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quarta-feira, 11 de junho de 2014
Uma nova espiritualidade
Nós gostaríamos de nos apresentar
Nós somos uma nova geração de desbravadores espirituais
Nós não precisamos mais de respostas de segunda mão
Nós não culpamos mais os outros por nosso sofrimento
Nossa espiritualidade vai além da culpa e castigo cósmicos
E além do pensamento 'nós e eles'
Nós não nos agarramos mais a livros sagrados
Pois todos os livros são sagrados
Nós não matamos em nome da verdade
Pois a verdade está em todo lugar
Nós estamos dispostos a enfrentar sem medo a experiência do presente
Sem conclusões e sem preconceito
Nua, como no dia em que nascemos
Abertos ao que vier
Nós não esperamos mais pela vida
Ou por alguma revelação divina no futuro
Porque nós vemos vida em tudo o que há
Incluindo a espera pela vida
E vemos Deus em tudo o que outrora rejeitamos
Nós não sonhamos mais em fugir
Ou com algum "Céu" perfeito
Pois nos aconchegamos na incerteza
E a dúvida já é nossa velha amiga
E o não saber é amado com carinho
E a imperfeição é profundamente sagrada para nós
O corpo está incluído
A mente não é a inimiga
Sentimentos são sagrados
A sexualidade é celebrada
Nós amamos a bagunça que é ser humano!
E nós finalmente entendemos
Que sabedoria e compaixão
Absoluto e relativo
Dualidade e não dualidade
Transcendência e imanência
Pessoal e impessoal
Humano e divino
Nunca estiveram separados
- Jeff Foster
sexta-feira, 14 de junho de 2013
O cassetete invisível
Olhos abertos, sem querer que estejam. Dispara, no pulmão, a respiração curtinha; no coração, o aperto se aperta; na garanta, um nó cego. Tem início o dia do cidadão de bem, feliz por poder ir e vir durante horas no trânsito lento de luzinhas vermelhas, ter a chance de comprar bugigangas na sexta-feira negra, por desfrutar das virtudes culturais coloridas de uma metrópole cinza. Ele está feliz por ter um emprego de 8, 9, 10 horas diárias onde pode ser verdadeiramente falso e distribuir alegremente sorrisos amarelos, que, por entre os dentes, dizem baixinho, sem alarde: "socorro".
O habitante da cidade está tranquilo: já tomou a pílula de hoje no café, enquanto passava a mão na cabeça do filho pequeno, dizendo "comporte-se, tenha juízo, seja bonzinho". É tudo o que ele sabe ensinar. É tudo o que aprendeu. E parte para o dia sem medo de ter medo, olhando para os lados, prevenido contra o outro e tudo o que pareça estranho, ainda que seja o próprio espelho. "Está tudo bem, mas é bom ficar esperto", pensa.
As cobranças são naturais para esse ser civilizado, ele tem que ficar de olho na meta. É o pão que dela depende. Ele tem um alvo a atingir, mas também um pintado na testa. Esse ele nunca vê. Não precisa, afinal, é só não se virar, nem se levantar, ficar abaixadinho, mesmo, aqui atrás da divisória do cubículo, que tudo fica em paz. Não está na mira, nem atira, não fica no meio do que não lhe pertence, enquanto se apropriam de tudo o que poderia ser seu e de todos.
Volta pra casa, sua propriedade, e passa um tempão com a família, o que já é uma tradição: 2 horas. Depois de um banho morno e um beijinho na esposa, dorme o sono dos justos, não sem antes dar um traguinho rápido, ainda que desesperado, em um álcool qualquer. É só pra não tomar duas pilulinhas em um dia. Está relaxado, mas seu pesado sono não tem sonhos. Pesadelos também não tem, mas ele sabe que, se não mantiver religiosamente essa rotina, ele pode vir. E ele vem: olhos abertos, sem querer que estejam.
Quem se revoltaria contra uma vida tão indevida?
Quem ousaria se levantar pra por o dedo na ferida?
Quem se importaria em mudar quando a inércia é a medida?
Você e eu.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Encontre o sujeito
O criminoso mata
a sociedade clama
o governo omite
O pobre rouba
o menor é cúmplice
a justiça é cega
O preto folga
o veado esnoba
a mulher que manda
O mercado exige
a gentalha grita
a arma cala
O Éden me chama
o inferno é dos outros
o dinheiro é meu
Onde está esse sujeito
que apontando
sem um verbo
nada faz?
O sujeito não se encontra
não se enxerga
não se vê
Representa-lhe o indeterminado
fica à mercê do oculto
a sociedade clama
o governo omite
O pobre rouba
o menor é cúmplice
a justiça é cega
O preto folga
o veado esnoba
a mulher que manda
O mercado exige
a gentalha grita
a arma cala
O Éden me chama
o inferno é dos outros
o dinheiro é meu
Onde está esse sujeito
que apontando
sem um verbo
nada faz?
O sujeito não se encontra
não se enxerga
não se vê
Representa-lhe o indeterminado
fica à mercê do oculto
e o simples que se dane
ou sujeite-se pra merecer
Antes fosse observador
está mais pra inexistente
mas presente no discurso
de um tempo virtual
e perigosamente
distante
Antes fosse observador
está mais pra inexistente
mas presente no discurso
de um tempo virtual
e perigosamente
distante
terça-feira, 9 de abril de 2013
Nada pessoal
Pela primeira vez no blog, vou postar um texto alheio. Ele mudou minha percepção das coisas. O original está em http://vividlife.me/ultimate/30100/dont-take-anything-personally e esta abaixo é uma tradução totalmente livre feita por mim. É meio longo, então, sente-se confortavelmente ou fique à vontade para desistir. Espero que goste, caro desleitor!
