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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

_raiz_

Não há templo
estufa ou bálsamo
que conserve a fugacidade da paixão

Há algo por baixo, porém
que vem à tona
se temos força
e alma pra buscar

Um amor enraizado
mais terra firme
que céu incerto

De sabor picante
raiz forte
para os paladares mais distintos
mais sábios e experimentados
naquilo que gra-ti-fi-ca

O gosto da eternidade
não sedimenta
pois se move em sentimento puro
do núcleo ao magma vital

É dessa quentura que bebo
quanto sinto o calor
de ter e ser você e eu

É esse gêiser ancestral que resiste
e nos propele a novas alturas
quando pensamos ter chegado ao fundo

É esse amor terroso
que aprendi ser origem
do vermelho da rosa
na superfície

Destaco essa flor quantas vezes precisar
rasgo-me em seus espinhos
se assim for, não importa
pra te dar repetidas vezes
ao infinito

Porque agora sei do que se alimenta
e prefiro dar de comer ao que somos
que perfumar o que podíamos
e nunca teríamos sido

Amo-te radicalmente

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

"Olha pra frente!"

É o que falo quando nosso Pedro, de 4 anos, está correndo e tentando olhar para os lados ou para trás. Porque há precedentes de quedas quando ele corre assim, sem foco.

Correr sem foco. E não é que às vezes um conselho simples que você dá ao seu filho volta com tudo e lhe dá um grande tapa na cara?

E, calma: longe de mim lançar mão de discursinho corporativo sobre concentração em metas e resultados. Nada disso.

Muito mais do que gostaríamos, fazemos isso metaforicamente, na vida. A ordem é apenas seguir em frente, essa ordem muda que nos comanda desde cedo. Então, a gente vai e apenas vai. Isso parece legal, mas não é. E pode ser a origem de muito sofrimento, decepção, descontentamento, depressão. A gente "só vai", mas com mil expectativas não assumidas. Quando batemos na parede da realidade, tudo cai por terra.

E o problema não é tanto de não saber o que nos espera. Não sabemos, mesmo. Não tudo, afinal, pois tem uma coisinha que, sim, podemos ter certeza de que vamos encontrar.

À frente está o presente. 

O que se a|present|a diante de nós. 

Não? E o que mais haveria de haver, na verdade?

Quando tentamos avançar sem observar o que esse 'agora' realmente é, caímos. E, veja, a ideia é apenas tentar. Se vamos saber no que o presente consiste, é outra pergunta sem resposta. O esforço sem-esforço de tentar notá-lo já é suficiente, pois nos mantém minimamente no momento atual.

O futuro não passa de uma imagem na cabeça. O passado, uma lembrança. Melhor entranhar esse saber já sabido e agir como se o passado não tivesse acontecido ao invés de ficar recordando o que é ido, bom ou mau.

Ao invés de correr na direção de algo imaginado, podemos correr sem imaginar nada, cortar o vento do presente, com velocidade total ou com cautela, vai do gosto. Olhar para a frente e viver o presente é a única segurança que podemos ter ao navegarmos por esse pretenso caos da vida/mundo que se desenrola nisso que insistimos em chamar de tempo. 

Nada disso é fácil. E tentar seguir meu próprio conselho é algo que está em andamento, um trabalho em progresso. Mas é simples: um dia de cada vez, uma parte do dia de cada vez, uma hora por vez, minuto a minuto, se puder. A vida não para de se apresentar. E a gente não pode se furtar de algo tão urgente e novo a cada instante.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

o tal tao

Há uma simplicidade complexa regendo tudo e todos.

Uns tentam compreendê-la; outros, subvertê-la; outros, negá-la; outros, divulgá-la; outros, ignorá-la; outros, destruí-la; outros, explicá-la; outros, escondê-la; outros, crê-la; outros, desvendá-la; outros, esquecê-la; outros, homenageá-la; outros, registrá-la; outros, desfrutá-la; outros, desmascará-la; outros, aceitá-la.

Se o um e o outro realizam tais intenções, é irrelevante. O importante é que há. E mesmo quem diz não haver, há de admitir que é preciso presença para haver ausência. Então, há.

O problema é a maneira como uns tentam impor a outros, e outros a uns, sua forma de abordar "isso", cujo nome também é irrelevante. Tudo e todos têm o direito de trilhar seu próprio caminho, em companhia ou na solidão, para aproximar-se ou distanciar-se "disso" que é ou não é.

Entrar em conflitos e propagar a paz, falar e calar-se, construir e destruir, entrar e sair, levar a sério e tirar sarro, considerar sagrado e profano, divino e mundano, aprender e ensinar, iniciar e cessar, fazer e desfazer: é tudo uma questão de abordagem, mas tudo na direção da mesma coisa, "disso", da simplicidade complexa que rege tudo e todos, em última instância.

Perceber isso parece ser o principal trabalho a empreender na vida. E posso estar errado.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Uma nova espiritualidade




















Nós gostaríamos de nos apresentar
Nós somos uma nova geração de desbravadores espirituais
Nós não precisamos mais de respostas de segunda mão

Nós não culpamos mais os outros por nosso sofrimento
Nossa espiritualidade vai além da culpa e castigo cósmicos
E além do pensamento 'nós e eles'

Nós não nos agarramos mais a livros sagrados
Pois todos os livros são sagrados
Nós não matamos em nome da verdade
Pois a verdade está em todo lugar

Nós estamos dispostos a enfrentar sem medo a experiência do presente
Sem conclusões e sem preconceito
Nua, como no dia em que nascemos
Abertos ao que vier

Nós não esperamos mais pela vida
Ou por alguma revelação divina no futuro
Porque nós vemos vida em tudo o que há
Incluindo a espera pela vida
E vemos Deus em tudo o que outrora rejeitamos

Nós não sonhamos mais em fugir
Ou com algum "Céu" perfeito
Pois nos aconchegamos na incerteza
E a dúvida já é nossa velha amiga
E o não saber é amado com carinho
E a imperfeição é profundamente sagrada para nós

O corpo está incluído
A mente não é a inimiga
Sentimentos são sagrados
A sexualidade é celebrada
Nós amamos a bagunça que é ser humano!

