem açúcar

A Thaís, minha mulher, que é adorável até quando está absurdamente preocupada, em um de nossos papos exaustos pré-sono (ou pré-noite-mal-dormida, já que ter um bebê de seis meses no quarto ao lado é para os fortes, como ela é), afirmou: "Não quero que nosso filho sofra, nunca". "Eu também não quero", respondi e retruquei, "mas ele vai sofrer, meu amor". Abracei-a.

É triste constatar que o sofrimento é algo inerentemente humano, mas busco proporcionar com esse texto um pequenino consolo, para mim e para todas as (duas?) pessoas que o lerem: o que significava sofrer antes que nomeássemos esse conjunto de sentimentos? É certo que havia o sofrimento, ele puro, sem a ideia dele, sem o nome. E é certo também que não era, assim como nunca foi, algo fixo, igual para todos os que o sentissem - é algo que se apresenta de um jeito diferente a cada vez, volátil, etéreo, assim como toda sensação.


Quero dizer, apenas, que as coisas pelas quais passamos na vida, as emoções que fazem o corpo vibrar, as alegrias, as desgraças e maravilhas, todas são o que são e o que tiverem de ser, sem a necessidade de as definirmos antes (ansiedade) ou depois (arrependimento, rancor) de as experimentarmos. Assim, quando nos esforçamos para evitar algo como sofrer, geramos apenas um atrito mais intenso do que o próprio sentimento; e quando ficamos remoendo algo que nos fez sofrer, idem.


Uma analogia que me veio de estalo (achei boa na hora, então melhor escrever antes que se torne besta) agora há pouco foi com a minha maneira de tomar café. Tomo sem açúcar. Você deve ter contorcido o rosto, eu entendo. É amargo. Mas ele há de ser! Não importa quanto adoçante coloque: lá no fundo da sua gartanta está o amargor, e tudo o que fiz foi aprender a gostar dessa bebida assim, como é, pra valer, diretamente nas minhas papilas gustativas.


Mas o que é que apreciamos, o amargo ou o doce? Será que a vida não aceita ambos, já que é tudo parte do que vivemos no dia a dia? Já que não lutamos contra o doce quando ele vem, por que batalhar com o amargo? Será que não temos a capacidade de permitir que tudo isso, que é humano, se manifeste e se disperse em nós? É a experiência direta, é viver a vida, a real.


Não estou dizendo que sofrer é uma delícia, mas que o sofrimento
só se concretiza quando a gente tenta evitar esse sentimento vago, antes sem nome, agora fixado na mente pela linguagem (o verbo sofrer). Mas, quanto mais você toma desse café escuro da vida, percebe que mesmo o amargo tem sabor. Uma hora ou outra você terá de enfrentar o amargor, e verá que ele passa. Deixe a amargura passar também.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sucessão


Sabe o que eu quero?
Uma quase sentença
sucedida de silêncio

Como em:
"Sabe o que..."

Não quero saber o que eu quero

Que o querer fique no ar
antes de ser

Nada do que eu quis
fiz

No meu querer
o fazer era diverso
e de nada importou que eu quisesse

Fiz como foi feito

Sabe o que eu queria?
Não sei, não sabia
não saberia

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Life's little difficulties

Maze of Glendurgan

You have to live off of life's little difficulties. You have to leave some of yourself along the way. Cause earth demands some of its matter back. And you will no longer be here to use it in a few years from now. Live on!

