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domingo, 23 de abril de 2017

Carranca

Passar por você
quando veste sua carranca
é de cortar o coração

Sei que a carrego também
todos as temos
e que a minha presença
às vezes é cruel

Mas por que carrancamos?

O outro
nunca vai resolver o problema
que é do um

E nosso problema essencial
é não reconhecer o um
no outro

(Só abordamos o mundo
diferentemente. Por que
não podemos respeitar
as abordagens e só?)

Quando entendermos
que não é preciso
enviar sinal algum

Saberemos que a mensagem
já está entranhada em nós

Somos um
e só há outros
para que vejamos no espelho
ao mesmo tempo
o problema e a solução
de tudo

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Amor+

O amor - a palavra e o sentimento - teve diferentes significados ao longo da minha vida. Na infância, era a tradução de afeto, aquilo que se sentia pela família. Na adolescência, o sabor de amar era tão amargo que o amor devia ser evitado a qualquer custo. Quando o amor amadurece, na vida adulta, esse amor homem-mulher e suas variações, você o persegue, de certa forma, e ele te persegue também, desde que já tenha superado aquele amargor juvenil. E você o merece, finalmente. O amor pelos filhos já entra no que você supôs a vida inteira ser o tal do incondicional - e aí você sente que já amou tudo o que tinha para amar.

Mas existe um amor que perpassa todos esses amores e vai além. Um amor tão abrangente que transcende até o amor - a palavra, o sentimento e seus significados. É o que sustenta a cama onde se fazem os filhos e também todo um solo de guerra. O belo e o feio. Sustenta todos os gostos de viver, bons e ruins. É um amor tão grande que é O amor. É de onde tudo emana. É o que faz tudo ser. É um amor que não se sente - se é. E somos todos. Basta ver além das pequeninas formas em que o colocamos, deixar que se rompam e fazer o amor vazar até que preencha tudo, inunde tudo e o mundo, o universo. Somos invólucros desse amor e precisamos aprender a explodir.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Errâncias e extravagâncias de um minúsculo Quixote

Cândido Portinari - Dom Quixote e Sancho Pança Saindo para Suas Aventuras, 1956.
Deste arremedo de vida
o que de mim só sobrou
de uma cegueira sofrida
deste não-ser sem destino
é menos do que não sou
de entreveros intestinos
a exibir os desatinos
de matanças fratricidas.

Não sou motor nem contínuo
moto-contínuo não sou
senhor não sou nem doutor
não sou o criador desse engenho
daqui nem sei pra onde vou.

Não tenho burgo nem terras
brasão de nobre não tenho
não sou bush a fazer guerras
nem vassalo de algum rei.

Jamais fui dono de escravos
não fui, não sou, não serei
nem de mim mesmo sou dono
visto que a vida (eu suponho)
é um mero sonho num sonho

Sem negar que sou confuso
não uso ornamentos no corpo
na lapela cravo não uso
nos cascos não cravo cravos
para trotar sobre minas
de um soturno caos de agravos
das malcheirosas sentinas
desse planeta esquisito.

Moído de tanta pancada
a estiolar boiando no nada
no peito abafo meu grito
pois contra Zeus não blasfemo.

Nesse ruidoso vaivém
diante do cruel Polifemo
como Odisseus sou "Ninguém"
triste e risível figura
de minúscula estatura
a fisgar versos contritos
num oceano de detritos
sem Rocinante nem lança
sem o lhano Sancho Pança
longe dos pagos da Mancha.

o.a. 2008

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Uma nova espiritualidade




















Nós gostaríamos de nos apresentar
Nós somos uma nova geração de desbravadores espirituais
Nós não precisamos mais de respostas de segunda mão

Nós não culpamos mais os outros por nosso sofrimento
Nossa espiritualidade vai além da culpa e castigo cósmicos
E além do pensamento 'nós e eles'

Nós não nos agarramos mais a livros sagrados
Pois todos os livros são sagrados
Nós não matamos em nome da verdade
Pois a verdade está em todo lugar

Nós estamos dispostos a enfrentar sem medo a experiência do presente
Sem conclusões e sem preconceito
Nua, como no dia em que nascemos
Abertos ao que vier

Nós não esperamos mais pela vida
Ou por alguma revelação divina no futuro
Porque nós vemos vida em tudo o que há
Incluindo a espera pela vida
E vemos Deus em tudo o que outrora rejeitamos

Nós não sonhamos mais em fugir
Ou com algum "Céu" perfeito
Pois nos aconchegamos na incerteza
E a dúvida já é nossa velha amiga
E o não saber é amado com carinho
E a imperfeição é profundamente sagrada para nós

O corpo está incluído
A mente não é a inimiga
Sentimentos são sagrados
A sexualidade é celebrada
Nós amamos a bagunça que é ser humano!