--
Imagine que você está em um shopping gigantesco com centenas de salas de cinema. Você olha em volta para ver o que está passando e nota que o título de um dos filmes é o seu nome. Incrível! Você entra na sala, que está vazia, exceto por uma pessoa. Bem discretamente, para não interrompê-la, você se senta atrás dela, que nem percebe a sua presença; toda a atenção dela está no filme.
Você olha para a tela e, que surpresa! Reconhece todos os personagens do filme - sua mãe, seu pai, seus irmãos e irmãs, seu amor, seus filhos, seus amigos. Então você vê o protagonista do filme e é você! Você é a estrela do espetáculo e essa é a sua história. E aquela pessoa na sua frente, bem, também é você, vendo você mesmo atuar no filme. É claro, o protagonista é apenas como você acredita que é, assim como acredita serem os coadjuvantes, porque, bom, você conhece sua própria história. Após um tempo, você fica um tanto impressionado com aquilo tudo e decide ir até outra sala.
Nessa sala também tem só uma pessoa assistindo e ela não percebe nem que você se sentou ao seu lado. Você começa a assistir também e reconhece todos os personagens, mas, dessa vez, você é apenas coadjuvante. Essa é a história de vida de sua mãe, e é ela quem está ali, completamente atenta ao filme. Aí você percebe que sua mãe não é a mesma pessoa que estava no seu filme. O jeito como ela se projeta é totalmente diferente no filme dela. Esse é o modo como sua mãe quer que todos a vejam. Você sabe que não é autêntico. Ela está atuando. Mas você começa a entender que é como ela se vê e fica um pouco chocado.
Então você percebe que o personagem que tem o seu rosto não é a mesma pessoa que estava no seu filme. Você diz a si mesmo: "Ah, esse não sou eu", mas agora você sabe como sua mãe te vê, no que ela acredita a seu respeito, e está longe da sua crença sobre você mesmo. Aparece o personagem do seu pai e o jeito como sua mãe o percebe, e não tem nada a ver com o jeito que você o vê. É completamente distorcido, assim como a percepção da sua mãe em relação aos outros personagens. Você vê o que sua mãe pensa a respeito de seu companheiro e fica até um pouco irritado: "Como ela ousa?!" Você se levanta e sai de lá.
Na sala ao lado está passando a história do seu amado. Agora você pode ver qual é a percepção dele a seu respeito e o personagem é absolutamente diverso daquele do seu filme ou do filme da sua mãe. Você percebe como ele vê seus filhos, sua família, seus amigos. Você vê como ele quer ser visto e não é a forma como você o vê, de jeito algum! Você sai do filme e vai assistir ao de seus filhos, como eles te veem, como veem o vovô, a vovó, e você mal pode acreditar. Aí você vê os de seus irmãos e irmãs, os filmes dos seus amigos, e você descobre que todo mundo distorce todos os personagens em seus filmes.
Depois de ver todos esses filmes, você decide retornar ao primeiro cinema para ver o seu próprio mais uma vez. Você se vê atuando no seu filme, mas já não acredita no que vê; você não acredita mais em sua própria história pois pode ver que é apenas uma história. Agora você sabe que toda a atuação em que se empenhou a vida inteira não serviu de nada, pois ninguém te percebe do jeito que você quer ser percebido. Você entende que todo o drama acontecendo no seu filme não é percebido por ninguém ao seu redor. Fica óbvio que a atenção de cada um está em seu próprio filme. Eles nem percebem que você está sentado bem ao lado deles no cinema! Os atores estão com toda sua atenção voltada para seu próprio roteiro e é a única realidade em que eles vivem. A atenção deles está tão viciada na sua própria criação que eles nem percebem sua própria presença, aquele que está observando o filme.
Nesse momento, tudo muda de figura para você. Nada mais é a mesma coisa, pois você vê o que está realmente acontecendo. As pessoas vivendo em seus próprios mundos, seus filmes, suas histórias. Eles apostam todas as suas fichas naquela história e ela é verdadeira para eles, mas é uma verdade relativa, porque não é a verdade para você. Agora você pode ver que todas as opiniões que eles têm sobre você são dirigidas àquele personagem de você que vive no filme deles, não no seu. Quem eles estão julgando por você é o personagem de você que eles criaram. O que quer que seja que pensem de você é, na verdade, sobre a imagem que têm de você, e essa imagem não é você.
A essa altura, está claro que as pessoas que você mais ama não lhe conhecem e você também não as conhece. A única coisa que você sabe sobre elas é aquilo em que acredita a respeito delas. Você conhece apenas a imagem que criou para cada uma delas, e a imagem nada tem a ver com aquela gente. Você pensava que conhecia seus pais, seu cônjuge, seus filhos e amigos muito bem. A verdade é que você não faz a menor ideia do que está acontecendo no mundo deles, o que pensam, o que sentem e com o que sonham. O que mais surpreende é que você pensava que conhecia a si mesmo. Então vem a conclusão de que você nem conhece você mesmo, pois está atuando há tanto tempo que dominou a arte de fingir ser o que não é.