E nós finalmente entendemos
Que sabedoria e compaixão
Absoluto e relativo
Dualidade e não dualidade
Transcendência e imanência
Pessoal e impessoal
Humano e divino
Nunca estiveram separados

- Jeff Foster

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Não é a mamãe


Ser pai é foda. Nos dois sentidos. Só é menos foda, em ambos, quando o cara insiste em imitar o pai que foi seu avô ou bisavô: provedor distante, incapaz de afeto, filhopata sentado à ponta da mesa de jantar ordenando que lhe "passem as batatas". No mais, ser pai, principalmente de um bebê, é muito foda, e não tem mais lugar praquele tipo de figura paterna arcaica, a que deu vulto ao execrável patriarcado – tiozão que não sabe trocar uma fralda. Hoje, a gente tem mesmo que se desdobrar para aprender um monte de coisas que ninguém fez questão de nos ensinar, já que tem muita mãe machista por aí que prepara os filhotes na escola da tirania. Não foi o meu caso, mas os ecos disso tão por aí, na novela, na propaganda, nos Felicianos do Brasil. Não vem ao caso.

Mas também não é o caso do extremo oposto. Juro que fiquei tentado a ser esse pai fofíssimo da leva new wave de pais que, desculpem, só existem nos contos de fada hipsters: querem ser mães, dizem-se quase mães, sentem-se como um bizarro protótipo de mãe sem peito para aleitar. Mas não são! Você tem a sua cotinha de dar conforto, de aliviar uma cólica ou outra, de fazer dormir um dia aqui, outro ali. São todas pequenas conquistas que nos fazem pensar: "Porra, sou foda!" Ser pai é foda, mas você não é, não. A mãe é. Esses momentos mágicos só vão rolar quando o pimpolho ou pimpolha estiver nas últimas forças, sem energia sequer pra fazer o que sabe melhor: dizer, com seu corpo, gestos e choro que "não é a mamãe". 

É, amigo, acostume-se, pois você não é mesmo! É pai! Eu me senti meio fora da brincadeira, que de brincadeira não tem nada, nos primeiros meses. Por mais que eu quisesse me mostrar ali, disposto, “vamo que vamo”, é a companheira que resolve a maioria dos perrengues diretos com o bichinho. Afinal, ele quer estar muito mais em contato com aquela deusa maravilhosa que o gerou, não com esse maluco peludo! Você vai fazer compressa e mamadeira no meio da noite, sim, vai correr pra comprar papinha no mercado, dar uns banhos catastróficos e fazer uns rolês impensáveis no decorrer do percurso. Mas aquele milagrinho berra pela sua progenitora, sempre!

E não me venham com essa de "pai grávido". Ainda que eu curta alguns posts do blog de um famoso pai X-Men, autor de um livro que descreve um pouco o conceito mencionado, não é assim que acontece na maioria dos casos. Pode ter um ou outro que passe mal durante a gravidez (da companheira), mas há grandes chances de ser só ansiedade. Eu passei mal de tanta dor nas costas, mas tenho certeza que a minha esposa teve muito mais disso do que eu.

Não tô aqui impedindo ninguém de ser fofo, só que isso vai soar meio falso, às vezes, não natural. Agora, ser carinhoso, terno e bondoso com o seu filho, não é opção, é obrigação! Mas é nesse momento que a gente aprende a não esperar nada em troca, já que, quando a chapa esquentar, o nenê quer é mamar. E não pense que esse lance de ser pai 2.0 (3.0? Onde estamos, mesmo, nessa contagem?), consciente do seu lugar na criação da cria, tem muitas regalias. Lembra que a gente abriu mão de ser aquele Darth Vader, em uma galáxia muito, muito distante? Pois bem, agora você tá sempre tão próximo que vai ouvir um monte se resolver tomar aquela cervejinha com "os caras" e passar um pouco da hora. Experimenta!

Acabei de ir lá fazer uma inalação no garoto. O Pedro tem 11 meses e só agora eu sinto que a nossa conexão tá começando a acontecer. Ele sorri quando eu chego em casa e gosta de me ouvir tocar violão, dançando, todo animado. As viradas de tempo são cruéis com os bebês e o peito dele tá com um gatinho miando de novo. Mas adivinha quem tava lá, fazendo ele dormir e dormindo junto, de tão cansada? A mamãe. A Thaís é a melhor companheira do mundo, é claro, e eu sou seu aprendiz na jornada que é o crescimento do Pedrinho. No fim das contas, você não é pai: vai se tornando, bem devagarinho, como um útero externo de onde se estende um novo cordão, invisível. Eu não tenho um útero de verdade, então, pro meu pequeno me conhecer por dentro, ele precisa que eu me mostre, assim mesmo, toscão, verdadeiro, do mesmo jeito que eu virei marido. Ser marido é foda. Mas esse já é outro papo.

--

Allan Zaarour é jornalista, músico e blogueiro ocasional. Pai do Pedro e marido da Thaís, vai aprendendo com os tropeços e escrevendo sobre eles.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Religare

Este post será bem direto e reto. O caro desleitor já deve ter se confrontado com as seguintes questões: "Você tem religião?/Você foi batizado?" "Você acredita em Deus?" "Você acredita em quê?" - e assim por diante, o que, conforme a resposta, vem acompanhado de certas expressões faciais de aprovação/desaprovação, surpresa, estranheza, etc. Afinal, vemos o outro pelo filtro de nossas ideias, crenças e descrenças, e a coisa fica muito mais sensível quando alguém segue determinada doutrina, culto, disciplina - algo que soa verdadeiro para aquela pessoa e que ela sente valer a pena ser seguido.

Sobre a origem da palavra, encontrei esse curto post e achei interessante.

E é só. Mas se posso apenas comentar isso, sem entrar em papos linguísticos, a "falsa etimologia" é mais legal que a explicação oficial, no fim das contas, pois a ideia de "religação" também pode ser aplicada a grupos, a um agrupamento de pessoas dentro da mesma fé. O som de "religião", para mim, sempre remeteu a "reunião".

E assim, volto para a minha primeira experiência, ou uma das primeiras, nesse campo. Tinha uns nove anos quando ia de carro com alguns amigos da mesma idade para algum lugar - ao volante, a mãe de um deles, que solta a pergunta: "E você, Allan, não vai se batizar e fazer primeira comunhão?" O tom não era exatamente de reprovação ou ameaça, mas havia gravidade nas palavras, algo de austero. A tradução disso na minha mente em desenvolvimento foi: "Ai, caramba, será que eu vou ficar sem amigos se não frequentar o 'catecismo'? Será que só eu não terei religião? Será que Deus vai me castigar?"