E nós finalmente entendemos
Que sabedoria e compaixão
Absoluto e relativo
Dualidade e não dualidade
Transcendência e imanência
Pessoal e impessoal
Humano e divino
Nunca estiveram separados

- Jeff Foster

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Um dia na selva internética

Acordei bem cedo. Aliás, mal dormi. A selva da internet chama minha atenção o tempo todo, com sua flora colorida, fauna exótica e ruídos estranhos. A começar pelo cri-cri de um grilo, ao lado da minha rede, dentro da oca: as primeiras notificações do dia, antes ainda que eu me levantasse. E o grilo me segue aonde vou, grilando o que acontece na mata.

O caminho até a caçada diária beira um riacho apinhado de cardumes de notícias, rumo a um oceano de informações. No céu, revoadas de pequenos tuítes migrando sabe-se lá para onde – suas tendências são imprevisíveis. 


 Os trending topics


Chegando ao local que escolhi para caçar e obter algum sustento, fui pego de surpresa por uma chuva torrencial de e-mails. Não foi tanta surpresa assim, já que esse toró de correio eletrônico desaba mais ou menos nesse mesmo período, todos os dias. Procurei me abrigar, mas o aguaceiro era implacável. Tive que esperar passar e fiquei encharcado de pedidos e problemas.

Depois de me secar consegui, finalmente, atingir uma parcela do meu objetivo. Não abati nenhuma presa, mas ao menos colhi um cesto de frutos. Com a tarefa cumprida, relaxei e me distraí novamente, dessa vez com um grupo de macacos que macaqueavam sem parar pendurados na gigante árvore YouTube. Seus truques eram hilários e eu fiquei ali, acho, mais de uma hora assistindo.

O novo Porta dos Fundos tá imperdível, ri muito!


Terminado o espetáculo, resolvi partir em busca de algo mais substancial para levar à minha família. Foi quando me deparei com a monumental parede de pedra Facebook, onde todas as tribos da região gravam tudo o que lhes acontece. Tudo mesmo. Do que comeram de manhã até um mosquito que os perturbou. Li tudo, hipnotizado, e gravei com uma estaca a pequena história do meu dia até ali. 


 Tradução para o português: “hj meu dia foi fda e talz kkkkkkk!”


A próxima trilha ia por terrenos irregulares e lamacentos, mas que, depois de algumas webs de aranha pegajosas, davam em uma bela clareira. Não menos belas eram as amazonas seminuas me convidando para ver mais, uma tentação quase incontrolável de desviar do meu caminho. A essa altura, já tinha desistido da caçada e comido todas as frutas do cesto, mas me esforcei para não ceder àqueles encantos e segui.

Já conformado em voltar de mãos abanando à oca, resolvi mandar um recado à selva inteira. Subi em uma grande pedra e postei em alto e bom som o que pensava, sem gritar, deixando que as palavras ecoassem. Disse que me sentia mal e sozinho naquela floresta bizarra. Que gostaria de conviver mais com irmãos de outras tribos, que parassem de se esconder, e que podíamos mudar isso, juntos.

Qual não foi meu espanto quando ouvi o primeiro comment envenenado passar zunindo pelo meu ouvido direito. E outro, agora do lado esquerdo. Corri o mais rápido que pude, mas um dardo de dislike acertou meu braço. Não em cheio, apenas de raspão. Os arcos e zarabatanas das tribos rivais eram brutais, e seus donos farejavam meu sangue a uma tremenda distância. 

Um comentário... Corre!