Consciente disso, você percebe como é ridículo dizer: "Minha esposa não me entende. Ninguém me entende." É claro que não entendem. Nem você se entende. Sua personalidade muda de um minuto para outro, conforme o papel que está interpretando, de acordo com os coadjuvantes na sua história, a ver com os seus sonhos naquele momento. Em casa, você tem certa personalidade. No trabalho, tem um jeito totalmente distinto. Com suas amigas, é uma coisa; com seus amigos, outra. Mas ao longo de toda a sua vida você supôs que as outras pessoas te conheciam tão bem, e quando elas não agiram como você esperava, você levou para o lado pessoal, reagiu com raiva e usou as palavras para gerar um monte de confusão e drama à toa.
Assim fica fácil entender porque há tanto conflito entre seres humanos. O mundo está povoado com bilhões de sonhadores que não estão cientes que os outros estão vivendo em seus próprios mundos, sonhando seus próprios sonhos. Da perspectiva do protagonista, que é seu único ponto de vista, tudo tem a ver com eles. Quando um personagem secundário diz alguma coisa que não bate com a história deles, eles ficam nervosos e tentam defender seu ponto de vista. Eles querem que os outros integrantes da história sejam como eles querem que sejam, e se não são, ficam magoados. Eles levam tudo para o lado pessoal. Com essa consciência, você também compreende a solução. É algo muito simples e lógico: Não leve nada para o lado pessoal.
--
Este é o trecho do livro "O Quinto Acordo: Guia Prático do Autodomínio" (tradução livre), de Don Miguel Ruiz. Ele é de uma família de curandeiros mexicanos e carrega centenas de anos do legado místico e conhecimento do povo Tolteca. Ele passou por uma experiência extracorpórea após um grave acidente de carro que mudou sua vida, e hoje dedica-se transmitir o conhecimento adquirido em inúmeras viagens a lugares sagrados em todo o mundo.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Café sem açúcar
A Thaís, minha mulher, que é adorável até quando está absurdamente preocupada, em um de nossos papos exaustos pré-sono (ou pré-noite-mal-dormida, já que ter um bebê de seis meses no quarto ao lado é para os fortes, como ela é), afirmou: "Não quero que nosso filho sofra, nunca". "Eu também não quero", respondi e retruquei, "mas ele vai sofrer, meu amor". Abracei-a.
É triste constatar que o sofrimento é algo inerentemente humano, mas busco proporcionar com esse texto um pequenino consolo, para mim e para todas as (duas?) pessoas que o lerem: o que significava sofrer antes que nomeássemos esse conjunto de sentimentos? É certo que havia o sofrimento, ele puro, sem a ideia dele, sem o nome. E é certo também que não era, assim como nunca foi, algo fixo, igual para todos os que o sentissem - é algo que se apresenta de um jeito diferente a cada vez, volátil, etéreo, assim como toda sensação.
Quero dizer, apenas, que as coisas pelas quais passamos na vida, as emoções que fazem o corpo vibrar, as alegrias, as desgraças e maravilhas, todas são o que são e o que tiverem de ser, sem a necessidade de as definirmos antes (ansiedade) ou depois (arrependimento, rancor) de as experimentarmos. Assim, quando nos esforçamos para evitar algo como sofrer, geramos apenas um atrito mais intenso do que o próprio sentimento; e quando ficamos remoendo algo que nos fez sofrer, idem.
Uma analogia que me veio de estalo (achei boa na hora, então melhor escrever antes que se torne besta) agora há pouco foi com a minha maneira de tomar café. Tomo sem açúcar. Você deve ter contorcido o rosto, eu entendo. É amargo. Mas ele há de ser! Não importa quanto adoçante coloque: lá no fundo da sua gartanta está o amargor, e tudo o que fiz foi aprender a gostar dessa bebida assim, como é, pra valer, diretamente nas minhas papilas gustativas.
Mas o que é que apreciamos, o amargo ou o doce? Será que a vida não aceita ambos, já que é tudo parte do que vivemos no dia a dia? Já que não lutamos contra o doce quando ele vem, por que batalhar com o amargo? Será que não temos a capacidade de permitir que tudo isso, que é humano, se manifeste e se disperse em nós? É a experiência direta, é viver a vida, a real.
Não estou dizendo que sofrer é uma delícia, mas que o sofrimento só se concretiza quando a gente tenta evitar esse sentimento vago, antes sem nome, agora fixado na mente pela linguagem (o verbo sofrer). Mas, quanto mais você toma desse café escuro da vida, percebe que mesmo o amargo tem sabor. Uma hora ou outra você terá de enfrentar o amargor, e verá que ele passa. Deixe a amargura passar também.
É triste constatar que o sofrimento é algo inerentemente humano, mas busco proporcionar com esse texto um pequenino consolo, para mim e para todas as (duas?) pessoas que o lerem: o que significava sofrer antes que nomeássemos esse conjunto de sentimentos? É certo que havia o sofrimento, ele puro, sem a ideia dele, sem o nome. E é certo também que não era, assim como nunca foi, algo fixo, igual para todos os que o sentissem - é algo que se apresenta de um jeito diferente a cada vez, volátil, etéreo, assim como toda sensação.
