terça-feira, 27 de novembro de 2012

Um gole do outro (adendo)

Achei que a postagem anterior, Café sem Açúcar, merece um adendo: ainda que todos sejamos capazes de suportar sozinhos esse café amargo da vida, é muito melhor se pudermos fazê-lo juntos! Quando alguém amado, necessitado, estranho ou conhecido estiver passando por um grande sofrimento, dor terrível ou momento de tristeza, podemos provar um gole do café do próximo... Isso se chama compaixão. Não é fácil engolir, muitas vezes, esse sabor forte. Para dividir o fardo, basta estarmos presentes, sentir um pouco do amargor alheio, segurar a mão. Não se trata de soltar umas poucas palavras de conforto vazias ("vai ficar tudo bem") ou artifícios para curar o que só a própria experiência cura, deixa passar, dispersa. Nada impede, mas isso seria apenas jogar um pouco de açúcar no café. Partilhar um dissabor é um presente que damos com a nossa presença - e isso é mais subestimado do que podemos imaginar.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Café sem açúcar

A Thaís, minha mulher, que é adorável até quando está absurdamente preocupada, em um de nossos papos exaustos pré-sono (ou pré-noite-mal-dormida, já que ter um bebê de seis meses no quarto ao lado é para os fortes, como ela é), afirmou: "Não quero que nosso filho sofra, nunca". "Eu também não quero", respondi e retruquei, "mas ele vai sofrer, meu amor". Abracei-a.

É triste constatar que o sofrimento é algo inerentemente humano, mas busco proporcionar com esse texto um pequenino consolo, para mim e para todas as (duas?) pessoas que o lerem: o que significava sofrer antes que nomeássemos esse conjunto de sentimentos? É certo que havia o sofrimento, ele puro, sem a ideia dele, sem o nome. E é certo também que não era, assim como nunca foi, algo fixo, igual para todos os que o sentissem - é algo que se apresenta de um jeito diferente a cada vez, volátil, etéreo, assim como toda sensação.


Quero dizer, apenas, que as coisas pelas quais passamos na vida, as emoções que fazem o corpo vibrar, as alegrias, as desgraças e maravilhas, todas são o que são e o que tiverem de ser, sem a necessidade de as definirmos antes (ansiedade) ou depois (arrependimento, rancor) de as experimentarmos. Assim, quando nos esforçamos para evitar algo como sofrer, geramos apenas um atrito mais intenso do que o próprio sentimento; e quando ficamos remoendo algo que nos fez sofrer, idem.


Uma analogia que me veio de estalo (achei boa na hora, então melhor escrever antes que se torne besta) agora há pouco foi com a minha maneira de tomar café. Tomo sem açúcar. Você deve ter contorcido o rosto, eu entendo. É amargo. Mas ele há de ser! Não importa quanto adoçante coloque: lá no fundo da sua gartanta está o amargor, e tudo o que fiz foi aprender a gostar dessa bebida assim, como é, pra valer, diretamente nas minhas papilas gustativas.


Mas o que é que apreciamos, o amargo ou o doce? Será que a vida não aceita ambos, já que é tudo parte do que vivemos no dia a dia? Já que não lutamos contra o doce quando ele vem, por que batalhar com o amargo? Será que não temos a capacidade de permitir que tudo isso, que é humano, se manifeste e se disperse em nós? É a experiência direta, é viver a vida, a real.


Não estou dizendo que sofrer é uma delícia, mas que o sofrimento
só se concretiza quando a gente tenta evitar esse sentimento vago, antes sem nome, agora fixado na mente pela linguagem (o verbo sofrer). Mas, quanto mais você toma desse café escuro da vida, percebe que mesmo o amargo tem sabor. Uma hora ou outra você terá de enfrentar o amargor, e verá que ele passa. Deixe a amargura passar também.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Sucessão


Sabe o que eu quero?
Uma quase sentença
sucedida de silêncio

Como em:
"Sabe o que..."

Não quero saber o que eu quero

Que o querer fique no ar
antes de ser

Nada do que eu quis
fiz

No meu querer
o fazer era diverso
e de nada importou que eu quisesse

Fiz como foi feito

Sabe o que eu queria?
Não sei, não sabia
não saberia

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Life's little difficulties

Maze of Glendurgan

You have to live off of life's little difficulties. You have to leave some of yourself along the way. Cause earth demands some of its matter back. And you will no longer be here to use it in a few years from now. Live on!