Quando me safei da ira dos guerreiros comentadores, fiz um curativo simples com folhas de likes, que aliviou a dor da ferida. Olhei em redor e as coisas haviam se aquietado um pouco. Era uma boa hora para me recolher. Aquela selva havia me deixado exausto e terrivelmente sedento por um gole que fosse de realidade pura.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Insumo


Às vezes percebo
que todos percebem
que o sumo da vida
é um breve lampejo

E tenta-se obtê-lo
retê-lo, prendê-lo
na foto, no grito
no clique, no linque

Às vezes percebo
que todos se esquecem
que o insumo da vida
supera o desejo

É o grosso de tudo
a rocha
o tecido
a farinha
é o pão que se sova com as mãos

O sumo é o insumo

E pensam sabê-lo
de estalo
sem mínimo esforço
e o vendem
dizendo compartilhar
ao ignorar a partilha
do que há de mais puro

Suor
e bagaço

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O cassetete invisível



Olhos abertos, sem querer que estejam. Dispara, no pulmão, a respiração curtinha; no coração, o aperto se aperta; na garanta, um nó cego. Tem início o dia do cidadão de bem, feliz por poder ir e vir durante horas no trânsito lento de luzinhas vermelhas, ter a chance de comprar bugigangas na sexta-feira negra, por desfrutar das virtudes culturais coloridas de uma metrópole cinza. Ele está feliz por ter um emprego de 8, 9, 10 horas diárias onde pode ser verdadeiramente falso e distribuir alegremente sorrisos amarelos, que, por entre os dentes, dizem baixinho, sem alarde: "socorro". 

O habitante da cidade está tranquilo: já tomou a pílula de hoje no café, enquanto passava a mão na cabeça do filho pequeno, dizendo "comporte-se, tenha juízo, seja bonzinho". É tudo o que ele sabe ensinar. É tudo o que aprendeu. E parte para o dia sem medo de ter medo, olhando para os lados, prevenido contra o outro e tudo o que pareça estranho, ainda que seja o próprio espelho. "Está tudo bem, mas é bom ficar esperto", pensa.

As cobranças são naturais para esse ser civilizado, ele tem que ficar de olho na meta. É o pão que dela depende. Ele tem um alvo a atingir, mas também um pintado na testa. Esse ele nunca vê. Não precisa, afinal, é só não se virar, nem se levantar, ficar abaixadinho, mesmo, aqui atrás da divisória do cubículo, que tudo fica em paz. Não está na mira, nem atira, não fica no meio do que não lhe pertence, enquanto se apropriam de tudo o que poderia ser seu e de todos.

Volta pra casa, sua propriedade, e passa um tempão com a família, o que já é uma tradição: 2 horas. Depois de um banho morno e um beijinho na esposa, dorme o sono dos justos, não sem antes dar um traguinho rápido, ainda que desesperado, em um álcool qualquer. É só pra não tomar duas pilulinhas em um dia. Está relaxado, mas seu pesado sono não tem sonhos. Pesadelos também não tem, mas ele sabe que, se não mantiver religiosamente essa rotina, ele pode vir. E ele vem: olhos abertos, sem querer que estejam.

Quem se revoltaria contra uma vida tão indevida? 

Quem ousaria se levantar pra por o dedo na ferida? 

Quem se importaria em mudar quando a inércia é a medida?

Você e eu.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Pra acabar

Tanto se falou no fim do mundo e tão pouco esforço vi no intuito de defendê-lo. Afinal, que lugar, tempo ou experiência se quer conservar, ou é apenas a noção de mundo, para que possamos ter onde expor esse medo? Medo estúpido da finitude, como se a continuidade, do jeito que temos conduzido as coisas, fosse benéfica para alguém ou algo. Imagino, se fosse perpétua a parvidade dos homens e mulheres que hoje habitam a "estimada" Terra, muitos lamentariam sua não extinção. Para lamentarmos o fim, precisaríamos, antes, viver uma vida digna de saudade. (Viver, apenas, sem adjetivos) E de onde, pergunto, essa perda seria sentida? Do além, do paraíso, do inferno, do espaço, de outro plano ou existência? Pois sem antes nem depois, agora é o que há, e não ouço sequer um noticiário alardear: "Este é o momento pelo qual esperamos. O dia em que nós, seres humanos, descobrimos a infinita beleza deste finito mundo".