Quero dizer, apenas, que as coisas pelas quais passamos na vida, as emoções que fazem o corpo vibrar, as alegrias, as desgraças e maravilhas, todas são o que são e o que tiverem de ser, sem a necessidade de as definirmos antes (ansiedade) ou depois (arrependimento, rancor) de as experimentarmos. Assim, quando nos esforçamos para evitar algo como sofrer, geramos apenas um atrito mais intenso do que o próprio sentimento; e quando ficamos remoendo algo que nos fez sofrer, idem.
Uma analogia que me veio de estalo (achei boa na hora, então melhor escrever antes que se torne besta) agora há pouco foi com a minha maneira de tomar café. Tomo sem açúcar. Você deve ter contorcido o rosto, eu entendo. É amargo. Mas ele há de ser! Não importa quanto adoçante coloque: lá no fundo da sua gartanta está o amargor, e tudo o que fiz foi aprender a gostar dessa bebida assim, como é, pra valer, diretamente nas minhas papilas gustativas.
Mas o que é que apreciamos, o amargo ou o doce? Será que a vida não aceita ambos, já que é tudo parte do que vivemos no dia a dia? Já que não lutamos contra o doce quando ele vem, por que batalhar com o amargo? Será que não temos a capacidade de permitir que tudo isso, que é humano, se manifeste e se disperse em nós? É a experiência direta, é viver a vida, a real.
Não estou dizendo que sofrer é uma delícia, mas que o sofrimento
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Call it what you want
Some people tend to rush it
others like to seem blasé
Some people look for it
some people just ignore it
Some people try to pretend
they don't want it
But we all do
Call it Love
call it God
call it Joy
or Fulfillment
In whatever degree
what else is there
for us to be?
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Ação: o melhor protesto
Motiva-me escrever esse texto uma autoindignação. É isso mesmo! Faço aqui um autoprotesto autogerido, apartidário e apolítico contra... mim! Tenho adentrado discussões absolutamente vazias nesses espaços virtuais socialoides sobre a legitimidade dos protestos, sobre a defesa de valores antigos e quadrados, a banalização da violência, o ataque gratuito às diferenças, o preconceito desmedido e uma série de coisas que antigamente se discutia ao vivo, ou talvez ainda se faça por aí nas mesas de bares cheios de filhos da classe AB ou da nova classe C, que transformam tudo numa bela ressaca pela manhã, e nada mais.
Questiono-me: o que pretendo? Convencer alguém de algo? Fazer do mundo um lugar cheio de eus, que pensam e falam como eu? Que propósito tem essa vã batalha nas arenas digitais, essa disputa por quem tem mais razão acerca dos problemas cotidianos (e raramente a solução para eles)? Será que não percebo que a luta já não é mais para ser ouvido? Eu sou ouvido, à exaustão, e ouço também, na internet, as causas mais nobres e o mais ignóbil lixo, que por alguns é chamado de humor. Todos falam, todos ouvem, mas quem faz? Tem alguém fazendo alguma coisa? Será que espero que alguém me diga: "Ah, está bem, deixa eu fazer o mundo melhor pra você, então!"?
Pois bem, se ninguém faz, é melhor que eu faça. Agir é o protesto mais eficaz contra qualquer coisa que se considere errada, qualquer coisa que se queira mudar de fato, que incomoda, que paralisa, escraviza, maltrata, entristece, irrita. Há quem se contente em apenas mostrar que está indignado com alguma coisa, pensando que isso vai conquistar o respeito das pessoas, de seu grupinho ou tribo, ou arrancar aquele aceno de cabeça positivo de quem também só fala e não age. De que me importa o respeito? É com minha imagem que estou preocupado, ou com fazer o bem para mim e para todos, independentemente de quem me vê, aplaude, critica ou "curte" (ganhei mais um joinha, uhú!)?
O que nos petrifica é a dificuldade de mudar. Ora, mas o que você quer mudar? Toda mudança deve ser feita, por acaso, no seu vizinho, no seu amigo, no seu inimigo? Não há nada intrinsecamente humano, porém que mereça ser mudado, para a melhor, em você mesmo? Pois, afinal, os nossos nobilíssimos protestos não estão sendo feitos contra as árvores, a terra, os animais... são contra... pessoas, não? E contra que pessoas você é contra? Quem você quer que ouça seu brado? É melhor apurar os ouvidos, pois você está esperneando contra si mesmo, e já é mais do que hora de começar a escutar seu próprio clamor por mudança, dentro de si.
Se está insatisfeito com os desmandos de seu chefe, mude suas condições de trabalho, ou mude de emprego, ou faça algo que lhe agrade ou agrade outros nas horas livres em vez de assistir televisão ou ver as bobagens que seu círculo de pseudoamigos posta no "face". É fácil encontrar coragem para se reunir num feriado ou sábado de sol para protestar, e pode ser até legal, mesmo, qual o problema em se reunir e caminhar? Mas onde está a coragem para mudar algo no seu íntimo que não condiz com o que você anda pregando? O medo nos motiva apenas à estagnação, à defesa desse próprio medo, mas a vontade de mudar implica muita coragem, coragem boa e vigorosa, de se mexer!
O movimento do que você faz já é, essencialmente, a mudança, pois o status quo, apesar do que falam sobre progresso, é basicamente a manutenção da inércia, passiva e parada. O grande erro desses pobres jovens de hoje é ainda apreciar a enganosa beleza estática das ideologias, dessa coisa emperrada, empoeirada, e o culto à imobilidade disfarçado, embrenhado, camuflado no "dinamismo" das redes sociais. Acompanhe os ataques de direitesquerda no twitter ou facebook e comprove: nenhum desses críticos está movendo uma palha para mudar o que os desagrada. E o que os desagrada, ó céus, senão seus próprios defeitos? A violência, o temor, a injustiça, tudo o que apontamos fora, está dentro, também.
