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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Amor+

O amor - a palavra e o sentimento - teve diferentes significados ao longo da minha vida. Na infância, era a tradução de afeto, aquilo que se sentia pela família. Na adolescência, o sabor de amar era tão amargo que o amor devia ser evitado a qualquer custo. Quando o amor amadurece, na vida adulta, esse amor homem-mulher e suas variações, você o persegue, de certa forma, e ele te persegue também, desde que já tenha superado aquele amargor juvenil. E você o merece, finalmente. O amor pelos filhos já entra no que você supôs a vida inteira ser o tal do incondicional - e aí você sente que já amou tudo o que tinha para amar.

Mas existe um amor que perpassa todos esses amores e vai além. Um amor tão abrangente que transcende até o amor - a palavra, o sentimento e seus significados. É o que sustenta a cama onde se fazem os filhos e também todo um solo de guerra. O belo e o feio. Sustenta todos os gostos de viver, bons e ruins. É um amor tão grande que é O amor. É de onde tudo emana. É o que faz tudo ser. É um amor que não se sente - se é. E somos todos. Basta ver além das pequeninas formas em que o colocamos, deixar que se rompam e fazer o amor vazar até que preencha tudo, inunde tudo e o mundo, o universo. Somos invólucros desse amor e precisamos aprender a explodir.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Uma nova espiritualidade




















Nós gostaríamos de nos apresentar
Nós somos uma nova geração de desbravadores espirituais
Nós não precisamos mais de respostas de segunda mão

Nós não culpamos mais os outros por nosso sofrimento
Nossa espiritualidade vai além da culpa e castigo cósmicos
E além do pensamento 'nós e eles'

Nós não nos agarramos mais a livros sagrados
Pois todos os livros são sagrados
Nós não matamos em nome da verdade
Pois a verdade está em todo lugar

Nós estamos dispostos a enfrentar sem medo a experiência do presente
Sem conclusões e sem preconceito
Nua, como no dia em que nascemos
Abertos ao que vier

Nós não esperamos mais pela vida
Ou por alguma revelação divina no futuro
Porque nós vemos vida em tudo o que há
Incluindo a espera pela vida
E vemos Deus em tudo o que outrora rejeitamos

Nós não sonhamos mais em fugir
Ou com algum "Céu" perfeito
Pois nos aconchegamos na incerteza
E a dúvida já é nossa velha amiga
E o não saber é amado com carinho
E a imperfeição é profundamente sagrada para nós

O corpo está incluído
A mente não é a inimiga
Sentimentos são sagrados
A sexualidade é celebrada
Nós amamos a bagunça que é ser humano!

E nós finalmente entendemos
Que sabedoria e compaixão
Absoluto e relativo
Dualidade e não dualidade
Transcendência e imanência
Pessoal e impessoal
Humano e divino
Nunca estiveram separados

- Jeff Foster

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Dois e três

 Eu vejo vocês
e eu sei
que é pra ser

Às vezes eu vejo
só vejo
sem me meter

Sei que vou ter
minha vez
às vezes

Ora com uma
ora com outro
mas vocês...

...vocês têm isso
que só vocês têm
e eu vejo

O abraço d'ocês
abraça o meu ver
e a vista embaça

Eu vejo vocês
e me pego
a vigiar

Pra que o lar
de vocês
sejamos nós três

Eu cuido
eu durmo
acordo vocês

Eu nasço
eu morro
eu vivo vocês

Cês dois
nós três
um

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Insumo


Às vezes percebo
que todos percebem
que o sumo da vida
é um breve lampejo

E tenta-se obtê-lo
retê-lo, prendê-lo
na foto, no grito
no clique, no linque

Às vezes percebo
que todos se esquecem
que o insumo da vida
supera o desejo

É o grosso de tudo
a rocha
o tecido
a farinha
é o pão que se sova com as mãos

O sumo é o insumo

E pensam sabê-lo
de estalo
sem mínimo esforço
e o vendem
dizendo compartilhar
ao ignorar a partilha
do que há de mais puro