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Life's little difficulties

Maze of Glendurgan

You have to live off of life's little difficulties. You have to leave some of yourself along the way. Cause earth demands some of its matter back. And you will no longer be here to use it in a few years from now. Live on!

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Call it what you want


Some people tend to rush it
others like to seem blasé

Some people look for it
some people just ignore it

Some people try to pretend
they don't want it

But we all do

Call it Love
call it God
call it Joy
or Fulfillment

In whatever degree
what else is there
for us to be?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Ladeira

Gosto de tirar as mãos do guidão
De descer na maciota
de costas
na contramão

De poder subir no busão
e cochilar
sem saber em que ponto vai dar

Gosto do tempo que faço
quando largo mão de contá-lo

Desgosto chorar quando riem
Mas não rio quando o fazem
Me compadeço

Estar ao contrário
inverso
do avesso e liberto
é estar exposto
vulnerável
aberto e só

E gosto

terça-feira, 12 de junho de 2012

Buraco entre os dentes


Na limpeza dos dentes
o buraco entre eles
fica evidente

Sente-se tudo
o ar que refresca
assobia na gente

Na limpeza da mente
sente-se a vida que há
entre um receio
e outro

O intervalo entre o osso
o duro
e outro

Uma aflição
uma razão
uma intenção
e outra

O mole que há
o vazio
e a delícia de ser
sem esforço

Limpo!

O buraco da mente
e o coração cheio.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

!ConsumomusnoC!

Não costumo postar textos de outrem, mas este está merecendo. É do manifesto bolo'bolo, que já divulguei aqui há um tempo. O texto é dos anos 80, mas serve como uma luva para os 2000 e tantos. Essa sensação está muito forte ultimamente, ao nível do desespero. Não está? E o que fazer? Trabalhamos única e exclusivamente para sustentar um mecanismo de discriminação que coloca valores sobre a vida dos seres e recursos naturais. Pense com sua cabeça, sabote o consumo, venda suas coisas, grite, diga em público o que nunca diria, vá atrás de seus sonhos que largou para fazer dinheiro, use essas porcarias de mídias sociais para passar uma mensagem que preste, que mude a percepção de alguém... Faça qualquer coisa, mas faça!

--

Negócio A: decepção na sociedade de consumo

Em que consiste o Negócio A? Filés, bons estéreos, surf, Chivas Regal, Tai-Chi, Europa, Nouvelle Cuisinne, cocaína, esqui, discos exclusivos, Alfa Romeos. Será esta a melhor oferta da Máquina?

Mas e aquelas manhãs, indo para o trabalho? Aquela súbita sensação de angústia, desgosto, desespero? A gente tenta não encarar aquele estranho vazio, mas em momentos desocupados entre o trabalho e o consumo, enquanto a gente espera, dá para entender que o tempo simplesmente não é nosso. A Máquina tem medo desses momentos. Nós também. Por isso somos mantidos o tempo todo sob tensão, ocupados, olhando lá adiante para alguma coisa. A esperança em si mesma nos conserva na linha. De manhã pensamos na tarde, durante a semana sonhamos com o fim de semana, suportamos a vida de cada dia pensando nas férias que vamos tirar dela. Nesse sentido estamos imunizados contra a realidade, entorpecidos quanto à perda das nossas energias.


Não é que o Negócio A tenha se tornado traiçoeiro (ou melhor, eficazmente traiçoeiro) porque a variedade ou quantidade de bens de consumo esteja faltando. A produção em massa nivelou a qualidade desses bens, e a fascinação pelas novidades desapareceu definitivamente. A carne ficou meio sem gosto, os vegetais crescem aguados, o leite foi transformado num simples líquido branco industrializado. A TV é um tédio mortal, dirigir não dá mais prazer, a vizinhança ou é povoada, ruidosa e insegura, ou deserta e insegura. Ao mesmo tempo, as coisas realmente boas, como a natureza, tradições, relações sociais, identidades culturais, ambientes urbanos intactos, são destruídas. Apesar do fluxo imenso de consumo, a qualidade de vida despenca. Nossa vida foi padronizada, racionalizada, despersonalizada. Eles descobrem e nos roubam cada segundo livre, cada metro quadrado vazio. E oferecem a alguns de nós férias rápidas em lugares exóticos a milhares de quilômetros de distância, mas no dia-a-dia nosso espaço de manobra vai ficando menor, cada vez menor.