Consuma menos tralha e está mais do que feito seu protesto contra as odiosas estratégias de marketing e o caramba a quatro. Você deixa de ser o target, para de ser alvejado pelo chumbo grosso do mercado, que se sustenta no insustentável, na produção desenfreada e acéfala, que é, justamente, parte do motivo pelo que protestam os ocupadores lá de Nova Iorque, por exemplo. Deixe de frequentar lugares que desperdiçam recursos, abra mão do fast-food, vire vegetariano, ande de bicicleta, sei lá, dane-se, e "voilá!": taí sua sustentabilidade! É tudo uma questão de mover o traseiro, e os protestos começam a virar mudança, atitude, verdade.
Olha aqui, você não é perfeito, tampouco o são nossos "representantes" na política. Você não é totalmente justo, você comete erros, portanto não espere que ninguém seja por você! Se quem está lá no poder não te representa, mas ainda assim está no poder, é porque o poder que eles têm é justamente o de te enquadrar em um perfil, e te tratar como tal: a classe isso ou aquilo, o estudante, o paulistano, o aposentado, o desempregado... Se a carapuça lhe serve para qualquer desses grupos, suas reivindicações serão sempre previsíveis, e facilmente ignoradas. Quando você muda em você aquilo que quer mudar nos outros, o rótulo se descola da sua testa, e você se liberta.
Importe-se menos, ou nada, com o que estão falando a seu respeito e em seu redor, não se preocupe em ficar criticando o comportamento do cara que senta ao seu lado no ônibus, e sinta um pouco o que é estar vivo, descubra o que realmente importa. Ao mesmo tempo, identificando dentro de si o que há de ruim no ser humano, será mais fácil reconhecer nos seus "algozes" aquilo pelo que você protesta e se enfurece, aquelas coisas horrorosas que o levam a tuitar loucamente o seu descontentamento por aí. Perceba todos os sentimentos ruins que poderiam levá-lo a fazer coisas ruins, e entenda, finalmente, que tudo o que acontece se deve a esses sentimentos.
Agindo, não só você mostra sua indignação como faz dela força transformadora, e com seu exemplo inspira a ação de outros. Revolucione-se e impressione-se com o estrondo que isso causa! Só podemos gritar "às armas" se as tais forem o olhar; e se os alvos forem todos esses nossos monstros interiores. Isso é uma rebeldia pela qual só você pode se autocongratular, perceber, e aí sim, propagar. De outra forma, será só mais uma revoluçãozinha ordeira, dessas que saem no jornal. Mas quando você tem a humildade de agir de dentro para fora, o mundo muda com você, tenha certeza.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
!ConsumomusnoC!
Não costumo postar textos de outrem, mas este está merecendo. É do manifesto bolo'bolo, que já divulguei aqui há um tempo. O texto é dos anos 80, mas serve como uma luva para os 2000 e tantos. Essa sensação está muito forte ultimamente, ao nível do desespero. Não está? E o que fazer? Trabalhamos única e exclusivamente para sustentar um mecanismo de discriminação que coloca valores sobre a vida dos seres e recursos naturais. Pense com sua cabeça, sabote o consumo, venda suas coisas, grite, diga em público o que nunca diria, vá atrás de seus sonhos que largou para fazer dinheiro, use essas porcarias de mídias sociais para passar uma mensagem que preste, que mude a percepção de alguém... Faça qualquer coisa, mas faça!--
Negócio A: decepção na sociedade de consumo
Em que consiste o Negócio A? Filés, bons estéreos, surf, Chivas Regal, Tai-Chi, Europa, Nouvelle Cuisinne, cocaína, esqui, discos exclusivos, Alfa Romeos. Será esta a melhor oferta da Máquina?
Mas e aquelas manhãs, indo para o trabalho? Aquela súbita sensação de angústia, desgosto, desespero? A gente tenta não encarar aquele estranho vazio, mas em momentos desocupados entre o trabalho e o consumo, enquanto a gente espera, dá para entender que o tempo simplesmente não é nosso. A Máquina tem medo desses momentos. Nós também. Por isso somos mantidos o tempo todo sob tensão, ocupados, olhando lá adiante para alguma coisa. A esperança em si mesma nos conserva na linha. De manhã pensamos na tarde, durante a semana sonhamos com o fim de semana, suportamos a vida de cada dia pensando nas férias que vamos tirar dela. Nesse sentido estamos imunizados contra a realidade, entorpecidos quanto à perda das nossas energias.
Não é que o Negócio A tenha se tornado traiçoeiro (ou melhor, eficazmente traiçoeiro) porque a variedade ou quantidade de bens de consumo esteja faltando. A produção em massa nivelou a qualidade desses bens, e a fascinação pelas novidades desapareceu definitivamente. A carne ficou meio sem gosto, os vegetais crescem aguados, o leite foi transformado num simples líquido branco industrializado. A TV é um tédio mortal, dirigir não dá mais prazer, a vizinhança ou é povoada, ruidosa e insegura, ou deserta e insegura. Ao mesmo tempo, as coisas realmente boas, como a natureza, tradições, relações sociais, identidades culturais, ambientes urbanos intactos, são destruídas. Apesar do fluxo imenso de consumo, a qualidade de vida despenca. Nossa vida foi padronizada, racionalizada, despersonalizada. Eles descobrem e nos roubam cada segundo livre, cada metro quadrado vazio. E oferecem a alguns de nós férias rápidas em lugares exóticos a milhares de quilômetros de distância, mas no dia-a-dia nosso espaço de manobra vai ficando menor, cada vez menor.