Suor
e bagaço

terça-feira, 18 de junho de 2013

Virou o tempo em SP

Manhã de segunda-feira cinza, fria e chuvosa. Nada de novo em São Paulo, até que outro santo, São Pedro, resolveu ajudar o povo paulistano limpando bem o céu da cidade à tarde, lá para as 17h, no dia 17 de junho de 2013. Caía a noite e a multidão que tomava o Largo da Batata, em Pinheiros, pôde ver estrelas e um enxame de helicópteros que, como abelhas ávidas, mas ordeiras, sobrevoavam o local, um a um, buscando registrar a história. A HISTÓRIA! Fontes "oficiais" falam em 65 mil pessoas se movimentando a partir dali, opostas ao aumento da tarifa de ônibus, de R$ 3,00 para R$ 3,20, mas o que vi, ouvi e senti me pareceu muito mais e POR muito mais.

Foi LINDO. Mas no dia seguinte, estou aprendendo algumas duras lições. Diferentemente da Primavera Árabe, o Inverno Brasileiro mostra que a gente ainda precisa lutar para lutar. É assim: agora, todo mundo quer entrar na dança e colocar na mesa certos clamores padronizados, partidários, conservadores e pessoais, que NADA têm a ver com o que brota, verdadeiramente, das ruas. Você, amigo que esteve ontem, quinta, terça e antes ocupando a cidade, já deve ter percebido uma miríade de pessoas na sua "timeline", gente que nunca moveu uma palha para mudar nada, te dizendo direta ou indiretamente (com imagens compostas no Paint) aquilo pelo que "parece mais apropriado" que você lute. Ora.

Assim, temos que lutar para continuar lutando pelo que lutamos. A definição, o foco, o ponteiro, tudo virá disso. Mas não é simples. Muitos, milhares, milhões ainda confiam nos meios tradicionais de comunicação para obter sua informação diária. Esse é um dos grandes perigos, já que os interesses midiático-corporativos também se somam às tais vozes divergentes para apontar como "se deve" protestar. Lutaremos para que a fonte mais confiável de informação seja o próximo, o companheiro, o amigo, ao vivo ou pelas redes eletrônicas, antes que elas sejam tomadas por patrulheiros chatos.

Lutaremos também para que não haja palanques eleitoreiros misturados nessa massa. Tenho visto mesmo políticos que EU ajudei a eleger dando uma de camaradas do povo, mas isso não me engana. Outros que também nunca conseguem se eleger estão correndo para dar às mãos na ciranda - aliás, uma só mão na ciranda, a outra empunhando bandeira. Cuidado com isso e, se for para votar em algum desses no ano que vem, conheça-o muito bem.

Outra luta importante - e vou parar nessa pois, afinal, estou aprendendo devagarinho e já estou começando a soar como se desse palavras de ordem (não é minha intenção) - é para evitar que saiamos disso tudo com a imagem de "rebeldes sem causa". Uma: não vamos "sair" disso, já que o processo apenas teve início. É mesmo um despertar, o abandono da inércia que uma infinidade de pessoas que vejo e ouço, ainda, entre uma garfada e outra no restaurante barato por quilo, sustentam em situação de conforto: "Deviam é ter protestado no mensalão... quando fomos escolhidos para a Copa... quando isso, se aquilo..." Chega! Encontraremos nosso Norte. Duas: causa temos sim! Não é suficiente estar inquieto e infeliz com a vida que se vive na cidade, em tantos sentidos?