Também para os Trabalhadores A, trabalho continua sendo trabalho: perda de energia, stress, tensão nervosa, úlceras, ataques do coração, prazos, competição histérica, alcoolismo, hierarquia controladora e opressiva. Não há bens de consumo que possam preencher os buracos gerados pelo trabalho. Passividade, isolamento, inércia, vazio: isso não se cura com aparelhos eletrônicos no apartamento, viagens frenéticas, sessões de relaxamento e meditação, cursos de criatividade, trepadas rápidas, poder das pirâmides ou drogas. O Negócio A é veneno; sua vingança vem como depressão, câncer, alergias, vícios, problemas mentais e suicídio. Debaixo da maquiagem perfeita, atrás da fachada de sociedade afluente, só existem novas formas de miséria humana.


Muitos desses "privilegiados" Trabalhadores A fogem para o campo, se refugiam em seitas, tentam iludir a Máquina com magia, hipnose, heroína, religiões orientais ou outras ilusões de poder secreto. Tentam desesperadamente repor alguma estrutura, algum sentido em suas vidas. Mas cedo ou tarde a Máquina agarra seus fugitivos e transforma exatamente as formas de rebelião em um novo impulso para seu próprio desenvolvimento. "Sentido" vira logo senso comercial.

Naturalmente, o Negócio A não significa apenas miséria. Os Trabalhadores A têm sem dúvida alguns privilégios inegáveis. Seu grupo tem acesso a todos os bens, todas as informações, todos os planos e possibilidades criativas da Máquina. Os Trabalhadores A têm a chance de usar esse poder para eles mesmos, e até contra os objetivos da Máquina. Mas se eles agem apenas como Trabalhadores A, sua rebelião é sempre parcial e defensiva. A Máquina aprende rápido. Resistência setorial sempre significa derrota.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Viva-nos!

Nossa paz está sempre por um fio
que nos liga ao concreto, ao real
ao injustificável sustento da ganância
(ou à ganância "sustentável", chega!)

A rotina é dura, mas é nossa criação
Há de se quebrar o ciclo no lugar mais impensável
justamente onde o elo é mais forte

Romper-se o motivo
Estourar-se o conforto
Renegar-se essa droga de dor aceitável

E viver-se!

Venha, meu amor
vamos pra dentro, não embora
pois estamos sempre a ir
e ir

Vamos vir e recolher
tudo o que de fato é nosso
pois só nos ensinaram a brigar pelo alheio
e isso a gente não quer!

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Um poço de mim

Se estivesse vazio
de onde viriam as lágrimas?

É que tenho ido pouco ao meu poço
deixo a cargo do excesso
a vazão disso tudo que sinto

Se buscasse com o balde da arte
um bocado daquele mistério
toda vez que nascesse

Beberia da essência um pouquinho
um gole que fosse, não importa
voltaria de mim a saber muito mais

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Carma, Alma Minha

(noite do apagão)

Há dias em que nos dá um estalo. Não importa a grossura das camadas com que recobrimos nossa vida em sociedade: o experimento-vida deve e irá se concretizar.

Assim como a água de um rio canalizado não desaparece, sempre fluirá a matéria de que é feito nosso destino, a intenção-mor de nossa existência: ser.

E que seria ser sem sua completude? Quem inventou a banal pretensão de que nossas hábeis mãos e técnica apagariam o amargo que precede ou sucede o doce?

Quem seria tão ingênuo a ponto de pensar numa passagem terrena de pleno conforto e gozo, sem que se prove o dissabor da angústia e do incômodo pesado do fardo de estar?

Há dias em que nos dá um estalo e vontade de explicar o que é plenamente explicável a quem é absolutamente impossibilitado de compreender que não há o um sem o outro.

Sentimos raiva por nossas pequenas desgraças cotidianas, ignorantes do propósito da raiva, que é sabê-la. Concentramo-nos na desgraça, e tudo o que dela colheremos é a incompreensão da próxima.