Também para os Trabalhadores A, trabalho continua sendo trabalho: perda de energia, stress, tensão nervosa, úlceras, ataques do coração, prazos, competição histérica, alcoolismo, hierarquia controladora e opressiva. Não há bens de consumo que possam preencher os buracos gerados pelo trabalho. Passividade, isolamento, inércia, vazio: isso não se cura com aparelhos eletrônicos no apartamento, viagens frenéticas, sessões de relaxamento e meditação, cursos de criatividade, trepadas rápidas, poder das pirâmides ou drogas. O Negócio A é veneno; sua vingança vem como depressão, câncer, alergias, vícios, problemas mentais e suicídio. Debaixo da maquiagem perfeita, atrás da fachada de sociedade afluente, só existem novas formas de miséria humana.
Muitos desses "privilegiados" Trabalhadores A fogem para o campo, se refugiam em seitas, tentam iludir a Máquina com magia, hipnose, heroína, religiões orientais ou outras ilusões de poder secreto. Tentam desesperadamente repor alguma estrutura, algum sentido em suas vidas. Mas cedo ou tarde a Máquina agarra seus fugitivos e transforma exatamente as formas de rebelião em um novo impulso para seu próprio desenvolvimento. "Sentido" vira logo senso comercial.
Naturalmente, o Negócio A não significa apenas miséria. Os Trabalhadores A têm sem dúvida alguns privilégios inegáveis. Seu grupo tem acesso a todos os bens, todas as informações, todos os planos e possibilidades criativas da Máquina. Os Trabalhadores A têm a chance de usar esse poder para eles mesmos, e até contra os objetivos da Máquina. Mas se eles agem apenas como Trabalhadores A, sua rebelião é sempre parcial e defensiva. A Máquina aprende rápido. Resistência setorial sempre significa derrota.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Des/apercebido
O homem deixado à sua menteé homimado
e todo dia cria um novo mundo
Sem gente, só os cria/dores:
o outro, o diabo
ou diaboutro
e Deus à sua semelhança
ou dEUs
Só olha pra frente
pois claro
tem olhos pra fora
e pavor, escuro
de dentro
Mimetizando o mimo da mãe
ao protegê-lo do inimigo
aquém da ignorância
além do saber
Ele mesmo?
Seu pai.
Ou ele mesmo
Nós morremos por sorte
e Sócrates, na cicuta
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Amor criador
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Minimundo
No minimundo de uma cultura sempre novíssima, cujos habitantes julgam não cultivá-la, há estranhíssimas auras em torno dos feitos das pessoas que carregam os nomes das pessoas que os carregam seus feitos. E eu aspiro mundar-me, mas submundo-me ainda, não sabendo ser sorte a minha periférica frustração.Hoje todo cada um (serumano, pessôua) é uma marca, com seu (meu) logotipo estampado nos megamultimeios internéticos afora, com sua (minha) música tocando em autocadores virtuais etéreos, e a minha (sua!) frasE-E de EFEIT.O, exibida repetidatidarepemente à exaustão da exaustão ocular/cerebral alheia/própria.
Queremos ir, estamos chegando, mascarados como nunca, em mil camadas fotoxópicas, numa festa sílica chip de gente, no zumzumzum de tumtumtum organelétrico, sem saber se ainda tem algum no corpo. Mas não há escapatória quando se é um diplomácrita... Inventa uma desculpa e sai, e mente. Entre e minta-se em casa, fique.
Aparando-se as arestas de uma outra bobajada múndica, a de nossos pais e mestres, revolvemos revolutos nada novo, vã guarda-pó e colixonadora. E a última desilusão será a que me desarmará para sempre, e desarmar-te-á também, arte, numa rendição completa de nossa condição egotríptica de pensar o mundo pensado, não-mundo.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Perdedor
Eu escondo meus defeitos nas virtudes
e não nego ser por vezes perdedor
Mas desejo que se afirme entre os demais
e que seja o primeiro colocado
Eu desejo que suceda
condecorado ou promovido
Pouco importa quem melhor deseje
contanto que o bem seja seu
É o que faz com seu mal que preocupa
e não desejo esse medo a ninguém
e não nego ser por vezes perdedor
Mas desejo que se afirme entre os demais
e que seja o primeiro colocado
Eu desejo que suceda
condecorado ou promovido
Pouco importa quem melhor deseje
contanto que o bem seja seu
É o que faz com seu mal que preocupa
e não desejo esse medo a ninguém
--
Imagem: William Adolphe Bouguereau (1825-1905) – Dante And Virgil In Hell (1850)
Imagem: William Adolphe Bouguereau (1825-1905) – Dante And Virgil In Hell (1850)
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Ourobúrros
Começando com máximas, mas não frases prontas, para foder com a cabeça e encher o saco do leitor inexistente aqui materializado diante do texto, logo de cara: a verdade é só um momento do falso, nossa realidade é inventada para nos domesticar, você não controla sua própria vida, você não é mais que um público-alvo ou consumidor, etc... Já falei bastante disso aqui nesse blog e minha intenção é apenas criar um primeiro parágrafo que dê sustentação ao segundo, por paradoxal que pareça, mas é preciso ter um ponto de partida. Neste caso, é um ataque verbal ao capitalismo e o jeito como ele entorpece nossos sentidos substituindo o que poderíamos chamar de realidade por uma fictícia, mas que levamos absolutamente ao pé da letra.Essa própria crítica, o pensamento que expresso aqui em palavras, faz parte de uma realidade terceira, algo isolado dentro de nossas mentes, e pode causar meramente uma reação contemplativa a um mundo físico e virtual imutável. Assim é se acreditamos não poder mudá-lo, e assim é. O buraco negro que tudo banaliza, atenua e transforma em aceitável, e que tem a finalidade de fazer-nos crer serem válidos os atos humanos mais terríveis em prol do lucro, é para onde esse texto irá dentro de sua mente ao final da leitura, ou pouco depois dela, e é para essas mesmas trevas cerebrais que vai nossa capacidade de resistência, de surpresa, de fúria, de compaixão, de ação e não-ação. A mesma passividade com que enxergamos algo ruim é a que usamos para algo bom dentro de nosso julgamento, dada a completa falta de responsabilidade que pensamos ter em relação ao curso dos eventos, um distanciamento total de causa e efeito, e assim permitimos que nosso cotidiano seja construído da maneira que melhor aprouver seus engenheiros.
