sexta-feira, 9 de março de 2007

Quantum Bush (blogbagem em uma visita só!)

Come to daddy!

No dia do eclipse lunar total, um evento que exerce fascínio incondicional sobre a grande maioria dos seres humanos e, quem sabe, outros seres, eu estava num lugar alto, com vista privilegiada do céu. A conversa com uma amiga tomou rumos de questionamento existencal básico, sobre nossa pequenez diante do universo, quem somos, de onde viemos, para onde vamos... Tudo inspirado pela visão extraordinária de um satélite natural, um astro, afinal de contas, que mostrou sua vulnerabilidade em relação a um fenômeno tão convencional quanto um bloqueio da luz, uma sombra. Parece bobagem pensar em algo assim, mas com quais outros corpos celestes poderíamos observar, a olho nu, tal acontecimento, senão com a Terra, o Sol e a Lua?

Pois bem, papo encaminhado aos mistérios da vida, ela comentou o filme "Quem Somos Nós", o que constatei mais tarde ser uma tradução bastante arbitrária. O nome em inglês é "What the Bleep Do We Know!?", a palavra "bleep" representando o bipe que ouvimos em programas de televisão quando alguém fala um palavrão. Portanto, "Que ***** Nós Sabemos!?" ou ainda "Que Diabos Sabemos Nós!?" poderiam ser alternativas mais interessantes. De qualquer maneira, o filme se apresenta como uma introdução à física quântica e, nas palavras dela, outras pessoas que o viram consideraram a película muito "didática". Assisti ao documentário e, apesar dele possuir opiniões especializadas em abundância, achei menos didático do que poderia ser. Na verdade, ele acaba sendo simplista e eliminando conexões importantes para explicar os fenômenos que busca explicar e com os quais maravilhar os telespectadores, sugerindo viagens no tempo, possibilidades infinitas de manipulação da matéria e por aí vai.

Interromperei este assunto com uma pequena dose de crueldade, para mais tarde uní-lo a outro. No mesmo dia, conversamos sobre a construção da história e de teorias que apóiam um grande período de domínio da mentalidade esquerdista, a partir dos anos de governo militar, que são contados pela esquerda, e portanto o consenso sobre as torturas, repressão generalizada, polícia do pensamento, exílio, etc. Ok, mas após 500 anos de história contada pela direita, que tal variar um pouquinho? Isso assumindo que esse direitismo começa na escola, onde somos ensinados a pensar na benfeitoria dos bandeirantes, na selvageria dos índios, nas boas intenções dos catequizadores em difundir o cristianimso (historicamente de direita, ou seja, a favor de políticas totalitárias e/ou capitalistas) entre os pobres animais. Atingir a imparcialidade é, na minha opinião, uma grande utopia, e se vamos ter que engolir interpretações de dois ou mais vieses intercaladamente, assim seja, até que consigamos pensar em uma solução.

E não é nem questão de ser lá ou cá, mas perceber uma realidade muito maior. Não era só no Brasil que havia governo militar. Os EUA apoiaram e colaboraram em muitos outros lugares para manter um bom nível de controle sobre a região e impedir que, em plena guerra fria, esses países de terceiro mundo pendessem perigosamente para o lado comunista do "conflito". Estudiosos, economistas e políticos, na maioria militares ou apoiadores do regime, excluíram de seus escritos a parte em que fomos apenas joguetes nessa briga por poder, a caminho do grande desenvolvimento que nos esperava. Se um período de prosperidade (questionável) tem esse custo e está tudo bem para nós, ora, que volte logo o tal regime!

Muito se fala no declínio evidente da influência soviética no mundo e da ruína da URSS, mas pouco se fala da gradual e simultânea extinção dos regimes militares de direita. Talvez porque não fosse mais necessário, graças à queda do lado inimigo, mas podemos supor que as duas frentes retraíram por motivos muito próximos: a vitória do neoliberalismo, que não via aliados no conservadorismo exacerbado de nenhum dos lados (cá para nós, o comunismo também tinha lá seu quê de conservador), mesmo podendo ser creditada essa vitória também à direta, como era conhecida na época. Este novo (mas não tanto) conceito econômico com óbvias consequências políticas acabou entrando forçadamente como uma terceira via, claramente capitalista, mas muito mais branda do que a ditadura, se é assim que queremos continuar chamando o governo militar (Oh!).