Sentimos amor por nosso parceiro e achamos que o que devemos cultivar é a pessoa: protegê-la dos males, da sedução externa, do mau tempo, da dor... E esquecemos de sentir só amor e sabê-lo.

Sentimos ódio de quem nos ofende, mas nunca nos perguntamos se esse pequeno demônio dentro de nós já ajudou a resolver sequer um mísero problema ou desavença. Procurei e não achei.

Os fluxos de bile e hormônios são manifestações primitivas de nossos desejos corporais. Ira, medo, perplexidade e horror não devem ser seguidos ou obedecidos, apenas liberados, sem alarde.

Sentir, pensar, viver e desconhecer. Eu não conheço o carma, mas sei que dele não se foge. É como tentar engarrafar os bons e maus ares. Você precisa deles, mas nunca os respirará.

Tudo se transfere, não importa os hábitos que se cultive. Vivesse eu no campo, sofreria com os males do campo e me alegraria com os frutos bucólicos desse tipo de viver.

Estou e fico na cidade, e de minha possível vida no campo transferem-se todas aquelas benesses e maldades traduzidas em pedra e brilho envidraçado. O experimento-vida deve e irá se concretizar.

Há dias em que dá um estalo, quero explicar o inexplicável a ninguém, e tudo o que sei é que a vida é para ser abraçada e aceita. Estamos aqui para experimentar, e não ser o experimento.

Estamos aqui para deixar que venha tudo o que deve vir a nós, tentando absorver sua essência, não apenas fingir conhecê-la por seus efeitos. Queremos entender a causa, sem entendê-la.

Há dias em que dá um estalo, não quero explicar mais nada, nem entender, só viver e deixar que assim seja. Aceito você. Aceito a mim. Aceito tudo e todos e sou tudo isso, sem ser nada. Nada.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Sôfrego Dessignificado

A palavra se enche, se esvazia e se reenche de significado com grande velocidade e banalidade, até o momento em que é petrificada pelo pensamento estático, preguiçoso, embotado, cansado de nunca ser.

Na mesma medida, por exemplo, a cidade cresce e seu nome perde importância: você não pensa em Rio de Janeiro, mas em tudo o que sabe sobre o lugar que deu sentido à frase.

O mesmo acontece com o amor, infestado de nossos traumas e alegrias, portador dessa soberba horrível que temos ao achar conhecê-lo.

E assim é com o mundo, que violentamos a todo momento por taxá-lo negativamente sem sabê-lo, julgando-o meramente a partir de nossa curtíssima experiência nele.

Chega desse movimento gasto e revoltado que revoluciona a revolução, que reage à reação, que guerreia contra a guerra, que parou de perguntar porquês e passou a afirmá-los com raivosa convicção.

Chega de autocrítica hipócrita, que busca ferir o outro pela autoflagelação, quando "ai de mim" é "ai de vós", sendo sempre santa a lamúria e blasfema a redenção.

Quero anular essa distância abissal de observação dos fatos e perder por completo a habilidade de diferenciá-los de mim, de você, de nós e de tudo.

Quero redescobrir as coisas, não sem antes ver derreter delas esse manto ceroso de preconceitos e encontrar as palavras em momento de pré-concepção.

E que assim permaneçam, nunca ditas, numa sofreguidão alerta, nessa ânsia de palavra consciente dela mesma, estado único em que ela pode ser-se.

Esse é o poema que eu não escrevi, e nada superará sua beleza.

--

Não sou ladrão de fotos, o crédito é deste rapaz, cuja página de fotos pode ser acessada clicando-se neste link ou sobre a imagem.

Enquanto eu não tomo vergonha na cara, baixe: AllanZi - Perdão (Rapidshare)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Cadernices 2 - A Miríade do Imediato

Objeto da ação
afazer
objeção
abjeto

Empresa de esforço empreendido
só se aprende
a prender

E por que
ninguém pergunta
porque ninguém pergunta
por quê?