De qualquer forma, só o que me parece ser legítimo, mesmo, genuíno, por mais "difuso" que os almofadinhas digam ser, é o que é dito nas ruas. Deixo aqui o meu apelo: rejeitem o que se tem falado no jornal, na TV, no Twitter e no Facebook e VÃO ÀS RUAS ouvir cada um dos clamores dessa "gente perdida". Lá, você vai encontrar a SUA voz e todas elas crescerão em uníssono, com cada vez menos violência, mais consciência e união. Não deem ouvidos ao colega reaça de trabalho que prefere "cuidar da sua própria vida" em vez de "fazer baderna". Estamos cuidando de nossas vidas, sim, tomando as rédeas dela, pela primeira vez.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Não é a mamãe


Ser pai é foda. Nos dois sentidos. Só é menos foda, em ambos, quando o cara insiste em imitar o pai que foi seu avô ou bisavô: provedor distante, incapaz de afeto, filhopata sentado à ponta da mesa de jantar ordenando que lhe "passem as batatas". No mais, ser pai, principalmente de um bebê, é muito foda, e não tem mais lugar praquele tipo de figura paterna arcaica, a que deu vulto ao execrável patriarcado – tiozão que não sabe trocar uma fralda. Hoje, a gente tem mesmo que se desdobrar para aprender um monte de coisas que ninguém fez questão de nos ensinar, já que tem muita mãe machista por aí que prepara os filhotes na escola da tirania. Não foi o meu caso, mas os ecos disso tão por aí, na novela, na propaganda, nos Felicianos do Brasil. Não vem ao caso.

Mas também não é o caso do extremo oposto. Juro que fiquei tentado a ser esse pai fofíssimo da leva new wave de pais que, desculpem, só existem nos contos de fada hipsters: querem ser mães, dizem-se quase mães, sentem-se como um bizarro protótipo de mãe sem peito para aleitar. Mas não são! Você tem a sua cotinha de dar conforto, de aliviar uma cólica ou outra, de fazer dormir um dia aqui, outro ali. São todas pequenas conquistas que nos fazem pensar: "Porra, sou foda!" Ser pai é foda, mas você não é, não. A mãe é. Esses momentos mágicos só vão rolar quando o pimpolho ou pimpolha estiver nas últimas forças, sem energia sequer pra fazer o que sabe melhor: dizer, com seu corpo, gestos e choro que "não é a mamãe". 

É, amigo, acostume-se, pois você não é mesmo! É pai! Eu me senti meio fora da brincadeira, que de brincadeira não tem nada, nos primeiros meses. Por mais que eu quisesse me mostrar ali, disposto, “vamo que vamo”, é a companheira que resolve a maioria dos perrengues diretos com o bichinho. Afinal, ele quer estar muito mais em contato com aquela deusa maravilhosa que o gerou, não com esse maluco peludo! Você vai fazer compressa e mamadeira no meio da noite, sim, vai correr pra comprar papinha no mercado, dar uns banhos catastróficos e fazer uns rolês impensáveis no decorrer do percurso. Mas aquele milagrinho berra pela sua progenitora, sempre!

E não me venham com essa de "pai grávido". Ainda que eu curta alguns posts do blog de um famoso pai X-Men, autor de um livro que descreve um pouco o conceito mencionado, não é assim que acontece na maioria dos casos. Pode ter um ou outro que passe mal durante a gravidez (da companheira), mas há grandes chances de ser só ansiedade. Eu passei mal de tanta dor nas costas, mas tenho certeza que a minha esposa teve muito mais disso do que eu.

Não tô aqui impedindo ninguém de ser fofo, só que isso vai soar meio falso, às vezes, não natural. Agora, ser carinhoso, terno e bondoso com o seu filho, não é opção, é obrigação! Mas é nesse momento que a gente aprende a não esperar nada em troca, já que, quando a chapa esquentar, o nenê quer é mamar. E não pense que esse lance de ser pai 2.0 (3.0? Onde estamos, mesmo, nessa contagem?), consciente do seu lugar na criação da cria, tem muitas regalias. Lembra que a gente abriu mão de ser aquele Darth Vader, em uma galáxia muito, muito distante? Pois bem, agora você tá sempre tão próximo que vai ouvir um monte se resolver tomar aquela cervejinha com "os caras" e passar um pouco da hora. Experimenta!

