quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Afroveitem! (colhido fresco)

Chamem como quiserem
mas não se esqueçam
não se esqueçam

Amem quanto puderem
mas não se percam
não se percam

Riam quando brincarem
mas não ofendam
nem se ofendam

Peçam se carecerem
mas endureçam
endureçam

Façam como fizerem
mas não se esqueçam
não se esqueçam

[imagem: www.ism-sweden.org/page.php?category=6&id=140]

gueto

n substantivo masculino
1 na maioria das cidades européias, bairro onde todo judeu era obrigado a residir
2 Derivação: por extensão de sentido.
bairro de uma cidade onde vivem os membros de uma etnia ou outro grupo minoritário, freq. devido a injunções, pressões ou circunstâncias econômicas ou sociais
3 Derivação: por extensão de sentido.
todo estilo de vida ou tipo de existência resultante de tratamento discriminativo
Ex.:

etimologia: it. ghetto (1516) 'região onde, em algumas cidades, os judeus eram obrigados a morar', fig. 'ambiente fechado, não acessível'

Agora que já comecei com essa péssima, mas sempre útil idéia de utilizar o pai-dos-burros para explicar alguma coisa, gostaria de propor um pensamento, aliás um pensamento colhido fresco, pois o tive em um momento da manhã de hoje, acordei e escrevi.

A ocasião não poderia ser mais propícia: estamos em um dos feriados mais prolongados da história do Brasil, que culmina no Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Ouvi gente criticar a nomeação da data, dizendo que ela é mais discriminatória que lisonjeira e mais separa do que une. Mas, poucos dos que agora estão em mini-férias em uma dessas praias lotadas da vida estão reclamando, convenhamos, né?

Apesar do sentido dicionarial mostrado acima, entendemos gueto mais por seu uso estadunidense, em referência a bairros e regiões de tal país em que vivem, em maioria, pessoas de pele escura. Sim, escura, mas sei que até um espectro de cores pode ofender, em tempos de palavras comedidas quando referentes a minorias... Tentarei ser o mais respeitosamente falso possível.

Mas, no Brasil, o gueto é o negro ou o pobre? Se considerarmos que o pobre pode se considerar rico (espiritualmente? culturalmente?), é incorreto chamá-lo de pobre, politicamente incorreto. Mais adequado seria "financeiramente desprovido"... Esses desprovidos apenas financeiramente, mas cheios de riqueza popular, são um gueto de milhões. Aliás, são um gueto que é maioria em um país que tende a fechar os olhos para desigualdades.

Segundo este site (sei lá quais as outras milhares de fontes):

São 56,9 milhões de pobres no Brasil, sendo 24,7 milhões de pessoas na extrema pobreza. Quem são essas pessoas?

a) Crianças (mais de 50% das crianças com até 2 anos de idade são pobres);
b) Afrodescendentes (representam 45% da população total, mas 63% dos pobres e 70% dos indigentes);
c) Nordestinos ou moradores das regiões metropolitanas do Sudeste;
d) Membros de famílias chefiadas por adultos de baixa escolaridade; e
e) Membros de famílias chefiadas por trabalhadores autônomos ou por empregados sem carteira assinada.

• Aqueles que compõem o 1% mais rico da população brasileira controlam aproximadamente 10% do PIB nacional, a mesma proporção que é controlada pelos 50% mais pobres da população.

Acho que é o suficiente... Para mostrar, talvez, que, já que queremos tratar com palavras "adequadas" os nossos maiores e mais gritantes problemas, então eu proponho que se PARE de hiposcrisia ao chamar de gueto algo que de tão enorme só não vê quem é cego, deficiente visual ou visualmente desfavorecido...

Agora que nos EUA a cultura do gueto negro é dominante (no Brasil, alguém já ouviu falar de baile funk?), como chamar a cultura atribuída aos novos financeiramente ligeiramente menos abastados? Pois se uma cultura é retirada de seu lugar de origem e comercializada, um produto mesmo (fonográfico ruim, no caso), o que acontece no lugar de origem? Ou a pobreza é, neste momento, uma exclusividade dos culturalmente involuntariamente "não-obtenedores"? Sim, mesmo os não-pobres que não têm cultura agora são os realmente pobres... Será?

