quarta-feira, 31 de outubro de 2007

AdlibildA

Uma tentativa livre
outra versificação de trovas
ou de truques criativos
que seja, que venha
ou se afaste

Sem participação da massa
ou espelho meu transverso
que ensejo, desgraça
essa criação divina
é terrena

E o pensamento preso
ou prensado contra cada estrofe
um espasmo voluntário
anti-gozo, sim
anti-heróico

Que decepção seria
se a mim só e só isso coubesse
se regozijando o ego
feiura, orgulho
o umbigo

E ao som me solto em metro
nesta semprisão bem construída
de escrever e sim
se entender-se é só o fim
começou

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O novo cd do Radiohead foi lançado para venda pela internet, encomenda ou download, e o consumidor determina o preço que quer pagar. Se não acredita, visite o site. Eu comprei. A jogada é esperta, na minha opinião, pois desafia tanto a troca livre e gratuita de músicas quanto a megalomaníaca indústria fonográfica, e eles não deixam de ganhar o deles. Aqui tem uma das minhas preferidas. Pense o que quiser, faça o que quiser, hoje eu não quero mesmo me preocupar com você. E você?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Sem eutanásia para o Papa

Texto de 5/4/2005 escrito por mim para o blog jornalismado.blogspot.com.

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Se fôssemos católicos mexicanos (por que não?), estaríamos comemorando a morte do Papa. Explico: nesta cultura, a morte é tratada com festa, como uma celebração à vida do ente que acaba de deixá-la. Deixá-la, diga-se, nos corações e nas mentes de quem o conheceu, para deixar também seu legado, sua sabedoria, sua velhice.

Essa relação é resultado de uma tradição herdada dos povos nativos que viviam no país antes da chegada dos europeus. Os nahua, os otomi, os purepecha e os totonac, povos pertencentes às civilizações maia e asteca, acreditavam que uma vez por ano, no Dia de Finados, os mortos vinham visitar os vivos. Isso provaria, na concepção deles, que os mortos viviam em um mundo paralelo bastante semelhante ao dos vivos e que era perfeitamente possível o contato entre os dois. Na cultura desses antepassados, a crença era motivo de festa. E essa tradição permanece até hoje entre os mexicanos. Música, decoração especial e o melhor da culinária local fazem parte da comemoração. Nas casas, costuma-se armar um altar em homenagem aos falecidos. Mas a tristeza passa longe.

Um povo que lida bem com a morte, vive melhor. No entanto, aqui por estas bandas, aqui no quintalzinho dos States, medo. Cá como lá e na velha "mãe" Europa. Um luto medroso pela morte da americana Terri Schiavo, porém tímido e fugaz, e um luto apavorado e grandioso diante da figura esbranquiçada daquele que tão bem lutou contra a pecaminosa liberdade.

No caso de Schiavo, o que sentimos foi a dor de um rosto inexpressivo, que nos é indolor, ao mesmo tempo. É uma dor que não pode mais distribuir sorrisos falsos, sinais de positivo para as câmeras, posar com o presidente intrometido para fotos de agências de notícias pasteurizadas. É a dor da morte sem máscara, sem o filtro da ciência que tudo pode, tudo conserta, tudo limpa. Morte da qual não se pode fugir, o que é tão natural. Morte, e nada mais.

Crescente medo da morte, um irracional pavor do fim das coisas, como se acordássemos todos do torpor tecnológico que nos faz (nós, seres virtuais internéticos) parecer eternos. Estranhamos a velhice como uma doença incurável. Doença não é. E a cura, não há Bill Gates que encontre. Como os republicanos dos EUA no caso Terri, queremos fazer da morte um pecado. Como os democratas dos EUA, deixamos a morte morrer de fome, como se não fizesse parte de nós, e achamos assim que ela irá embora, sem peso na consciência por tamanha crueldade.

Uma semana curta para tanta choradeira. E continuamos a ignorar o fundamentalismo explícito em ambas as situações: a morte lenta de Schiavo, o triunfo do moralismo com que os EUA governam a si próprios e estendem para o resto do mundo com seus dedos elásticos. A morte do Papa, o triunfo de uma das maiores e mais bem sucedidas jogadas de marketing (todo seu papado) já feitas pela Igreja desde sua fundação, uma insituição que consegue se manter como a mais antiga nesta aura mística e dourada e abrir caminho pelos anos 2000 com sua cúpula pontiaguda.