Acabei de ir lá fazer uma inalação no garoto. O Pedro tem 11 meses e só agora eu sinto que a nossa conexão tá começando a acontecer. Ele sorri quando eu chego em casa e gosta de me ouvir tocar violão, dançando, todo animado. As viradas de tempo são cruéis com os bebês e o peito dele tá com um gatinho miando de novo. Mas adivinha quem tava lá, fazendo ele dormir e dormindo junto, de tão cansada? A mamãe. A Thaís é a melhor companheira do mundo, é claro, e eu sou seu aprendiz na jornada que é o crescimento do Pedrinho. No fim das contas, você não é pai: vai se tornando, bem devagarinho, como um útero externo de onde se estende um novo cordão, invisível. Eu não tenho um útero de verdade, então, pro meu pequeno me conhecer por dentro, ele precisa que eu me mostre, assim mesmo, toscão, verdadeiro, do mesmo jeito que eu virei marido. Ser marido é foda. Mas esse já é outro papo.

--

Allan Zaarour é jornalista, músico e blogueiro ocasional. Pai do Pedro e marido da Thaís, vai aprendendo com os tropeços e escrevendo sobre eles.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Struggle


I see struggle in every face
In the mirror I see struggle
But the struggle has no face

I see a mirror in your face
In the struggle I see mirrors
Though reflections do not struggle

I see a face in the mirror
In me I see you and one face
And I face the struggling truth

That is to be

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Café secreto


Dormi quatro ou três horas, sei lá, foda-se! O importante é que o mundo ainda não acordou. Desço a escada pra fazer um café forte, um pingo de leite e aquela essência de baunilha que só se usa duas vezes por ano, num bolo ou doce que o valha. Uma delícia! Bem açucarado... porque o mundo ainda não acordou. (Que bom que não fumo mais. Como me fazia mal aquela bosta! Alguns relatariam essa cena com o fogo acendendo e um belo trago. Fodam-se! É gente que nunca saiu da fase oral) Não tem ninguém gritando, rindo ou chorando. Não é difícil manter o silêncio quando não se tem com quem conversar. Ah, o silêncio. O silêncio também é vida, porra! É mais vida que a barulheira da novela, o motoboy acelerando aquela merda, o cara com som alto no carro pra compensar o pau pequeno. O silêncio é do caralho! Aquela chata do trabalho deve tá dormindo, resmungando algo entre os dentes. Nem ela nem ninguém acordou! O café vai esfriando, mas que se foda, pois eu não tô fazendo nada. Tô fazendo tamanho nada que até esqueci um pouco do café, aquela caneca enorme, cheia. Tá bom até frio! Faço nada com um gosto que não tenho por muita coisa que faço fazendo. Nada! Nem o cachorro acordou. Fico olhando seu respiro preguiçoso, feliz por ele não latir ou fungar. Os passarinhos bem que tentam acordar o mundo, mas ele tá dormindo. Eu não. Até que ele desperta, mas eu já tava me conformando. Se o mundo não acordasse, eventualmente, esse meu café secreto, que pode durar minutos ou horas, não aconteceria. Pode acordar, mundo fodido! Agora eu já tô pronto pra você!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Nascente

(Em continuidade ao poema Cascata. Este não é um poema. Ou é?)

Já tive meu carro roubado
mas nenhum larápio foi capaz
de furtar o que me move

Já tive o coração partido
Mas nenhum romance frustrado
levou ele embora

Já chorei de dor
tristeza e desespero
mas de onde vêm as lágrimas
(e sempre virão)
vem vida, vem amor

Hoje estou inteiro
nada me tirou pedaço

Pois o que sou
somos todos
e é eterno

O que somos?
Um só

quarta-feira, 21 de março de 2012

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Pequeno mensageiro de novos tempos

Nesse ano que entra, vem aí o pequeno Pedro, meu e de Thaís, que não é o produto, mas a continuidade, a perseverança do nosso amor. É um pingo de energia, vindo da nossa, que cresce, e vai carregar a história humana que escrevemos, mas com leveza, sem que isso seja um fardo, e vamos fazer de tudo para que não seja. Ele é mensageiro disso tudo, e, aliás, não somos todos?