Esse tipo de constrangimento era comum justamente na época em que amiguinhos estavam prestes a passar pela tal da comunhão. Olhando para esses mesmos amigos hoje, uns mais, outros menos próximos de mim, vejo que esse rito católico de passagem não os tornou mais ou menos religiosos. O que observo em muitos é que o mero fato de "ser" católico parece lhes garantir uns pontos com Deus, evitando que Seu castigo recaia sobre eles, mesmo que cometam os mais variados pecados. O pensamento dessa grande maioria de cristãos "não praticantes" é, mais ou menos: "Não vou à igreja, mas fui batizado e comunguei, estou coberto, a salvo!" E parou por aí a experiência religiosa dessas pessoas: procurem o significado de comunhão no dicionário e vejam que o ritual não mudou muito suas vidas e a maneira de se relacionar com o próximo.

Outros cristãos, os evangélicos, tendem a ser muito mais ativos dentro e fora de seus grupos e a euforia com que participam das reuniões e também com que externam sua fé aos não iniciados tem se espalhado com grande velocidade pelo Brasil. Essa paixão costuma se intensificar quando são mostrados exemplos que se livraram de inúmeras mazelas por meio de milagres e outros frutos da sua crença. O estigma "crente", inclusive, é atribuído a eles sem que se pense muito a respeito, a ponto de uma criança se dizer crente apenas por que o pai o é, não tendo ainda discernimento para acreditar ou não no que dizem as escrituras sagradas. O levante evangélico tem estendido o poder de pastores à esfera política (e a um papel moralizante), mas não vou entrar nesse mérito pois esse é apenas um devaneio que vai culminar nas minhas próprias escolhas religiosas. Aguardem!

O ateísmo merece um capítulo à parte. Não sei se é apenas a minha percepção, mas noto nos diversos canais internéticos um esforço grande para consolidar o conceito do "que é ser ateu" e, mais ainda, gerar embate direto com quase todas as religiões. O ateu moderno é uma espécie de anti-Deus e anti-religião, vítima de uma sociedade cristã, mas não está atento ao fato de se aproximar do que fazem todas as religiões: unir pessoas em torno de uma crença. Afinal, é preciso acreditar na não existência de Deus, não? Passando por alguns vídeos no YouTube e fóruns que pregam o ateísmo, vê-se que há muito ceticismo e exaltação do rigor científico para explicar o mundo, e há também um tipo de paternalismo sobre as religiões. "São todos ignorantes, como crianças, precisamos mostrar a verdade, que Deus é uma farsa!" Novamente, pode ser só a minha torpe imaginação, mas me parece que essas pessoas querem justificar com a inexistência de Deus sua própria tristeza e solidão - sua "não religião", seu desligamento e desconexão. A realidade dura do dia a dia parece ser mais fácil de aceitar se for resultado apenas de reações químicas, união aleatória de moléculas e explicações afins para a vida.

Pessoas que optam por seguir religiões de origem africana sofrem certo preconceito, pois a mística envolvida nos rituais soa meio "satânica" à maioria dos cristãos. Tenho pouquíssimo conhecimento nessa área e, assim, não vou reforçar esse preconceito. A comunidade espírita, por sua vez, tem aumentado, e a presença do tema em filmes popularizou a religião; uns dizem não ser religião, assim como algumas correntes "racionalistas" e "cósmicas" exaltam a ciência e misturam tudo num grande caldeirão. Esse parágrafo foi só pra não dizer que não falei desses temas, pois me deu certa preguiça, admito.

Não sou batizado em nenhuma religião. Muitas vezes, respondi àquelas mães de amigos catequizados que minha família preferiu me dar a liberdade de escolher o que eu quisesse seguir. Assim foi! Hoje leio, assisto e ouço muitos professores e guias espirituais e não escondo ser atraído por linhas mais pro lado oriental do pensamento. Está na modinha, eu sei, ser budista e seus derivados, ir à Índia e "descobrir-se", meditar e exercitar o espírito com mantras e práticas de transcendência. Não é o meu caso. O que todos os espiritualistas que li parecem ter em comum, o que me interessa mesmo nesse tipo de ensinamento, é um chamado para ASSUMIR A RESPONSABILIDADE pela sua vida - não entregar "a Deus" o seu caminho, não atribuir ao destino tudo o que lhe acontece, mas entender que você é TUDO o que há. Assim, em você está a guerra e a paz, a raiva, a calma, tudo o que você quer para você e critica nos outros - portanto nosso pensamento e nossas ações contam. Sentimos dentro de nós aquilo que nos faz vivos (pare agora e sinta o que está por trás do pensamento. Tem algo, não tem?), e isso vale para quem segue ou não todo tipo de religião; e cuidar dessa UMA coisa, essa fonte eterna de vida, é o que é, para mim, ser religioso. 

A origem correta da palavra, a que rejeitei no início do texto, faz sentido aqui, para quem teve preguiça de clicar no link: "relegere, em que re-, "de novo", está associado ao verbo legere, "ler", abrigando o sentido de "tomar com atenção". Uma pessoa vive a religião quando, uma e outra vez, cuida escrupulosamente de algo muito importante, algo que deve ser cultuado." 

E o que é mais importante que a vida?

--

Este é o centésimo post do The Passed Pawn! E eu vou comemorar: uhú!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Te encontrei a buscar
Permiti me encontrar
Descobri: não precisa

Você é agora
O que mais?

Vivi no antes
temi depois
perdi meu presente
hoje

Te quero sem nada
nó desatado
feliz num só
nós

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Quem cedo madruga?

O silêncio da madrugada é companheiro
Parece que a luz é intrusa nesse reino de paz

Numa história de horror ao contrário
a alvorada é que atrai à cidade os zumbis
putrefatos, caçando carniça para beliscar

Em coletivos
levados ao centro
ponto de encontro de almas penadas

E esse bolo de dor sub-humana
fermenta embaixo do sol

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O retorno de mim

Sou homem, ou pelo menos desejo ser
Não se pode ser o que não se almeja
Um assassino o é porque assim o quis
Um conde, um palhaço
todos anseios deles
mas tudo justificado
ou seria, se ao menos admitissem

Eu admito, pela primeira vez
que quero ser homem
mas já quis não querer

Confessando-o
de qualquer forma
me aproximo de Deus

É uma forma mesquinha
mas não hipócrita

Se quisesse ser Deus
Deus me faria homem
para que desejasse ser-me
desde o começo

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Astronautas de Deus

Às vezes me sinto apenas parte
de um gigantesco mecanismo
no mais impecável caos

Astronauta de Deus
enviado para vasculhar o mundo
e nada mais

Esse uniforme hábil foi-me dado
não para destruir
nem impor ordem ao que não tem

Mas para tocar, cheirar, ver e ouvir
Degustar o que só pode ser sentido

E o sentido de tudo será sempre dúvida
no coração de quem ainda se importa
em saber

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Sonhos cinzentos

Temos sonhos cinzentos
que com um certo acabamento
terão a cor da vontade da mulher

Cinza no cerne
vermelhos de amor
e uma paz frio-azulada

Dores do parto do lar
doce lá

sábado, 29 de agosto de 2009

Deslize

Deslizas tanto a mão pela flor
que vais encontrar um espinho

Não é surpresa, bem sabes
mas não antecipes a dor

Deixa, que quando vier
ouvirei de uma vez teu clamor

Em vez da lamúria constante
por futuro dissabor

--

De algum dia de 2009...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Minimundo

No minimundo de uma cultura sempre novíssima, cujos habitantes julgam não cultivá-la, há estranhíssimas auras em torno dos feitos das pessoas que carregam os nomes das pessoas que os carregam seus feitos. E eu aspiro mundar-me, mas submundo-me ainda, não sabendo ser sorte a minha periférica frustração.