O que não se percebe é que a lenta morte do Papa (desde que ele começou a morrer por aí na televisão e nos jornais), que durou anos, foi o rápido renascimento do fundamentalismo religioso romano. Vejam que não há Cristo na Igreja Católica Apostólica Romana. E nossa Roma tecno-bélica agradece: impede a morte natural para impor a morte matemática e numérica no Iraque, como se ao presidente do mundo coubesse decidir os destinos de todos, como se fosse... Quem? E a eutanásia quem quer é o povo, mas nem isso pode.

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Baixem música de graça: Sonolento, do AllanZi que vos des-fala. Canção (mp3) e letra (txt).

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Sombras: uma análise física que vai à meta

Amigos, irmãos, parceiros de mais esta jornada, vida, existência!

Hoje, sob a luz da física e da metafísica, falarei um pouco sobre sombras. Sim, sob um foco de luz, afinal, sem luz não há sombras, apesar das sombras serem, de certa forma, a ausência de luz. Vamos iluminar esse pensamento.

Começarei por onde nossa razão foi levada escolarmente a equacionar, pela Física Clássica. Na definição da física, sombra seria a região de um espaço em que nenhum raio luminoso proveniente de uma fonte chega, devido à presença de determinado obstáculo. Quem nunca ficou olhando a própria sombra projetada pelo Sol no chão, na parede, ou em qualquer ser próximo a nós? Quem já olhou, deve então ter percebido que a nossa sombra nada mais é do que uma projeção sem luz de nós mesmos.

Tomando a fonte de luz como aquilo que ilumina o nosso próprio ser, o obstáculo como o nosso próprio ser, e a sombra como a projeção sem luz de nosso próprio ser, pergunto: O que seria a fonte que nos ilumina? Tudo aquilo que realmente nos motiva, nos dá ânimo pra prosseguir, dia após dia, nosso ideal de felicidade, que pode ser um outro ser e/ou um objetivo. Somos nós um obstáculo? Oferecemos resistência à luz de outros seres e/ou de nossos objetivos? Respondam vocês mesmos. A presença das sombras em nossas vidas e cotidianos é inevitável? Equacionarei essa questão com base na Física de Aristóteles, a física do imaterial, voltando ao tempo para ir além, usando a Metafísica (em grego, metha = depois, além).

Se na presença da fonte luminosa somos um obstáculo à luz emanada, realmente as sombras são inevitáveis. Porém, existe um fato que devo lembrar a todos: só é possível observar a presença da própria sombra se desviamos o nosso objetivo da fonte luminosa! Só vemos a nossa própria sombra com a nossa fonte de luz à frente, e nosso olhar para trás! Ou seja, ao observarmos a nossa própria sombra, estamos fora de nossos focos, caminhos e direções, que rumam em busca da nossa realização.

Examinemos, com base no que foi concluído, as sombras que estão ao redor, as diversas projeções sem luz que nos cercam. Quais delas são nossas e quais delas não são? Todo o sombrio externo observado vem de seres fora de seus próprios caminhos, ou estão simplesmente englobados em nossas próprias escuras projeções?

Para terminar com esse papo obscuro, quero dizer que não somos eternos obstáculos à luz. Nem que o somos a todo instante. Em minha caminhada pela (meta)física, constatei que o objeto que é um obstáculo parcial à luz, ou seja, uma espécie de segundo estágio em relação ao anterior, é o objeto denominado translúcido. Então, queridos semelhantes, se sombras lhe atrapalham o caminho, não percam seus focos e busquem a translucidez.... trans-lucidez!!!

L.H.M.
Namastê

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Como já é de praxe, o intrometido do descriador do blog vai dar o seu pitaco no texto do amigo autor não-tão-anônimo. Mas, como também é costumeiro, a idéia é somar, pois suponho que adquirir conhecimento faça parte da meta de nossos caros não-leitores... Portanto, sugiro complementar essa leitura com esta referência wiki (isso é clicável) sobre o Mito da Caverna, de Platão. Apreciador de e desentendedor que sou em filosofia, creio que isso possa lançar uma luz sobre a questão da projeção de sombras, e não só no universo espiritual, físico e metafísico, como também no político. É só refletir, luzir, reluzir e transluzir. A imagem que usei para ilustrar o texto é uma das milhares de alegorias feitas do tal Mito. Deixo aqui também um link (linklique) para uma música de minha autoria chamada "Da Música", que, vai saber, pode amarrar bem tudo isso auditivamente.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Vagabalho Trabalhundo - Gênese

Mais um entre tantos. Um blog substantivado do inglês eletrônico. Postem, meus amigos, postem esses verbos esquisitos, brancos ou cor creme-pc, ou deleitar-me-ei no delete com requintes sádicos de dedos-falos, poder de teclas. Teclo. E só não troco tudo por isso, só não cobro de vocês a minha conta, porque é virtual. E só não é virtuoso porque vício inverso é em versos luxo. Palavra versus número e eis que o Algarismo palavrou: "Faça-se o verbo!" - e o blog se fez, como zero entre uns.