Se há alguma real importância nessa memória toda que acumulamos é a oportunidade de portar, transmitir, comunicar, avisar, espalhar uma mensagem de amor, como se disséssemos: "Vejam, sou mulher, sou homem! Tenho o maravilhoso privilégio de experimentar esse mundo, essa vida, com todas as suas bem-aventuranças e malogros! Deram-me à luz para que eu a reflita a todos, aos céus, ao espaço infinito e até a outros mundos, se eles existirem... Eu SOU e por isso sou grato!"

Filhos não devem ser poços de esperança e muito menos de frustrações, mas devem, sim, ser tratados como um presente - não um egoísta, que damos a nós mesmos, mas ao planeta -, um pedacinho melhorado de nós. Isso basta. Não importa o destino que ele tomará, pois será belo o caminho de perpetuar a alegria com que o recebemos. Criá-lo não é para nós, é para um presente mais justo e um futuro que só a ele pertence, não a nós.

Não há, portanto, o que projetar. Ser é também deixar ser, e gerar uma criança é facilitar sua chegada. Depois que ele chegar, não pretendemos sufocá-lo de responsabilidades, apenas ensinar a ele que cuidar do mundo é uma maneira de liberar o caminho para outros mensageiros de luz, como ele, e como todos os que amam.

Em 2012, está chegando o Pedro, que significa, assim como parece, pedra, rocha. Essa firmeza ele vai usar como quiser: para brigar, para decidir, para construir, para destruir... Mas Pedro também foi "pescador de homens", após incentivo de Jesus, pois de pescador de peixes viria a se tornar bispo - o fundamento da igreja, a pedra que viria a embasar a reunião dos homens.

Mas para ele, nada de planos, nada de passado, nada do peso de significados históricos. Sua chegada será um incrível recomeço de nossa própria vida, e ele vai nos ensinar a tratar essa bênção com muito mais carinho, daqui por diante, sem nem precisar se esforçar. Ele só precisa ser. Ele já é, e muito bem-vindo. Pedro, já te amamos, e essa fonte de amor, meu filho, nunca seca!

Um 2012 de muita PAZ a todos!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Suportando escolhas

Fiquei sem postar nada um tempo e foi por bons motivos que escolhi (não) fazê-lo. Digo isso porque o tema dessa postagem de recomeço é justamente esse: escolhas. Isso vai abrir um precedente aqui, pois será um post na linha da autoajuda, isso mesmo, mas do tipo legal. Tenho lido com assiduidade alguns blogs, especialmente o zenhabits e o theminimalists, e isso tem mudado a minha vida. Diferentemente dessa literatura que (só) se vê nas vitrines de grandes redes livreiras e anúncios internéticos afins, é um tipo de texto sobre o qual, depois de lido, não se pode falar "tá tudo errado", ou "eu nunca vou fazer isso".

Não vou mandar ninguém seguir 10 passos para ficar rico ou ser um chefe fantástico, ou conquistar o seu grande amor (dica do meu grande amor, que acabou de cantar isso no meu ouvido), etc... São coisas que a gente sente estarem certas, pois fazem um sentido natural, ancestral, corporal e espiritual. E aquilo que a gente sente, como vamos descobrindo ao longo da vida, tem muito mais valor do que aquilo que a gente pensa. A intuição, inclusive, tem muito a ver com o que quero falar, e é melhor que eu comece logo.