Hoje todo cada um (serumano, pessôua) é uma marca, com seu (meu) logotipo estampado nos megamultimeios internéticos afora, com sua (minha) música tocando em autocadores virtuais etéreos, e a minha (sua!) frasE-E de EFEIT.O, exibida repetidatidarepemente à exaustão da exaustão ocular/cerebral alheia/própria.

Queremos ir, estamos chegando, mascarados como nunca, em mil camadas fotoxópicas, numa festa sílica chip de gente, no zumzumzum de tumtumtum organelétrico, sem saber se ainda tem algum no corpo. Mas não há escapatória quando se é um diplomácrita... Inventa uma desculpa e sai, e mente. Entre e minta-se em casa, fique.

Aparando-se as arestas de uma outra bobajada múndica, a de nossos pais e mestres, revolvemos revolutos nada novo, vã guarda-pó e colixonadora. E a última desilusão será a que me desarmará para sempre, e desarmar-te-á também, arte, numa rendição completa de nossa condição egotríptica de pensar o mundo pensado, não-mundo.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sentinela da Sorte

Vivo para dar forma ao ar que me circunda
e deformá-lo com um movimento irrefletido de mim
deixando, às vezes, sem função a luz que me vê
mas no esforço constante de olhá-la

E você procura um certo momento memorável
numa angústia futurista
fiel ao que virá

Qual desses sou eu?

Escrevo com toda certeza essa dúvida
para que pertença ao passado
e saiba disso pra sempre

Ao passo que fui na frente
dizer ao ar do presente
e à luz desse espaço
que me vejam ser formado
e sumir de reflexo
antes que tarde seja

--

AllanZi - Never Dream (Lounge)(Test) - clique com o botão direito e escolha 'Salvar link como...', ou 'Salvar destino como...' para baixar. Agora armazenados para toda a eternidade em um lugar virtual desconhecido, os links não mais perder-se-ão. Será assim a partir de hoje! E em breve testarei o player embutido desta maravilha tecnológica, acoplável ao blog. Aguarde, pessoa que não leu o que está escrito, o futuro se aproxima!

P.S.: Crédito da imagem:
Rosana Ferreira (clique sobre para ir a seu perfil no Flicker).

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Rosto a Reboque

Cimento e ar
passeio arenoso e sujurbano
parece prazeroso chamar escombros de lar

Mas é terra de chances
apesar de infértil
e se torna impermeável à fluência do amor

Ação oportuna e promíscua é sim construir
e que o vazio fique sempre pra depois

Até explodir de tanto vagar esse espaço
e manchar de nada nossa cara somática
e total

Mas viva viver nesse lodo
e que o modo do mundo seja puro
cinzento
e fatal

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Ascendescer

Quando criança, subir em árvores, aranhar-me entre os umbrais e trepar em brinquedos metálicos eram maneiras de superar a pequeneza infantil, almejar alturas espirituais pelo meio físico, aspirar lembrar-me, lá em cima, da verdade ainda fresca numa memória tão vasta. Mas essa pequeneza cresceu, com o tempo e a experiência, e hoje não há arranha-céu, viagem aérea ou espacial que a vença - sou homem, como todos, que deseja ser mais do que é e se torna inferior ao que sente.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Da beleza de desistir

Faça, apareça, queira, possa, aconteça, tenha, seja, vá mais longe, garanta, chegue mais perto, prepare, suba, corra, conquiste, arrisque, vença, supere, atire-se, alcance, ultrapasse, saia, entre, não deixe, ME DEIXE EM PAZ! Sei da falta de originalidade nessa enumeração, e não só não sou o primeiro a usá-la como é a segunda vez que o faço. Me desculpem, caros desleitores, mas eu desisti de criar um primeiro parágrafo ('lead', ou lide, como grunhem chatamente os jornalistas, algo que desisti de ser, também, há algum tempo) que fosse minimamente inovador. Talvez eu pudesse, sim, se eu quisesse alcançar tal objetivo. Mas eu desisti.

Em uma sociedade violentamente positiva, beirando a histeria, com sua auto-extra-over-ajuda mequetrefe, desistir pode significar, talvez, iniciar outro empreendimento (só para ser um pouquinho positivo, vai), mas não necessariamente uma humilhante derrota. É uma honesta alternativa à impositiva tarefa de suceder sempre e em tudo! Quem aguenta ouvir a lista do parágrafo anterior todos os dias? Só ficamos cada vez mais deprimidos por não conseguir agir assim perante a vida, sempre.

Esse bombardeiro de otimismo tem a ver, na minha despretensiosa e parcial análise, com a lógica consumista. Nada genial, eu admito, talvez você já tenha pensado nisso, ou muitos outros... Mas então por que você e eu insistimos em adotar essa "filosofia" horrenda em nosso dia-a-dia? É possível que a lavagem cerebral esteja dando certo. Querer - Poder - Comprar - Esvaziar-se - Desejar - Não Poder - Endividar-se - Desesperar-se - Cobiçar - Forçar-se - Vender-se. Todas as etapas desse ciclo nefasto são entremeadas por mensagens "positivas", disparadas sem pudor em propagandas na televisão, no cinema, no jornal, no metrô, no ônibus, no outdoor (desse estamos, aqui em São Paulo, temporariamente livres, perdão, mas achei ótimo), na internet e sei lá onde mais, visto que, uma vez absorvidos, esses incentivos acabam sendo transmitidos de uma pessoa a outra, muitas vezes de maneira automática, impensada: "Ah, compra sim, amiga, dá pra pagar em 10 vezes no cartão...".