Eis que paramos para observar o Brasil, pedra imponente incrustada na América. Aqui se fala o português, ninguém quer saber do espanhol, sabe-se mais da história de grandes homens franceses e americanos. O que você aprendeu sobre a Venezuela ou a Bolívia na escola? Muito mais do que aprendem os americanos e europeus? Lá também tem Amazônia... Eles mascam folhas de coca para enfrentar a altitude... Que índios interessantes! Você, que usa camisa do Che... ou você, que o considera um assassino mordaz... não importa: ele foi um dos primeiros a falar de América Latina unida, e isso não quer dizer Mercosul ou acordos comerciais fortes para combater o dólar e o euro em igualdade no mercado internacional. Pelo menos não para mim! É um envolvimento cultural mais forte, criar laços mais estreitos, um interesse verdadeiro pelo povo vizinho. Mesmo que Huguinho Chávez e Evinho Morales não estejam pensando muito nisso, talvez estejam, enjoa-me ouvir opiniões duras contra esses insignificantes países, vindas de quem nunca se interessou em absoluto pelos coitadinhos.

É pelo mesmo motivo que a Lua nos interessa mais durante um eclipse! Ela está sempre lá, rodando, quietinha, com suas fases... até olhamos para ela com mais freqüência quando está cheia, mas ainda assim o fenômeno da sombra supera em número de espectadores. Se agora somos forçados a olhar para a Venezuela por causa do eclipse da nacionalização, com as fases da estatização, da recusa a acordos multinacionais e, quem sabe, em última instância, o confronto direto com os EUA ou qualquer outro país que não esteja satisfeito com isso, ora, pelo menos agora estamos olhando para aquele cantinho do continente! Agora o Bush vem falar para o Lula escolher logo seu lado. "Governo americano investirá MILHÕES na Ameriquinha..." Who's with me?! E o Brasil, cumprindo seu papel de testa-de-ferro, como bem disse meu avô, impõe sua economia avançadíssima sobre os temíveis países terro-nacio-socia-comunistas... austero, imponente, chefinho do quintal... que tristeza!

Saibamos que, logo após o 11 de Setembro de 2001, especulou-se uma suposta tríade maligna na Am. do Sul: Venezuela, Bolívia e Colômbia... e, surpreendentemente, a eleição certa de Lula, um sindicalista, um nordestino, um ignaro instruído oriundo do proletariado, incluiria o Brasil na brincadeira. Leiam um trecho desse artigo de 2003, na minha tradução livre, que analisa a política externa americana após os ataques. (leia na íntegra em inglês, se preferir, no site da FPIF, Foreign Policy in Focus, do Centro de Relações Internacionais):

Do Chile a Cuba, de Cuba ao México, países latino-americanos se uniram a Washington no encalço dos ataques de 11 de Setembro. A Organização de Estados Americanos [OAS, em inglês] emitiu uma declaração, dizendo que "individual e coletivamente, nós vamos negar a grupos terroristas a capacidade de operar neste Hemisfério. Esta família americana permanece unida". A despeito desta irrefutável demonstração de solidariedade, a administração Bush voltou largamente as costas para seus aliados latino-americanos. Mais perturbador é que está promovendo guerra contra seu próprio "eixo do mal" latino-americano - os "narcoterroristas" colombianos, o Fidel Castro de Cuba e o Hugo Chávez da Venezuela - com pouco ou nenhum esforço para levar em conta as preocupações dos líderes latino-americanos, realizar acordos regionais ou comprometer-se com a OAS.

Ainda outro país foi adicionado a este "eixo do mal", de acordo com o representante conservador Henry Hyde, com a eleição de Luiz Inácio ("Lula") da Silva no Brasil. Durante sua posse, Lula garantiu erradicar a fome no maior país da região, uma ameaça [a fome] muito maior do que o terrorismo internacional, incitando o presidente venezuelano Hugo Chávez a proclamar um "eixo do bem".