Temos que apoiar nossas próprias escolhas. Nada vai mudar se ficarmos criticando o que nós mesmos escolhemos para nossas vidas, não importa se são decisões minúsculas ou profundas, se inócuas ou se revolucionaram alguma coisa, ou atingiram outras pessoas. Você vai se sentir muito melhor se apenas aceitar que fez essa ou aquela opção, e pronto. Além de ser muito fina e quebradiça essa linha entre o certo e o errado, que não vamos discutir aqui, o desfecho da sua escolha será sempre positivo: algo mudou a partir dela e isso fez com que sua vida avançasse.

Uma associação curiosa que podemos fazer é com a palavra usada para dizer "apoio" ou "sustentação" em inglês: support. E sim, nós temos que suportar, aturar, mesmo, tudo o que decorreu de nossas decisões. Mas assim como isso pode remeter à ideia de dever ou responsabilidade, esse negócio de suporte pode também vir carregado de coisas boas, como um desafio interessante que você colocou para si mesmo e que te motiva a seguir em frente. Pense numa coisa que você queria ter feito diferente. Pensou? Esqueça; você já fez desse jeito. E agora está aí uma solução esperando que você a escolha para agir e melhorar tudo o que quiser.

Você pode querer não ter escolhido morar no bairro onde mora, trabalhar no lugar em que trabalha, namorar ou casar com quem você está junto agora. Mas é preciso entender que algo lhe motivou a fazer todas essas escolhas; foi você quem as fez, então, por que não dar suporte a elas? Você pode escolher fazer escolhas diferentes no futuro, mas estas, você já fez.

Hoje, assim como em tantos outros dias, descobrimos mais uma maluquice de nosso cachorro, eu e minha esposa: ele gosta de tomar banho no chuveiro. O beagle mais lindo do mundo, indo tomar banho sozinho... uma coisa incrível. E a gente quase se arrependeu da escolha de ter mais um cachorro além da nossa outra linda beagle. Mas foi a melhor escolha do mundo!

Por último, mas não menos importante: a gente também deve "bancar" as escolhas que faz em conjunto ou aceita de outra parte. Seus pais, seu cônjuge, seus colegas de trabalho... Não adianta depois pensar que foi "ideia dele"! Sou muito feliz com as escolhas que fiz, mesmo que não sejam todas muitíssimo acertadas ou planejadas à exaustão. Nossa cabeça pode ficar confusa, porque lida com o que pensamos. Nosso coração sempre vai saber o que fazer, pois sabe o que sentimos.

P.S.: O cara da imagem é Atlas, aquele homem da mitologia grega que fica carregando (suportando) o mundo a vida toda... É mais ou menos o que a gente faz, não?

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sopro de vida

Ultimamente (em geral isso quer dizer dias, semanas, mas no meu caso já vão-se alguns anos) tenho exercitado um hábito parcialmente útil: envio-me mensagens a partir da conta de correio eletrônico da empresa em que trabalho para a caixa de entrada do e-mail que tenho como "pessoal". O conteúdo varia, mas a esmagadora maioria constiste em lembretes sobre textos, imagens, músicas encontrados na internet ou pensamentos advindos de própria mente que atentam para coisas prazerosas, simples e boas para minha vida, pequenas dicas para que eu me lembre do lado bom de tudo, que faz bem respirar, que o amor é lindo!

Pois bem, a parcialidade do benefício é que não basta mandar as mensagens... Preciso recebê-las! E para a minha surpresa, a frequência com que o faço não é lá grandes coisas. Isso diz muito sobre o que quero discorrer aqui, é uma alegoria, uma metáfora, etc, de algo que acontece todos os dias, horas, minutos, segundos da nossa existência: o conflito entre o que pensamos e fazemos, entre o mundo externo e o interno, o coletivo e o individual e, o maior dos problemas, nossa surdez voluntária para a voz da consciência.

Acabo de ler alguns blogs e twits e afins de gente que gosta de compartilhar seus pensamentos e conhecimentos sobre mudança de hábitos, conscientização para o presente/agora, pequenas pílulas-zen de informação que podem ajudar outros a tomar impulso para o novo, para o melhor, o mais saudável, amoroso e tudo o mais de plus + que há para adicionar à jornada. Isso me lembrou que há muito o que quero compartilhar, mas mantenho guardado em preferência a coisas mais "importantes" ao mundo capitalista/urbano, como trabalhar para ganhar o pão ao cubo.