Ora, me deixe desistir, uma vez ou outra, se essa persistência constante e massacrante tanto sofrer me traz! Largue do meu pé! Alguém por acaso já se lembra de, um belo dia, com ou sem a vigilância dos pais, desistir de ir à escola após o toque inoportuno do despertador? Quer coisa melhor que ligar para o trabalho e, naquela falsidade que a gente se acostuma deliciosamente a desenvolver, falar que está doente e não ir? Não ir! Meu deus, como é simples! O poder terapêutico do ato de desistir, aliás, é tremendamente subestimado. Se vocês se lembram de momentos semelhantes aos que acabo de citar, imagine então desistir de encontrar aqueles amigos de namorada de amigos de terceiros que você não quer ver? Muito superficial? Então pense em se "esquecer" de ir... votar..! Sei, ainda está pouco pessoal... Veja, se já te passou pela cabeça que a idéia de escrever um livro é de jerico, NÃO ESCREVA! De que vai te servir prestar o vestibular mais concorrido do hemisfério, você não tem dinheiro para pagar cursinho e mesmo se conseguir passar, por milagre, ainda terá que terminar o curso, e quando o fizer, essa merda de diploma vai enfeitar, amarelembolorado, a parede de uma casa cujo aluguel, bom, você não desistiu de pagar, mas está realmente difícil. NÃO PRESTE! NÃO SE PRESTE!

Desistir é reconfortante. Uma decepção só acontece após uma tentativa, a frustração, a frustração latente de nossos tempos "otimistas". O que nos frustra é esse positivismo FALSO, pois se não estivesse tão encrustado na cuca que vencer é a única alternativa, não sentir-nos-íamos tão mal com uma simples derrota. E é aí que está a beleza de desistir. Mesmo que eu vá me contradizer no próximo parágrafo, a desistência é a vitória da derrota, é a antecipação de um futuro que não é nem será... Que ato reúne em si tamanha beleza paradoxal que não o de desistir? Porém, infelizmente, menosprezamos esses sentimentos que de tão pequenos passam despercebidos, mas quando se desiste de um esforço, útil ou inútil, relaxa-se os músculos, descansa-se os neurônios, respira-se fundo, antes de outra investida, nesse planeta de homens que investem, investem a favor de e contra si mesmos, sem nunca desistir de destruir e matar. Desistir da guerra talvez fosse o exemplo que faltava e, pensando bem, não é nada mal. Alguém lembra por aí de algum país que pode e DEVE desistir de meter seu exército onde nunca é chamado? Desistir de testar bombas nucleares em gente e inventar conflitos medonhos em lugarejos miseráveis? É, não sei...

Vejam bem, se não tentássemos nada seria mais fácil termos sido natimortos e não é por aí que caminha o meu idiótico divagar. Todos fazemos, todos tentamos, todos caímos e em raríssimas oportunidades sucedemos, ainda que grande parte de nossos sucessos sejam ilusórios ou até mesmo um pouco esquizofrênicos. Mas se esse diacho de livre-arbítrio é para valer, deixar uma empreitada de lado é parte de nossa toda-poderosa humanidade, é uma ação-não-ação, não é vitória nem derrota (desisti de não me contradizer), é um bem inerente, talvez até instinto de sobrevivência, e é justamente esse ato reflexivo (ou reflexão) que o "mercado", máquina monstruosa de opressão, nos quer arrancar do organismo, pois desistência é negação, negação é oposição, e oposição é sempre ruim para os negócios. Desistir é pensar de fato no que estamos a fazer, pois fazer não requer pensar, e isso nós sabemos e repetimos muito bem todos os dias, em nossa automação feliz. Aliás, se você pensasse no que faz, talvez já tivesse desistido de ler esse texto, na minha visão pessimista, ou pode ser que quem já desistiu de ler anteriormente e agora se dedica a outros afazeres esteja patologicamente acostumado a desistir e nunca desista de desistir, e isso é realmente uma desgraça desnecessária.

Sim, SIM, dizem sempre os otimizadores do mundo, naquele sorriso calculado que está no verso do livro mais vendido da prateleira mais visível da livraria mais popular do shopping mais freqüentado do bairro mais rico da cidade mais importante do país mais SUJO do mundo. Auto-ajudam-se escrevendo tamanhos excrementos, mas recebendo o peso desta nojeira em dinheiro gringo. Eu digo NÃO, e acho que escrever sobre o poder de desistir não exclui a possibilidade de tergiversar sobre a delícia de pronunciar esse nasal NÃO, mas eu já desisto de antemão de tal idéia. Auto-ajudem-se, se quiserem, e DESISTAM da obviedade cotidiana de persistir em erros seculares. Eu não quero aqui soar como os mesmos que ataco, preconizando o "faça, diga, pense..", portanto eu desisto de fazê-los desistir. Mas tenho certeza que há nessa maluquice toda aqui escrita uma vontade oculta de levar a psicoterapia à extinção. Se as pessoas desistissem mais, não precisariam se consultar com um profissional sobre suas insistências esquisitas, que as faz sentir perdidas no mundo. Não desista, caro Freud, de entender nossa mente já doente desde o Éden... mas, desde o incidente com a maçã, deus já desistiu de Adão.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Sem eutanásia para o Papa

Texto de 5/4/2005 escrito por mim para o blog jornalismado.blogspot.com.

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Se fôssemos católicos mexicanos (por que não?), estaríamos comemorando a morte do Papa. Explico: nesta cultura, a morte é tratada com festa, como uma celebração à vida do ente que acaba de deixá-la. Deixá-la, diga-se, nos corações e nas mentes de quem o conheceu, para deixar também seu legado, sua sabedoria, sua velhice.

Essa relação é resultado de uma tradição herdada dos povos nativos que viviam no país antes da chegada dos europeus. Os nahua, os otomi, os purepecha e os totonac, povos pertencentes às civilizações maia e asteca, acreditavam que uma vez por ano, no Dia de Finados, os mortos vinham visitar os vivos. Isso provaria, na concepção deles, que os mortos viviam em um mundo paralelo bastante semelhante ao dos vivos e que era perfeitamente possível o contato entre os dois. Na cultura desses antepassados, a crença era motivo de festa. E essa tradição permanece até hoje entre os mexicanos. Música, decoração especial e o melhor da culinária local fazem parte da comemoração. Nas casas, costuma-se armar um altar em homenagem aos falecidos. Mas a tristeza passa longe.

Um povo que lida bem com a morte, vive melhor. No entanto, aqui por estas bandas, aqui no quintalzinho dos States, medo. Cá como lá e na velha "mãe" Europa. Um luto medroso pela morte da americana Terri Schiavo, porém tímido e fugaz, e um luto apavorado e grandioso diante da figura esbranquiçada daquele que tão bem lutou contra a pecaminosa liberdade.