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Café secreto


Dormi quatro ou três horas, sei lá, foda-se! O importante é que o mundo ainda não acordou. Desço a escada pra fazer um café forte, um pingo de leite e aquela essência de baunilha que só se usa duas vezes por ano, num bolo ou doce que o valha. Uma delícia! Bem açucarado... porque o mundo ainda não acordou. (Que bom que não fumo mais. Como me fazia mal aquela bosta! Alguns relatariam essa cena com o fogo acendendo e um belo trago. Fodam-se! É gente que nunca saiu da fase oral) Não tem ninguém gritando, rindo ou chorando. Não é difícil manter o silêncio quando não se tem com quem conversar. Ah, o silêncio. O silêncio também é vida, porra! É mais vida que a barulheira da novela, o motoboy acelerando aquela merda, o cara com som alto no carro pra compensar o pau pequeno. O silêncio é do caralho! Aquela chata do trabalho deve tá dormindo, resmungando algo entre os dentes. Nem ela nem ninguém acordou! O café vai esfriando, mas que se foda, pois eu não tô fazendo nada. Tô fazendo tamanho nada que até esqueci um pouco do café, aquela caneca enorme, cheia. Tá bom até frio! Faço nada com um gosto que não tenho por muita coisa que faço fazendo. Nada! Nem o cachorro acordou. Fico olhando seu respiro preguiçoso, feliz por ele não latir ou fungar. Os passarinhos bem que tentam acordar o mundo, mas ele tá dormindo. Eu não. Até que ele desperta, mas eu já tava me conformando. Se o mundo não acordasse, eventualmente, esse meu café secreto, que pode durar minutos ou horas, não aconteceria. Pode acordar, mundo fodido! Agora eu já tô pronto pra você!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Nascente

(Em continuidade ao poema Cascata. Este não é um poema. Ou é?)

Já tive meu carro roubado
mas nenhum larápio foi capaz
de furtar o que me move

Já tive o coração partido
Mas nenhum romance frustrado
levou ele embora

Já chorei de dor
tristeza e desespero
mas de onde vêm as lágrimas
(e sempre virão)
vem vida, vem amor

Hoje estou inteiro
nada me tirou pedaço

Pois o que sou
somos todos
e é eterno

O que somos?
Um só

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Cascata

Atrás dessa feroz cascata
está meu corpo, seco e limpo

Em meio ao ruído ensurdecedor
estou eu, a meditar em silêncio

Sob escombros escabrosos
minha alma está pura, intacta

A pena que me escreve é leve
o sangue que me corre, bom
o tempo é um impasse, morto
e a vida que me mata
não

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Call it what you want


Some people tend to rush it
others like to seem blasé

Some people look for it
some people just ignore it

Some people try to pretend
they don't want it

But we all do

Call it Love
call it God
call it Joy
or Fulfillment

In whatever degree
what else is there
for us to be?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Ladeira

Gosto de tirar as mãos do guidão
De descer na maciota
de costas
na contramão

De poder subir no busão
e cochilar
sem saber em que ponto vai dar

Gosto do tempo que faço
quando largo mão de contá-lo

Desgosto chorar quando riem
Mas não rio quando o fazem
Me compadeço

Estar ao contrário
inverso
do avesso e liberto
é estar exposto
vulnerável
aberto e só

E gosto

terça-feira, 12 de junho de 2012

Buraco entre os dentes


Na limpeza dos dentes
o buraco entre eles
fica evidente

Sente-se tudo
o ar que refresca
assobia na gente

Na limpeza da mente
sente-se a vida que há
entre um receio
e outro

O intervalo entre o osso
o duro
e outro

Uma aflição
uma razão
uma intenção
e outra

O mole que há
o vazio
e a delícia de ser
sem esforço

Limpo!

O buraco da mente
e o coração cheio.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Loteria



Milhões na fila
da loteria
e no bolso 
o tostão do bilhete

Quem premia 
quem frustraria
esse sonho 
de fazer o quê?

Com tanto dinheiro
eu seria você
e não queria

terça-feira, 17 de abril de 2012

Te encontrei a buscar
Permiti me encontrar
Descobri: não precisa

Você é agora
O que mais?

Vivi no antes
temi depois
perdi meu presente
hoje

Te quero sem nada
nó desatado
feliz num só
nós

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Quem cedo madruga?

O silêncio da madrugada é companheiro
Parece que a luz é intrusa nesse reino de paz

Numa história de horror ao contrário
a alvorada é que atrai à cidade os zumbis
putrefatos, caçando carniça para beliscar

Em coletivos
levados ao centro
ponto de encontro de almas penadas

E esse bolo de dor sub-humana
fermenta embaixo do sol