Esses engenheiros, que fazem a manutenção desse modo de "vida", são ninguém menos que os homens que detêm mais riqueza material acumulada, essa riqueza retirada da Terra para virar dinheiro, que, muito esperta, mas não inteligentemente, nos escraviza em torno da ilusão de seu ganho como recompensa pelo trabalho, como fim de nossos meios, modo de sobrevivência ou mesmo possibilidade de realização de sonhos, felicidade. Na condição de seus ajudantes, nós, a classe média incrivelmente dependente das migalhas desses acumuladores, que são como larvas purulentamente brancas a engordar, tratamos então de cuidar dos detalhes mais precisos e técnicos dessa manutenção, ocupando-nos com burocracias que se tornaram tediosas demais aos ricos, e cumprimos com rigor religioso, pensando estarmos enobrecendo nossas almas com trabalho. Ajudamos o mundo a se desenvolver, mas não fazemos a menor idéia do que esse desenvolvimento é ou representa.
A ilusão de desenvolvimento pode ser notada na percepção do homem comum em relação ao avanço tecnológico na arquitetura, por exemplo, em que um prédio "mais moderno", isto é, feito de modo tecnicamente diferente da maioria dos edifícios, com forma e aparência renovadas, já basta como justificação para um sem número de barbaridades presenciadas todos os dias nas metrópoles. A "evolução" é necessária, custe o que custar, mesmo que a própria seja uma representação, um fenômeno visual, talvez estético, mas sem dúvida uma miragem. Outra tarefa, menos burocrática do que estratégica, é a de divulgar os benefícios desse desenvolvimento e, principalmente, a necessidade de seguirmos ordens e padrões de comportamento, e entram em cena os propagadores de imagens e miragens, a mídia. Não bastasse o mundo que moldamos fisicamente ser em si um palco para espetáculos de ilusionismo, temos ainda meios de fazer um espetáculo que transmite esses espetáculos diariamente, para não nos esquecermos, nem no mundo virtual, imagético e imaginário, da realidade inventada. Ou seja, a imagem da imagem da imagem, até que percamos totalmente de vista o que éramos, como éramos e onde éramos.
No tocante ao avanço infra-estrutural e prático promovido pela humanidade, a ilusão é diferente unicamente na questão do tempo. Só vai durar enquanto as conseqüências dessa comodidade tecnocrata estiverem escondidas e/ou maquiadas, sendo já esse disfarce muito difícil, imaginemos em alguns anos. Isto quer dizer apenas que se, por um lado, hoje temos medicamentos para quase todo tipo de enfermidade (inclusive para estresse!), aparelhos que aquecem alimentos ao toque de um botão, tocadores eletrônicos de música e água encanada para levar de nós as impurezas, para citar algumas das maravilhas de nosso estágio evolutivo altíssimo, de outro lado está o exato oposto excremento dessa produção a preencher espaços elementares: água, ar e terra, e essa inominável massa de sujeira que nem o fogo pode mais combater. Assim como pensamos ter-nos livrado do lixo ao colocarmos um saco plástico cheio dele no meio-fio da rua, achamos que o subproduto oriundo do ridículo excesso de produtos que criamos apenas para manter uma economia fantasiosa funcionando, vai desaparecer. O mundo é o lixo, inclusive humano, de subclasses, subempregos e sub-raças, que permeiam os lugares mais afastados dos pólos de riqueza e limpeza.