Mas essa cortina que se desenrola sobre o olhar em tantas ocasiões, que nos faz inclusive desenvolver certo apego pelo que nos faz sofrer, é parte de um movimento de inércia adquirido que teimamos em cultivar. "Dá trabalho" pensar positivo e, mais ainda, AGIR positivo! Nossa teimosia em sentar e reclamar, apontar o dedo para outros e culpar a injustiça divina ou maligna, ou responsabilizar o cometedor do pecado original por tudo o que nos aflige é magnificamente cômoda e encontra respaldo na segurança da certeza: sempre vai haver no que se apoiar para que perpetuemos o império do pensamento derrotista, pessimista, porém satisfeito. Sempre haverá o impossível.

É curioso que, apesar de tudo isso, pense-se que o mal pode dar origem ao bem. Parece que ao expurgarmos toda a espuma raivosa que jorra das nossas tristes rotinas no twitter, na orelha de amigos e/ou inimigos, ou aos sete ventos, vamos nos livrar do que nos angustia e teremos caminho livre para obter tudo o que desejamos, projetando todo o mal em algo externo e saindo ilesos para viver todo o bem que não nos permitiram viver até agora, e vingarmo-nos das ofensas diretas feitas aos nossos pequenos anseios diários. Muito ao contrário, com isso criamos uma massa densa, escura e pegajosa de maledicência, um lodo de medo e ódio, algo que só faz aumentar nossa permanência dentro da inércia já citada.

O que custa sorrir, cumprimentar, abraçar? O que custa perdoar, compreender, respeitar? Custa justamente a saída desta zona confortável de aversão ao próximo, pondo em xeque as inúmeras justificativas que encontramos para transferir a tudo ao nosso redor um mal que está dentro de nós mesmos.

Hoje, não prometo, mas vou tentar recuperar todos os escritos perdidos no carderinho, que deixei para depois postar, e postá-los. Vou abraçar e beijar minha namorada, amassá-la bem amassadinha, sufocá-la de tanto amor que, apesar de ser infinito, é liberado apenas em doses homeopáticas ao longo da semana, aguardando pelo fim dela, devido ao cansaço, à rotina. Vou ler os textos, ouvir as músicas, ver os vídeos que mandei a mim mesmo durante todos esses anos, mas que teimei em não receber por pensar ser um tipo de spam mental, que na verdade era nada mais que minha consciência, sábia, divina, serena, imortal, que sempre saberá falar diretamente ao meu coração. Abro-o, agora.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Lobo Bom

Preciso do frescor da noite
e água fresca para beber

Arrefecer o calor de dentro
e sair do amor por instantes

Um frio masculino
uma dor constante
um uivo ao gélido luar

É o caminho incerto
necessária ignorância
para dar valor ao que é saber-te

terça-feira, 6 de outubro de 2009

SeteS MeM InI MotionoitoM*

O corpo fala, a mente sente.

Os retraídos dizem tanto ao fugirem do movimento, esquivarem-se da externalidade de torcer o torso ou balançar os braços, num protesto silencioso e estaticamente inerte contra seus próprios anseios ocultos, desejo encerrado, libido embalada em razão.

Os extrovertidos, com energia extra e não menos sobejo desengonço, de tanto que querem falar acabam por abafar o raciocínio atrás de uma vaidade muscular, derrubando em êxtase a ideia de intimidade, distando dos próximos na vontade sôfrega de se aproximar.

O corpo fala, a mente sente.

E insistimos em verbalizar o que nunca foi preciso. Hoje sei que aquele porvir do beijo era beijo por vir e ficar, e agora conheço a tagarelice do amor: delata-me nervos, emos e ções, doces e quentes, sem proferir palavra.