E o Fome Zero não vingou. Mesmo assim, para algumas instituições dominantes, é tempo de reavivar laços, dá para perceber? Bush e o Papa vêm ao Brasil... afinal, não se pode deixar a peteca cair! Católicos a todo vapor adorando um membro da Opus Dei (defesa e "crítica") dentro de um carro à prova de balas! Americanistas medrosos a todo gás (venezuelano) babando ovo para o presidente das guerras inventadas em um carro blindado! Não que os EUA estejam lá muito preocupados com a imagem que passaram ao enfiar o dedo na cara do Brasil quando sentiram-se ameaçados com o terrorismo, é nossa obrigação superar isso, não é? Afinal, o "papai" da América é assim mesmo, meio durão, dá umas broncas de vez em quando nos filhinhos, sob pena de tirar-lhes a mesada ou, hum, aumentar os juros sobre a dívida da mesada. George Bush veio é ver se está tudo correndo bem no celeiro, enquanto o pobre Lulinha fica chupando o dedo ou a cana-de-açúcar na esperança de que nosso metanol venha a resolver todos os problemas da economia brasileira.

Fora-Bushes em todo lugar não vão fazer muita diferença enquanto Lula diz "venha Bush"! Digam o que quiserem, mas romper com a economia americana demanda muita coragem... Se a Venezuela e a Bolívia definharão nas próximas décadas, só o tempo dirá. Resta-nos escolher se queremos apenas assistir e ficar na corda-bamba por tempo indefinido e de maneira compulsória, ou se vamos finalmente enfrentar a queda pela qual esse país ainda não passou, não sofreu, um país que ainda não existiu... Risco-Brasil, alta e queda de juros, do dólar, do real... Enquanto o Brasil for dependente, cada vez colônia de uma metrópole diferente, não vai chegar nem ao extremo bom e talvez nem ao extremo ruim.

O presidente parece estar fazendo tudo certinho ao receber o texano com um tapete vermelho, inclusive atrapalhando o já bem atrapalhado trânsito de São Paulo. O Lula de quem a Regina Duarte tinha medo, 4 anos e pouco atrás, acabou não fazendo nada que ameaçasse o tédio da classe média, o bolso da classe alta e a miséria da classe baixa. Tampouco é o Lula que cumpre corretamente os mandamentos do Consenso de Washington, já que ainda é criticado duramente por não promover o desenvolvimento econômico que se espera de um país desse tamanho. Mas, por que lado então criticar esse presidente, fantoche ou não, se esse paradoxo não tem solução? A única maneira de criticar é por pensamentos políticos diferentes. Se quero um país de primeiro mundo, alinhado aos interesses do resto do primeiro mundo, seja lá o que isso signifique, quero um presidente de... direita? Se quero um Brasil livre de dívida externa, cultura de massa, sem escalada por dinheiro nem violência para coletar os resíduos da riqueza excedente e concentrada (a nossa tal crise da violência, que, pasmem, não brota da terra), quero um presidente de... esquerda?

Quem dera fosse simples. Como também não tenho resposta para isso, voltarei às questões existenciais, mais misteriosas ainda, mas divertidas, de certa maneira. A física quântica é, em termos extremamente simples, a física das possibilidades. Porém, ela foi envolvida em uma manta New Age nos anos 70 e 80 do século passado, o que confundiu bastante as coisas. Passou-se a falar de "pensamento positivo" e que a matéria, nossos corpos e o estado das coisas poderia ser alterado com o poder da mente - basta condicionar-se para fazer escolhas diferentes, ou todas as escolhas ao mesmo tempo, enfim, quem sabe arranjo alguém gabaritado para falar disso aqui no blog em breve. O fato é que, para muitos, finalmente uma ciência trazia fé! Sim, pois é sabido que pensamos em religião para assuntos de fé, nossa imaginação e nossos desejos, e em ciência para assuntos estabelecidos, o real.