No caso de Schiavo, o que sentimos foi a dor de um rosto inexpressivo, que nos é indolor, ao mesmo tempo. É uma dor que não pode mais distribuir sorrisos falsos, sinais de positivo para as câmeras, posar com o presidente intrometido para fotos de agências de notícias pasteurizadas. É a dor da morte sem máscara, sem o filtro da ciência que tudo pode, tudo conserta, tudo limpa. Morte da qual não se pode fugir, o que é tão natural. Morte, e nada mais.

Crescente medo da morte, um irracional pavor do fim das coisas, como se acordássemos todos do torpor tecnológico que nos faz (nós, seres virtuais internéticos) parecer eternos. Estranhamos a velhice como uma doença incurável. Doença não é. E a cura, não há Bill Gates que encontre. Como os republicanos dos EUA no caso Terri, queremos fazer da morte um pecado. Como os democratas dos EUA, deixamos a morte morrer de fome, como se não fizesse parte de nós, e achamos assim que ela irá embora, sem peso na consciência por tamanha crueldade.

Uma semana curta para tanta choradeira. E continuamos a ignorar o fundamentalismo explícito em ambas as situações: a morte lenta de Schiavo, o triunfo do moralismo com que os EUA governam a si próprios e estendem para o resto do mundo com seus dedos elásticos. A morte do Papa, o triunfo de uma das maiores e mais bem sucedidas jogadas de marketing (todo seu papado) já feitas pela Igreja desde sua fundação, uma insituição que consegue se manter como a mais antiga nesta aura mística e dourada e abrir caminho pelos anos 2000 com sua cúpula pontiaguda.

O que não se percebe é que a lenta morte do Papa (desde que ele começou a morrer por aí na televisão e nos jornais), que durou anos, foi o rápido renascimento do fundamentalismo religioso romano. Vejam que não há Cristo na Igreja Católica Apostólica Romana. E nossa Roma tecno-bélica agradece: impede a morte natural para impor a morte matemática e numérica no Iraque, como se ao presidente do mundo coubesse decidir os destinos de todos, como se fosse... Quem? E a eutanásia quem quer é o povo, mas nem isso pode.

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Baixem música de graça: Sonolento, do AllanZi que vos des-fala. Canção (mp3) e letra (txt).

domingo, 29 de abril de 2007

Inutitulidade ou O Homem de Negócios de Negócios de Negócios...

Você está desempregado? Eu também. É difícil, não é? Qualificações, habilidades, escolaridade, experiência... "facilidade em intercomunicabilidade em inúmeros níveis"! Aposto que alguém já deve ter colocado isso no currículo. Você não? Talvez algo parecido. Entrevistas, dinâmicas (argh!) de grupo, olhares escrutinadores de "RHs" despreparados, pseudo-psicólogos que analisam até a maneira como você respira e pisca, tudo espreitando e conspirando contra a sua, ora, sacrossanta boa vontade em querer fazer alguma coisa, QUALQUER coisa, em troca de trocados, com o perdão do trocadilho. E não é que até realizar esta simples prostituição tem sido complicado, ultimamente?

Pois é. Acontece que existe uma nova forma de trabalho: o trabalho sobre o trabalho. Isso pode não ser tão novo quanto parece, mas do jeito visto hoje não tem precedentes. Bom, talvez desde o início da agricultura, nossa maior e imbatível revolução rumo ao progresso econômico, existissem trabalhadores cujo trabalho era pensar no trabalho de outros que faziam o trabalho. Detalhadamente, pessoas que não só estruturavam os procedimentos, mas que também pensavam o trabalho como fruto, produto, bem, matéria. Será? Vou admitir que não fiz pesquisa alguma para escrever estas bobagens, mas é muito provável.

Acontece que, hoje, tivemos a pachorra de ir além. A criação de novas áreas ou sub-áreas do conhecimento acorrentou os trabalhadores intelectuais ao mundo corporativo. Talvez isso não seja para sempre, mas, por enquanto, vemo-nos obrigados a estudar, trabalhar em e GOSTAR de assuntos como "comunicação corporativa", "gestão de pessoas", "relação com investidores", "sustentabilidade" (seja lá o que isso signifique), "responsabilidades" diversas, "hospitalidade" (receber gente rica, possíveis investidores), "análise de risco", "consultoria" disso e daquilo, "assessoria" para mais outro tanto de coisas, "saúde laboral" (!), psicologia do trabalho (!!!), etc, etc, etc.

Usei "trabalhadores intelectuais" não sem motivo. É claro que ainda existem aos milhões os braçais, peões, chão-de-fábrica ou como queiram chamar estes semi-escravos, que estão cada vez mais fora do que dentro das empresas, pois, com a globalização, tornou-se mais fácil explorar o labor de gente desesperada, mas lá do outro lado do mundo (ou aqui no Haiti), onde ninguém vai ver, nem reclamar, nem se compadecer dessas almas. Os robôs já fizeram sua parte ao remover uma quantidade monstruosa de pessoas dos processos de fabricação, das linhas de montagem. Mas, enfim, estes peões são cartas fora do baralho, ou pelo menos estão dentro das mangas dos ternos alinhadíssimos dos novos senhores de engenho.

Quero me ater a uma nova hierarquia no trabalho intelecutal, este considerado importante, e o surgimento de uma casta altíssima na escada para o sucesso. O dinheiro está em áreas que exigem níveis técnicos absurdos, mas com pagamentos igualmente absurdos. Quem hoje domina a tecnologia, domina a informação e domina o mundo. A Era da Informação já era. Foi um período criado pelos meios de comunicação para alimentar em nós a fantasia de que temos acesso a tudo, liberdade de pensamento, absorção de culturas até então remotas e produtos ainda mais fabulosos provindos dessas culturas. E o que fazemos com essa informação? No modo de pensar do capitalismo, rigorosamente nada. Podemos enfiar em algum lugar, fica a critério.

Esse conhecimento é mero troco, umas migalhas jogadas a todos (ainda não todos, mas quem sabe em breve) em reconhecimento à nossa obediência servil por um par de séculos. Se na Idade Média a arte e a técnica eram guardados a sete chaves pela igreja, hoje, fique tranqüilo: está tudo aí para quem quiser catar do chão. Esbalde-se com livros "subversivos", descubra na internet como construir uma bomba caseira, assista a filmes iranianos, decifre o código morse e até o DaVinci! Pouco importa. Sabe por quê? Nada disso vai te dar acesso ao dinheiro. Hoje, meu amigo, a informação que interessa é outra. Táticas militares são utilizadas em multinacionais, a chamada "inteligência", já ouviu falar? Pois bem, de nada vale a sua. Essa é para ganhar muito, mas MUITO dinheiro, com zeros que não cabem em banco nenhum.