Mas o surpreendente é que esse cenário aterrador e a vida diária pacífica e inerte PODEM coexistir. Não é preciso ir muito longe: o morador de São Paulo, ainda que se incomode ligeiramente com o cheiro, já se acostumou com a poluição dos rios que margeiam suas principais vias automotivas. Ou seria o contrário? Enfim, aquele lugar comprido onde gostamos de ficar parados por horas com nossos dínamos metálicos, confortáveis e possantes. O importante aqui é dizer que a convivência tranqüila entre mais o absurdo dos absurdos e o feliz contentamento do "cidadão" metropolitano reforça a idéia de alienação que foi o lampejo inicial para a criação desse texto, e contradiz o começo do parágrafo imediatamente anterior a este: a ilusão não é mais dissolvida por fatos que provam sua existência. E contradiz também o final: o lixo ESTÁ no mesmo lugar onde se produz e consome a riqueza, e a distinção ficou apenas num plano imaginário, um bloqueio mental sem precedentes na história da psicologia e quiçá da psicanálise (?), mas não estamos tratando de uma patologia e sim de um sistema ordenado e racional de se sustentar, pensar e se relacionar, não?
Se o tempo já não dá conta e as pontas se uniram, como o Ourobóros, cujo sentido ouso aqui perverter, o que pretendo eu aqui fazer? Encontrar uma solução? Fazer perguntas tolas que se auto-anulam? Sim. Talvez meu apelo atinja em cheio alguém anestesiado pela corrida circular supersônica que premia os que mais correm e menos sabem por que estão correndo, que parou um segundo para amarrar o cadarço do sapato... Pode ser cômodo de minha parte assumir que meu papel é falar. É fácil... Pois falar é fazer, semanticamente falando, não nos termos publicitários, em que fazer é comprar um celular e falar com ele, não com outras pessoas. Pois preferi simplificar minhas escolhas e com isso meus desejos, e com isso meu consumo, e com isso meu desgaste, e com isso meu futuro, e com isso minha vida. Não estou falando de mim, mas de qualquer um que ainda tenha a capacidade e a sensibilidade para tentar uma mudança. Escolhi falar tudo isso a você, e é só o que quero, e é por isso que caminho, não corro. Por que você corre? Porque quer mais? O tanto que você quer deve ser então medida para o quanto você aceita... E tomara que aceite-se responsável pelo quanto você quer.
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domingo, 20 de janeiro de 2008
Relógio de Pulso
Nasceu dormindo, num domingo, e quase foi dado por morto, não fosse um pulso fraco, mas pulso, que lhe acometia. Às tantas foi acordado e aquela tal luz a que foi dado parecia a morte, dor pulsante, chorou de raiva, dormiu de susto. Em dado momento da existência infantil, por vezes injusta, ainda que dela, sob nostálgica luz, digam-se doces advérbios e adjetivos temporais, descobriu ser do sol distante aquele brilho, não invenção de seu pai, e de choque pulsaram-lhe as têmporas. Quando se ia, se dormia. Ah, se nos fosse dado mais tempo, morreríamos jovens, ora, não é o desejo geral? Ser jovem por um século e disso padecer, mas padecia o nosso jovem do medo de envelhecer. E assim o fazia, medrando tarde, madrugando cedo da curta e bem quista morte, trabalhava duro a vida, essa vida, talvez dádiva, talvez maldição, acontece que o mundo não lhe deixava escolher, e o impulso padrão era sofrer pela opção positiva, e aprendia a passar o dia a esquecer o dia-a-dia, para ver no fim do próximo, ou do mês, o ouro em seu bolso luzir. Que alegria, será que podia com isso comprar seu sonho dourado, seu prêmio aguardado, seu sono atrasado desde a concepção? Foi saber que não, sossego não tinha, enquanto não obtivesse o objeto mais novo, e subisse na empresa, empreitada, ganhasse respeito, mas subiam-lhe aos montes, nas costas, cabeça, às suas custas, macacos que fazem, faziam, executivos? Vai lá saber. Mas isso era bom, carpe diem, a propaganda dizia, a se apropriar da vigília, forçada, é verdade, do já não tão jovem, pela tática da repetição: um pulso, impulso, dois, latência, retorno, que lucro, que nada, que lástima. No fim desse túnel parecia nem haver centelha, mas no meio ardeu uma chama, quando venceu-o a paixão, e a ânsia de alimentá-la. Haja lenha, mas tempos felizes sem sono, por fim, quem diria, passava. Se empenhava em pulsar prazer e prover, a trazer todo dia pra casa o amor e seus frutos, quando então contraíram saúde e doença, ele e a Lúcia — até que a morte os separasse. Não precisou tanto, bastou convivência e o fogo se foi, por mais que nas brasas se cresse, mas nesse entremeio uns rostinhos brilharam, famintos gritaram, e ensinaram ao desjovem afeto, cuidado, tamanho que sono não havia, que vida, que vidas! Já quando essas graças partiram, à sorte ou azar, motores de igual propulsão, almejou retornar a dormir, relutante e sincero. Dúvida dada, passou a ver mundo enfadado, reclinado, de olhos semicerrados em frente à telinha mortal, destruidora de vistas, lares, globos oculares, irradiando luz e projetando sombras, silhuetas d'alma, sombrias e sós: paredão. E então que esse homem, recebendo o folclórico tapa traseiro tardio, ausente, de início, gritou em silêncio o rebento da idéia final. Havia dormido, o tempo passado, e o sono querido era a paz acordada, vivida a valer, que agora colhia, mesmo sem ser, um luto contente, e no entanto antecipado. Quis treva suave, que o sol falecesse em seu sono, e no dele, pulsando seu fim devagar no horizonte, dormindo, domingo.--
foto: A Nebulosa de Ampulheta, 8.000 anos-luz distante, tem uma espécie de cintura, em função dos “ventos estelares” que a formam serem mais débeis no centro.
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Nova versão de "Da Música", gravada ontem
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