A miríade insentida de sentidos
sincera e sensata
inexata, descartada

E nessa vida inovada
o imperativo é automático
sem saída
e censura

Mas lhe parece óbvio
que me parece claro
que nos parece certo
que desaparecerá

--

A partir do próximo post tomarei vergonha na cara e não mais farei links para o rapidshare. Vou criar uma conta no internet archive, e haverá outra maneira de acessar meus mp3. Por enquanto, esse é baixável
-> AllanZi - Corinthians.mp3 (Rapidshare)

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Não Raro

Musa desse lapso de tempo
ela mudou o verbo de lugar

A esperança faz o que bem entende
e você nunca a se realizar

Não queira ser tolo
no intento
de ser amanhã

Mas esteja alerta pro fim
já que sempre adiou começar

Ou avance, enfim

Ainda que a alegria não nos cegue
pensa ser alegre quem não vê

Segue seu passado acumulado
e esquece que o destino já passou

Presentear é desiludir

Não quero ser raro
no entanto
não raro é comum

Não espero mais nada de mim
já que sei não saber mais que esperar

Eu me aceito assim

Para baixar e ouvir: AllanZi - Não Raro.mp3 (Rapidshare)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Ourobúrros

Começando com máximas, mas não frases prontas, para foder com a cabeça e encher o saco do leitor inexistente aqui materializado diante do texto, logo de cara: a verdade é só um momento do falso, nossa realidade é inventada para nos domesticar, você não controla sua própria vida, você não é mais que um público-alvo ou consumidor, etc... Já falei bastante disso aqui nesse blog e minha intenção é apenas criar um primeiro parágrafo que dê sustentação ao segundo, por paradoxal que pareça, mas é preciso ter um ponto de partida. Neste caso, é um ataque verbal ao capitalismo e o jeito como ele entorpece nossos sentidos substituindo o que poderíamos chamar de realidade por uma fictícia, mas que levamos absolutamente ao pé da letra.

Essa própria crítica, o pensamento que expresso aqui em palavras, faz parte de uma realidade terceira, algo isolado dentro de nossas mentes, e pode causar meramente uma reação contemplativa a um mundo físico e virtual imutável. Assim é se acreditamos não poder mudá-lo, e assim é. O buraco negro que tudo banaliza, atenua e transforma em aceitável, e que tem a finalidade de fazer-nos crer serem válidos os atos humanos mais terríveis em prol do lucro, é para onde esse texto irá dentro de sua mente ao final da leitura, ou pouco depois dela, e é para essas mesmas trevas cerebrais que vai nossa capacidade de resistência, de surpresa, de fúria, de compaixão, de ação e não-ação. A mesma passividade com que enxergamos algo ruim é a que usamos para algo bom dentro de nosso julgamento, dada a completa falta de responsabilidade que pensamos ter em relação ao curso dos eventos, um distanciamento total de causa e efeito, e assim permitimos que nosso cotidiano seja construído da maneira que melhor aprouver seus engenheiros.

Esses engenheiros, que fazem a manutenção desse modo de "vida", são ninguém menos que os homens que detêm mais riqueza material acumulada, essa riqueza retirada da Terra para virar dinheiro, que, muito esperta, mas não inteligentemente, nos escraviza em torno da ilusão de seu ganho como recompensa pelo trabalho, como fim de nossos meios, modo de sobrevivência ou mesmo possibilidade de realização de sonhos, felicidade. Na condição de seus ajudantes, nós, a classe média incrivelmente dependente das migalhas desses acumuladores, que são como larvas purulentamente brancas a engordar, tratamos então de cuidar dos detalhes mais precisos e técnicos dessa manutenção, ocupando-nos com burocracias que se tornaram tediosas demais aos ricos, e cumprimos com rigor religioso, pensando estarmos enobrecendo nossas almas com trabalho. Ajudamos o mundo a se desenvolver, mas não fazemos a menor idéia do que esse desenvolvimento é ou representa.

A ilusão de desenvolvimento pode ser notada na percepção do homem comum em relação ao avanço tecnológico na arquitetura, por exemplo, em que um prédio "mais moderno", isto é, feito de modo tecnicamente diferente da maioria dos edifícios, com forma e aparência renovadas, já basta como justificação para um sem número de barbaridades presenciadas todos os dias nas metrópoles. A "evolução" é necessária, custe o que custar, mesmo que a própria seja uma representação, um fenômeno visual, talvez estético, mas sem dúvida uma miragem. Outra tarefa, menos burocrática do que estratégica, é a de divulgar os benefícios desse desenvolvimento e, principalmente, a necessidade de seguirmos ordens e padrões de comportamento, e entram em cena os propagadores de imagens e miragens, a mídia. Não bastasse o mundo que moldamos fisicamente ser em si um palco para espetáculos de ilusionismo, temos ainda meios de fazer um espetáculo que transmite esses espetáculos diariamente, para não nos esquecermos, nem no mundo virtual, imagético e imaginário, da realidade inventada. Ou seja, a imagem da imagem da imagem, até que percamos totalmente de vista o que éramos, como éramos e onde éramos.