Quanto à nossa mera inteligência, onde se encaixa nessa hierarquia? Para proteger inteligentemente todo esse esquema inteligente de inteligência, existem hoje trabalhos que se relacionam diretamente ao trabalho, é o chão-de-fábrica do novo poder. De um lado, mentirosos profissionais que servem para comunicar as benfeitorias de seus clientes e varrer o resto para baixo do tapete, entenda-se assessoria de imprensa (assim mesmo, com letras minúsculas, como todo título deveria ser). Outros mentirosos seriam os que estão preocupados com a saúde física e mental de seus funcionários, os que se preocupam com o impacto ambiental que a produção maçiça de seus clientes/empresas produz, e alguns similares. O resultado de seu trabalho é composto, na maioria das vezes, por números que devem deixar todo mundo contente. Quando se pode descontextualizar ou mascarar esses números, melhor ainda!

Dá para perceber? Todos esses títulos e novas áreas "importantes para os negócios" servem para que o trabalho seja justificado. E se o trabalho é justificado, o dinheiro e o poder de uns pouquíssimos, também. Trabalhamos no que vai interferir no trabalho e distanciamo-nos da produção em si. Não sei dizer, a essa altura do texto, se isso é bom ou ruim, mas soa estranho que falemos e pensemos mais em maneiras de viabilizar, assessorar, sustentar, analisar e permitir o trabalho do que fazê-lo. Se temos cada vez mais urgência em provar o valor de nosso trabalho, só pode significar que ele o está perdendo. Temos títulos e mais títulos para trabalhos esdrúxulos, mas o próprio trabalho fica dando voltas em torno de si mesmo, aproximando as pontas de uma linha de progresso que em breve será um círculo, uma loucura feita só por ser feita, para que uns teham o poder, só pelo poder.

Com mais gente, vêm mais responsabilidades, mais nomes, mais assessorias, análises, auditorias (auditores são os dedos-duros dos negócios, para garantir que a grana está no lugar certo) e fiscalizações, evidenciando uma desconfiança que já nasceu com a concorrência capitalista ou que, aliás, já nasceu conosco, sendo o motor da busca nervosa por poder sobre nossos semelhantes, da nossa evolução, do nosso progresso. O mais interessante é que toda essa atenção sobre os procedimentos acaba apenas criando mais brechas para que negócios sujos sejam feitos. Como? Corrupção. Não é mais fácil apenas corromper quem fiscaliza do que quem faz? Aí temos o tráfico comendo solto, o contrabando de armas, de INFORMAÇÃO... Tem quem venda a alma por uma cifra escrita em guardanapo. Isso alimenta ainda mais essa concorrência de guerra mundial, mas o jogo é esse, não é?

Algum engravatado rico (pois nem todo engravatado é rico e vice-versa) poderia dizer:

- Mas você está simplificando demais! Nesse contexto, é claro que tudo isso parece ridículo, mas nós estamos ditando os rumos da humanidade, seu sustento diário, a perpetuação da espécie!

E tem como complicar mais do que já o fazem? Perpetuando a espécie com certeza estão, só não sei que espécie é essa. Talvez a E$PÉCIE. Um dia precisaremos, se já não precisamos, de auditores que façam auditoria nos auditores dos auditores, dos auditores... Mas, claro, não é assim que vai se chamar. Será a Audi3pG Carlson-Kramer 9005, ou coisa que o valha. E talvez até o Carlson ou o Kramer ganhem um prêmio Nobel por isso, simplificar o mundo dos negócios e, conseqüentemente, a nossa vida. Bom, eu não estou vendo a vida se simplificar em nenhum aspecto. É fácil confundir simples por cômodo, habitual. Estamos nos acostumando a pensar em todas as coisas de maneira mais complicada, a ponto de se tornarem simples, ou, quando somos apenas mão-de-obra barata, limitamo-nos a relegar essa rotina complicada aos nossos superiores, o que complica ainda mais a nossa simplificação da vida. Pode parecer complicado, mas é simples: ficamos escravos de tudo o que construímos.

Assistir: Syriana. Fabuloso filme que fala muito mais sobre isso do que a bobajada acima. Mas é bom assistir com atenção, talvez duas ou três vezes. É, é complicado.

sábado, 31 de março de 2007

O sistema em bloco do delicioso dinheiro violento

Eu adoro o Bloco de notas. É verdade! Se tem uma coisa que o Bill Gates fez bem feito nesse mundo foi o Bloco de notas. Um programinha safado de simples, mas que não consigo deixar de manter ali, no cantinho da tela, sempre, em um atalho rápido para dar vazão igualmente veloz a qualquer pensamento que passear pela mente durante o grande tempo que passo por dia na frente desta coisa que insistem em chamar de "micro" computador. E com pouquíssimas opções de estilo, esses acessórios que só nos fazem perder mais tempo do que já perdemos brigando com o Word.

Mas o Bill Gates fez muito mais do que o Bloco de notas. Devemos supor, é claro, que para entrar no seleto grupo das pessoas mais ricas (materialmente falando) do mundo, é preciso realizar algo mais... hum... grandioso? Pois ele criou um império. Aqui nesta atrasada (deve fazer um mês que não escrevo nada) e insólita blogagem, tentarei estabelecer uma conexão ainda mais insólita e criada totalmente a partir de meus pífios conhecimentos entre algumas das coisas que nos parecem mais reais: negócios, riqueza e violência.

Pois bem, Bill e Steve, dois universitários nerds, nos esquisitos anos 70, ignorando essas bobagens de Vietnã e Guerra Fria, começaram a brincar sério na garagem de um dos dois em maravilhas de brincadeira que viriam a revolucionar vários desses mundos que dizem ser os nossos: o dos negócios, o da tecnologia, o das relações humanas, do entretenimento, da comunicação... uma porrada de mundos! Cortando a parte em que Steve (Jobs) foi para um lado comer sua iMaçã e o outro para outro, ficar olhando pela janela - eles criaram um sistema operacional que operaria o sistema. Especula-se que eles tenham copiado a brincadeira da Xerox, sim, aquela que virou sinônimo de fotocópia, mas vamos ver se ponho um link aqui para vocês se deliciarem com essas pequenezas e continuar o pensamento.