Assim, depois de assistir ao filme, fiz algumas pesquisas a respeito da física quântica e achei, de fato, mais conversa New Age do que qualquer outra coisa. Mas o engraçado é que me deu, sim, alguma esperança. Isso me deixou desconfiado e me fez ir atrás dos céticos que refutam o uso atual desta ciência com muita veemência. Mas isso também não me satisfez, fiquei com um pouco de raiva dos ultra-sérios. Percebi que quanto mais me aproximo de uma crença qualquer, mais quero me afastar dela, e quanto mais me afasto, mais quero me aproximar. Estamos sempre procurando algo em que acreditar. Se não estamos, afundamo-nos na apatia do dia-a-dia, ou na alegria de não ter preocupação maior do que trabalhar para comer, reproduzir, divertir-se e morrer. Mas a pulguinha atrás de nossa orelha é muito insistente e, como eu, você já deve ter se perguntando "o que somos?", "para onde vamos?" e afins, além de parar às vezes pra pensar que são muito poucos os que se envolvem com essas questões realmente importantes da vida, seriamente ou mesmo profissionalmente. Quem está promovendo nossa evolução constante, ou como quer que se chame o processo que nos leva a realizar implementos diferentes, de tempos em tempos?

Se a evolução é o que nos manteve andando sobre a Terra nesses trocentos milênios, que permitiu nossa adaptação a novas condições sem que deixássemos de reproduzir, então existimos para evoluir e evoluímos para existir. Este processo não é palpável, ou visível enquanto acontece, talvez não na questão biológica, mas na tecnológica é, e muito. Você se sente envolvido neste processo de evolução tecnológica, de progresso, de alguma maneira além de trabalhar que nem um camelo para gerar dinheiro, para que "alguém" cuide disso para você? A comunidade científica é enorme, sim, mas não será acertado dizer que as decisões históricas mais importantes foram tomadas por "eleitos" e "iniciados" nas artes do poder, da ciência e da produção em geral? Não sei de você, mas, acredito que a chamada democracia, que deve existir em algum lugar remoto, não aqui no Haiti, implicaria participação em TODOS os processos decisórios por parte do povo, isto é, se você quiser fazer faculdade de física nuclear e contribuir para uma nova Guerra Mundial, você pode!

Para me sair bem dessa confusão toda, tento dizer o seguinte: se você quer realmente fazer a diferença, trate de se esforçar para ter uma participação real no pensamento da produção, na geração de lucro, na organização social, na revolução tecnológica, na pesquisa biológica, sei lá. Só não fique punhetando em blogs, jornais ou discussões de bar. Poderia terminar apenas com essa ironia raivosa, mas prefiro terminar com um poema de minha autoria. Calma, não o escrevi agora, depois ou antes desta bíblia de sandices, faz algum tempo. Tenho outros sobre o mesmo tema, mas com o tempo vou publicando. Talvez a arte seja uma punhetagem mais digna, pois brinca com a técnica ao mesmo tempo em que mexe com os sentimentos. Sintam alguma coisa ou não, mas tomem uma posição, pelo amor de deus!

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Piada Fácil (Vício Circuloso)

Deixemos de lado
o lado outro onde o óbvio ulula
Façamos política, apenas,
se for nula a pena por ter o mundo despotizado

Voltemos às trevas,
já que a luz do saber vislumbramos em bombas.
Louvemos ao corvo,
já que as brancas pombas matamos
sem reservas

Quebremos o vício
Pois por séculos certos
circulamos duvidosos.
Toquemos na chaga,
já diz o mago que sara:
falemos da ciademocra
sem dizer que a val escratiza

Criemos então a ideal,
o contrário do óbvio:
afirmemo-nos na incerteza,
aprendamos pelo paradoxo.
Percebamos que humor não é quando a desgraça é engraçada,
mas quando a piada é não fazê-la.

AllanZi – 21/10/2003

Um comentário:

ju disse...

oi,
texto mto bom.. e denso pra ler... tentei ver o filme mas sai nos 5 primeiros minutos.. entao nao tenho comentarios sobre...
qto ao bush.. tenho raiva.. pq fiquei 1 hra pra entrar em sampa ateh o metro tatuapé.. mto absurdo.. sampa tava um caos!
bj