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Texto escrito por mim em 24.03.05, tirado de um antigo blog mantido por colegas de faculdade: jornalismado.blogspot.com. Postarei mais um texto oriundo deste.

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Música do dia: AllanZi - Late Worker. Clique no link, depois no botão "FREE". Complete a verificação pedida e dáumlôudi! Essa é a última vez que vou explicar, sei lá porquê. E também será a primeira e última vez que digo que se ninguém baixar o arquivo se esvai, como vapor... puf... portanto baixem!

domingo, 30 de setembro de 2007

Morte em vida merecida

As contribuições de amigos começam a acontecer. Agora, além de não-leitores, tenho outros não-autores para blogar comigo. O título e imagem são de minha humilde escolha para o texto de meu amigo L.H.M. Esta última, uma pintura de Hieronymus Bosch (1450-1516) - A Morte e o Avarento (c. 1490).

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Amigos, irmãos, parceiros de mais esta jornada, vida, existência!

Venho por meio desta lhes apresentar uma grande amiga minha, a Morte! Sim, a nefasta, a imperdoável, a maldita que tanto nos faz ou fez sofrer. Eu sei que vocês também a conhecem, mas apresentarei quem ela tem se mostrado ser, realmente, a mim.

Nascemos com a única certeza de que, no fim, é ela que vamos encontrar. Visto isso, nos higienizamos, nos alimentamos, cuidamos da nossa saúde, nos poupamos de situações perigosas e escutamos conselhos dos mais experientes. Pois é, apenas pela sua futura presença, tentamos postergar ao máximo este encontro, nos forçando a fazer coisas às quais, com uma eventual certeza da eternidade, não daríamos a mínima importância.

Porém, a sua função não reside apenas nesse “aviso” da brevidade da nossa passagem. Se perdemos este medo, e solicitamos sua ação durante a vida, veremos que não pode haver melhor companhia. Cotidiano tedioso, metas inalcançáveis, amores platônicos, desejos, desejos e mais desejos. Por aquilo que vemos como desagradável, ou como algo essencial que ainda não temos, tornamos nossas vidas um mar de frustrações, culminando em vícios, hostilidades, tristezas, doenças, enfim, uma verdadeira propagação da nossa insatisfação interna. É aí a hora de recorrer à nossa amiga Morte... Suicídio??? Longe disso!!!

Não morremos apenas fisicamente junto dessa nossa máquina biológica de anos-luz à frente, mas morremos ao matar conceitos, teorias, pensamentos, desejos, vícios, necessidades, todas elas arquitetadas por nosso Ego, agindo em busca daquele bendito sentimento de felicidade/satisfação. Sim, matemos os meios pelo qual nosso Ego escolheu trilhar a busca do que realmente é essencial. Somos os únicos algozes dessa vitimada vida que levamos.

Por isso, digo a vocês que não tenham medo da Morte! Morram! Morram a cada instante! Não há tristeza, tédio, ou qualquer tipo de dependência que suporte isso! Morram! Morram a cada instante, a cada minuto, a cada segundo! Morram! Morram, que a Vida sorrirá cada vez mais perante nossa existência! Morram! Morram, que a sublime sensação eterna se fará cada vez mais presente dentro de vocês!

L.H.M.
Namastê

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Comecébrio (Semimbriaguismo)

Ninguém admite estar bêbado num copo
de cerveja, pode ser, mas alguém mente
se se diz não sentir leves as idéias
ou dançar com olhos-vídros pela luz

Poucos lembram que este sinto em tudo está
nas menores e piores circunstâncias
este semimbriaguismo nos dá lentes
para examinar melhor o que é só

Não é ode ao alcoolismo, que se pense,
odiálcool, nem pensar, bem ao contrário;
é um brinde às ebriedades da vida
que_em verdade as fazem digna do nome

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Amoribundo (Menino-Mor)

É a primeira vez que vou colocar aqui texto de outrem, mas com uma série de justificativas que com certeza não são necessárias. Se quiserem, caros não-leitores, refletirem sobre o texto sem as minhas ponderações, talvez seja até mais apropriado, por isso haverá um espaço entre este parágrafo e os três que seguem antes do texto em questão.