No tocante ao avanço infra-estrutural e prático promovido pela humanidade, a ilusão é diferente unicamente na questão do tempo. Só vai durar enquanto as conseqüências dessa comodidade tecnocrata estiverem escondidas e/ou maquiadas, sendo já esse disfarce muito difícil, imaginemos em alguns anos. Isto quer dizer apenas que se, por um lado, hoje temos medicamentos para quase todo tipo de enfermidade (inclusive para estresse!), aparelhos que aquecem alimentos ao toque de um botão, tocadores eletrônicos de música e água encanada para levar de nós as impurezas, para citar algumas das maravilhas de nosso estágio evolutivo altíssimo, de outro lado está o exato oposto excremento dessa produção a preencher espaços elementares: água, ar e terra, e essa inominável massa de sujeira que nem o fogo pode mais combater. Assim como pensamos ter-nos livrado do lixo ao colocarmos um saco plástico cheio dele no meio-fio da rua, achamos que o subproduto oriundo do ridículo excesso de produtos que criamos apenas para manter uma economia fantasiosa funcionando, vai desaparecer. O mundo é o lixo, inclusive humano, de subclasses, subempregos e sub-raças, que permeiam os lugares mais afastados dos pólos de riqueza e limpeza.

Mas o surpreendente é que esse cenário aterrador e a vida diária pacífica e inerte PODEM coexistir. Não é preciso ir muito longe: o morador de São Paulo, ainda que se incomode ligeiramente com o cheiro, já se acostumou com a poluição dos rios que margeiam suas principais vias automotivas. Ou seria o contrário? Enfim, aquele lugar comprido onde gostamos de ficar parados por horas com nossos dínamos metálicos, confortáveis e possantes. O importante aqui é dizer que a convivência tranqüila entre mais o absurdo dos absurdos e o feliz contentamento do "cidadão" metropolitano reforça a idéia de alienação que foi o lampejo inicial para a criação desse texto, e contradiz o começo do parágrafo imediatamente anterior a este: a ilusão não é mais dissolvida por fatos que provam sua existência. E contradiz também o final: o lixo ESTÁ no mesmo lugar onde se produz e consome a riqueza, e a distinção ficou apenas num plano imaginário, um bloqueio mental sem precedentes na história da psicologia e quiçá da psicanálise (?), mas não estamos tratando de uma patologia e sim de um sistema ordenado e racional de se sustentar, pensar e se relacionar, não?

Se o tempo já não dá conta e as pontas se uniram, como o Ourobóros, cujo sentido ouso aqui perverter, o que pretendo eu aqui fazer? Encontrar uma solução? Fazer perguntas tolas que se auto-anulam? Sim. Talvez meu apelo atinja em cheio alguém anestesiado pela corrida circular supersônica que premia os que mais correm e menos sabem por que estão correndo, que parou um segundo para amarrar o cadarço do sapato... Pode ser cômodo de minha parte assumir que meu papel é falar. É fácil... Pois falar é fazer, semanticamente falando, não nos termos publicitários, em que fazer é comprar um celular e falar com ele, não com outras pessoas. Pois preferi simplificar minhas escolhas e com isso meus desejos, e com isso meu consumo, e com isso meu desgaste, e com isso meu futuro, e com isso minha vida. Não estou falando de mim, mas de qualquer um que ainda tenha a capacidade e a sensibilidade para tentar uma mudança. Escolhi falar tudo isso a você, e é só o que quero, e é por isso que caminho, não corro. Por que você corre? Porque quer mais? O tanto que você quer deve ser então medida para o quanto você aceita... E tomara que aceite-se responsável pelo quanto você quer.

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