Ainda que essa música negra (calma) ou afrodescendente (!!!) seja adaptada aos ouvidos brancos... ops!.. euro-puro-similares, não se pode ignorar que hoje o gueto seja chique, mas no plano das idéias. O gueto é cada vez mais gueto na realidade prática, e o abismo não pára de crescer. Mas é fácil fingir-se interessado pelas condições sociais horríveis em que se encontra a maioria da população apenas pegando um traço cultural legitimamente popular e usando o PIOR dele, como a música fúnqui ou o hiphop americano que preconiza usar dinheiro para se limpar e tratar mulheres como objetos.

Faz sentido, já que antigamente ser preto, negro, ou afrofodido era ser escravo, por mais politicamente correto que seja esquecer tal fato, e ser pobre também o é... Mas como somos todos escravos voluntários de uma mesma máquina-maravilha-mercado (um dia inventam uma sigla-beleza como 'MMM'), então ser alegremente comandado é politicamente correto nessa lógica divertidamente ilusória, na qual basta inventar nomes eufemísticos para segregar respeitosamente.

Mas quem sou eu para falar? Apenas um afro-russo-pardameríndio-marrombranco-euro-brazuco-esportuga... Ai, ai... Vai ser foda quando quando a classe média brasileira se encher, ou melhor, se ofender por ser média, mediana, medíocre, pois além disso já é medrosa e maldita. Esses sobre-povo ou nata não-ralé, eu, tu, eles. Na minha opinião, somos apenas possuidores das maiores inutilidades domésticas já inventadas, felizes portadores de nada. Mas, daqui a um ou dois parágrafos eu volto a falar disso.

Então temos os brancos ex-colonizadores, burrodescendentes ou plutodependentes, os negros ex-escravos, afrofodidos ou de invisibilidade escura, os amerindiotas, esses não só invisíveis como inexistentes, os nordestinos (oh, meu deus, acabaram meus eufemismos e tucanismos estúpidos), esses que descendem dos branco-puros holandeses, que no entanto são tratados como bichos no sudeste no Brasil.

Opa, alguém falou em bichos? Não, espere. Eles são "seres-senscientes-não-humanos". Ah, faça-me o favor! Chega! Os animais não se importariam em ser chamados simplesmente de animais se apenas os tratássemos melhor... Mas... Não é esse então o problema?! A maneira como tratamos um ao outro? Terei eu descoberto a pólvora? Serei eu um ser superior (desculpem, não quero segregar ninguém) ao me preocupar em tratar bem as pessoas, animais e coisas, em vez de criar termos infelizes para dissimular uma preocupação?

Então, o preconceito só depende da terminologia adotada, mas é sempre correto acobertar nossa indecência ou politicar nossa correteza. É melhor apagar da memória o que é inoce-inofe-incapa-indesejável, não se misturar, não mencionar, não falar sobre e principalmente não ter nenhum contato físico com essa pobreza da qual temos nojo, mas que adoramos ver em filmes-polêmica, polefilmes, polelículas...

Me admira que as mulheres ainda sejam chamadas assim, ou os judeus, enfim, já que hoje toda minoria é protegida gramaticalmente sem querer ser, uma proteção-violência ignorante, em nome da propaganda, das vendas, das marcas. Eu posso ajudar as empresas inventando o "ser humano não-animal do sexo forte feminino votante e assalariado independente", vulgarmente mulher, ou o "grupo minoritário-majoritário mundial étnico-religioso-cultural israelo-referente", popularmente judeu. Ora, e quem não quer vender (enfiar, atochar) seus produtos para mulheres e judeus? E para as mulheres de judeus?! (Controle-se!)

Somos todos E SÓ fatias gordas, gostosas, deliciosas, prontas para consumir. É a mercadelícia da pluralidade desigual. Afroveitem!!!

--

http://rapidshare.com/files/69929490/AllanZi_-_Normal.mp3

Um comentário:

Dark disse...

Surpreendido? Acho que não fiquei tanto, afinal, o dono do blog é um jornalista.
Impressionado com a forma de escrever. Poesia, ironia, verdades iminentes. Uma compilação daquilo que mais chama a atenção na arte da escrita.
Uma matéria propícia. Não como falar de tal feriado, sem levar em conta todas as ligações externas que o mesmo atraí.
O senhor fez isso muito bem. Me espelharei em você quando precisar materializar conhecimento.
Parabéns