Leio-te as entrelinhas de entreolhares, quero-te em suas linhas circulares, tenho-te no côncavo e convexo dos gestos que nos fazem e nos são. Sei-te agora, pois se antes te ouvia, hoje escuto. Se antes me parava, hoje me mexe, me move e comove - motor dos meus sonhos.

O corpo fala, a mente mente, e a alma em ação, enfim.

--
* Set me in motion.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quadradondo

Tudo é liso

plano

estéril

chato

reto

branco

limpo

seco

estável

certo

novo

puro

claro

firme

sério



Eu sou leve

solto

errado

frágil

mole

torto

negro

simples

gente

fácil

tolo

falho

mesmo

sinto

amor

segunda-feira, 16 de março de 2009

Amata-me, amor, me encontra

Quero sim o bom da vida
sem esperar que ela me dê
nem tampouco tomar dela
bem-me-quer dela, meu quê

Quero amor de uma só sorte
da mesma que presenteia
me envolve, mulher-me, ensina
me mata antes da morte
e salva-me!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Teramar

Não preciso tê-la
para que sejas minha

És minha ausência de posse
e minha, ainda assim

És meu desapego das coisas
e minha, ainda que em outro gênero

És minha falta de tempo
e minha, pela eternidade

És tudo o que de todos é só meu

És minha, e quero não precisá-la
mas preciso querê-la

Envolves o que nada tenho
e é assim que me proteges de ter

Pois és minha
e só o que tenho é de ser teu

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Amor criador

Fico ainda a sentir o teu mar em meu corpo
que estivera à deriva em tormenta ou marola
desenrola-se em mim o suave vaivém
da eterna carícia entre a espuma e a areia
do afago infinito e elementar de nós dois

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Cadernices

Tenho negligenciado este blog deveras e hoje o farei novamente, porém, com uma postagem. Possuo um daqueles cadernos, sim, um caderno, de papel, com linhas impressas e uma espiral metálica, em que anoto certas digestões intelectuais/espirituais nos momentos mais criticamente tediosos e irritantes de determinados dias, quando existe a necessidade de autocontrole para que não se transforme em autoflagelo. Visto que a incidência destas circunstâncias é grande, como provavelmente o é para todos os "trabalhadores honestos" deste mundo, há bastante material... A qualidade é duvidosa, mas fingirei que a justificativa da publicação é estudar a mente criativa nessas situações. Portanto, finjamos ser esta uma investigação conjunta, em partes, e a primeira:

--

Prefiro a viagem à chegada
e ainda que o momento de chegar houvesse
eu o atravessaria
mas não há
pois viajo

São todos tão seguros
e tão sábios em sua ignorância
assegurados pela sapiência
da ignorância alheia

Sou meu próprio deus maligno
e a causa de tudo sou eu
ainda que professe a fé de outrem
serei eu a professá-la
cale-se, por favor

O medo é o fruto do passado
em relação ao futuro
assim como tudo
no presente não há medo
e o presente é liberdade
assim como nada

As pessoas estão sempre
em contagem regressiva
sem nunca regressar da contagem
e se perdem sem perder-se
pois faltará sempre um
falta um, não dois

E ver o reflexo de um relfexo
que se oculta na opacidade de um meio
o ar, o éter, o vácuo, talvez
mas sempre um espaço observado
e observador

Na extensão da ação
um frio, um vazio
pois intencionada, simplesmente
sem interior, só razão
ou nem isso
e os extremos se esticam
na reta e na queda
parábola que vira círculo
que vira cárcere
que exclui o bom
externa o mau

Na percepção do movimento
está a soma e a subtração
a simultaneidade do sim
do saber e do ser
onde o será não foi
quando foi não será
e o medo não está
nem seria

--

Clipe novo do Radiohead. Bem "prafrentex", como costuma ser com esses rapazes. "Filmado" sem câmeras, apenas com scanners a laser... O primero videoclipe "escaneado"?