Eles permitiram que eu escreva esta bobagem toda no Bloco de notas (eu te amo), que você leia essa bobagem aí do outro lado, e que possa, a qualquer momento, conduzir um rato eletrônico para outra bobagem qualquer que esteja ao redor dessa janela que não dá para fora, mas para dentro, isso é lindo, deram visualidade para operações virtuais que reinventaram o antiqüíssimo trabalho com papel, guardado em arquivos de metal com centenas de quilos, que nos poupa energia, tempo, dinheiro, tudo com esforço mínimo, delicioso, é pornográfico, bate-papo, câmera, risos, é o computador, beije-o, coma-o, msn, que tesão, jogos, mp3, dvd, homens, mulheres, ah, adão e eva no second life, orgasmo!

Este é o lado bom, talvez branco, a superfície, talvez água, o Yang, o cristalino, o bem-aventurado, a bonança, os bem intencionados, gente que fez dinheiro fazendo coisas boas para a humanidade, muitos podem supor. Supunhetemos, então, que eles sejam a exceção, mas na verdade são a metade dos capitalistas. E vamos para o lado negro, o Yin, as trevas, o underground, o fogo do inferno, o quinto da puta que pariu, os malignos, o azar.

Alguém aí assistiu O Senhor das Armas? Filminho legal, tal, Nicolas Cage, sacadas de câmera, bala na agulha, cano da pistola. Denúncia: oh, existem contrabandistas de armas! Eles são frios e calculistas! E são ricos! Ora, e por que não poderiam estar na lista Forbes dos homens mais ricos e poderosos do mundo? Homens, sim, pois mulheres são usadas nisso tudo com muito menos participação nos lucros, o machismo atinge também o trabalho "informal"... E mais, o que impediria estes homens de figurar em tais listas como benévolos publicitários, CEOs e CFOs de grandes empresas das indústrias da informática, construção, telecomunicação, educação, dos móveis, do mármore, dos refrigerantes, explosivos de extração de minério, do petróleo, das jóias, do fast-food, calçados, música, cinema, cigarro, vidro..?!

Billy e Stevie ganharam o sistema fazendo um sistema. Estes personagens ocultos ganharam o sistema sistematizando o crime e botando medo nos boas praças da superfície. Um mundo subterrâneo que sustenta todo o resto visível, fornecendo Kalashnikovs para guerras civis em países de terceiro mundo e de fronteira em terceiros orientes-médios, maconha para o favelado e cocaína para o playboy, redes de jogos com bicheiros e donos de bingo, produtos contrabandeados no Centro de São Paulo e nas praças de Moscou, pirataria de artistas famosos dos Istaduzunidus e jogos eletrônicos Made in Japan. A máfia promove muito mais estabilidade para o mercado mundial do que aquela bolsa da China que falei no penúltimo e longínquo post. A violência é muito mais parâmetro de saúde econômica que o "Risco Brasil" e termos estúpidos afins. O risco de sangue no chão indica muito mais a vitória de uns sobre outros no âmbito da concorrência corporativa do que o traço vermelho na apresentação em Power Point (outra grande invenção dos nerds) dos presidentes de multinacionais indicando baixa nos lucros.

Tudo está no método e no fim. Enquanto temos bonzinhos trabalhando para criar os móveis que permeiam a escola, que educa pessoas que trabalharão como faxineiros em um banco ou que serão cientistas a tentar salvar o mundo com pesquisas financiadas por mega empresários sobre a cura da Aids, temos mauzinhos operando na surdina para incitar o vício em heroína do músico famoso, que dividirá a agulha infectada com um outro pobre coitado que tem diabetes e compra medicamentos da Pfizer, remédios que outro misturará no Johnny Walker para dar um barato e fumar tranquilo um cigarro. Em tudo há o leve e o pesado, o lá e cá, o céu e a terra, o forte e o fraco, o bonito e o feio, o dentro e o fora, o Yin, o Yang, a água, o fogo, o bem-aventurado e o desgraçado, o crsitalino e o opaco, o "certo" e o "errado".

William Bonner: Novos ataques do PCC aterrorizam São Paulo e levam caos à cidade que nunca pára.

Fátima Bernardes: Novo iPhone revoluciona mundo das telecomunicações e coloca Apple na vanguarda da tecnologia.

William Bonner: Nova vítima de bala perdida no Rio de Janeiro é a sétima em uma semana.

Fátima Bernardes: Novidade no Japão: camisinha que fala é a nova onda entre os jovens na terra do sol nascente.

Homer Simpson: Ãhn?

E a gente fica encucado vendo os políticos falarem que vão dar um jeito na violência. A violência! Mas há muito mais gente interessada em sua continuidade do que pode imaginar nossa ingênua telespectadoridade. Ela movimenta uma indústria muito mais poderosa do que aquelas que têm seu sucesso comunicado pela sorridente Fátima Bernardes enquanto o motorista de ônibus come arroz com farinha. O crime, comunicado diariamente pelo viril William Bonner enquanto a dona-de-casa passa roupa, sustenta com conexões muito sutis, porém sólidas, entre os heróis e os vilões da sociedade capitalista, toda a "realidade" de progresso, evolução, riqueza e bem-estar que estamos acostumados a almejar em nossas vidinhas trabalhadoras e trabalhadeiras, com os olhinhos brilhando de emoção ao comprar um celular novo. Todo branco tem um preto e o equilíbrio desta nossa casa moderna, maravilhosa e iluminada, é um porão nojento, frio e escuro.

A mesma grana que nos mata cruelmente nos enche de gozo empanturrado todos os dias, criando ligações sinápticas entre o mundo e o submundo. O dinheiro sujo é limpo pelo limpo, que depois é sujado. Mas pode ser que esse equilíbrio esteja apresentando sintomas pendentes ou balançantes de destempero e exagero. A violência é produto e produção, assim como é produzida a vida tranquila que produz consumo. Da próxima vez que ler sobre o mais novo bom moço.com e o vir com penteado impecável na foto, pense que, por trás das lentes, ele pode estar apertando a mão do mais antigo escroto.br, piolhento e seboso, para que tudo fique nos conformes e a roda gire... pelo menos durante o tempo que durar seu impulso. No momento em que ela começar a parar e alguém girar para o outro lado, pode ser que nosso universo.org comece a degringolar, gerando o caos da próxima revolução, que vai virar a mesa e trazer novo balanço à gostosura da vida em sociedade. Mas eu adoro o Bloco de notas.

Ouvindo: A Tribe Called Quest - Electric Relaxation. Nesse vídeo abaixo vocês podem perceber que eu gosto sim de hip hop. Talvez este ótimo som vos lembre de repudiar 50 Cent e coisas do gênero quando ouvirem da próxima vez. O hip hop já existiu.