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Eu gostei de lê-lo com rapidez, com a velocidade provável em que foi escrito. Não é questão de ser negligente em relação aos detalhes, mas uma forma de me aproximar da freqüência de raciocínio do autor, o que é em parte o motivo porque alguns, como eu, gostam de ler Saramago. Sim, é claro que são pensamentos despretensiosos, deprovidos de apuro em sua oralidade informal e ansiosa, mas não tira a tristeza e a beleza do desespero de um jovem amor.

Em segundo lugar, alguém ainda precisa me explicar o que é a verdadeira motivação artística. Sem dizer se o texto que segue é arte ou não, já desembucho que ele não é, com certeza, uma pretensão artística. É, ao contrário, uma modéstia não-artística com forma de carta de amor e disfarçada de pretensão artística, o que pode ser uma motivação artística, claro, na minha humilde opinião.

Por último, mas não menos importante, é sempre bom ver uma foto, um instantâneo da juventude, ainda que local. Pois não só são sentimentos complexos e confusos, sem dúvida verdadeiros, que todos nós temos inegavelmente, mas desenham a geografia do arquipélago que a humanidade está se tornando, um arquipélago no entanto incomum: somos, por nossa própria vontade reforçada por séculos, ilhas flutuantes. Sabemos que não é mais possível integrarmo-nos ao continente, mas ainda temos a habilidade, ou mesmo sorte, de nos chocar contra outras ilhas, sem poder evitar, é claro, o efeito do impacto, separação. Chamo esses choques de amor.

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Um pensamento, um acontecimento, uma realidade, uma vida, uma reação, uma filosofia,

O amor!
Amar é um sentimento que vai além da nossa imaginação saber que você ama uma pessoa e não ter ela do seu lado é como sua vida não tivesse sentido simplesmente não ter forças para conseguir lutar por você.
Amar? Nunca imaginei que seria uma coisa tão boa mais ao mesmo tempo tão ruim, acredito que tudo vem para nosso aprendizado, mais porque tudo tem que ser como de todo mundo, porque não fazer a diferença, acreditar naquilo, lutar para acontecer, suponho que quem ama luta por aquilo que quer, mais há várias circunstancias, não podemos fazer a pessoa te amar, simplesmente a deixamos ir e ser feliz, mais a dor é muito grande de vez em quando não há forças, tento mais não tenho, creio que vai passar, mais quando penso, pronto já voltou tudo de novo, tenho medo que isso não acabe, vou lutar para sobreviver, aliás, é só amor, o que tem de tão complicado nisso.
Eu posso dizer e passar para frente, que as pessoas acreditem no amor, pois ele existe e como existe, não espere, não se torture, ele vem, mais tem que ter a cabeça no lugar para que possamos lidar com ele, não digo que é complicado.
Não ter a pessoa que você ama do seu lado e não se ver longe dela, mais acredito que ela estará feliz isso já me deixa bem, passarei por novos amores, mais concerteza nunca vou esquecer meu primeiro amor, um amor verdadeiro, um amor que não tem como explicar, só sentindo na alma, no coração, no pensamento.
O amor é simples coisa que qualquer pessoa senti.
O amor é você olhar para outro olho no olho e dizer eu te amo, olhar no fundo dos olhos e dizer eu te amo, abraçar e dizer eu te amo, sentir o calor dos corpos e dizer eu te amor, sentir a sintonia dos espíritos, a energia, dormir, tomar banho, acordar do lado, comer juntos, conversar, beijar, amar, coisas tão pequenas que muitas pessoas não observam, são dessas coisas pequenas que cria uma coisa muito grande.
Quando você ama você acredita naquilo, você quer aquilo e simplesmente não acontece, o que fazer?, O que falar? Que atitude tomar. Só uma pessoa para dizer isso, você mesmo, seu coração ele vai falar o que fazer, como agir.
Não se arrependa de nada e lute para isso acontecer que é a coisa mais linda do mundo e como é linda, seria como as horas não passasse o tempo parasse, como se estivesse na lua, em outro mundo, é uma coisa absurda de tão bom que é, coração mais leve, tudo fluindo, você só quer amar, amar, amar, amar e amar.
Eu acredito nisso, vou lutar para isso, vai acontecer, vai ser tornar realidade, vou me sentir amado,vou fazer a diferença, vou amar, vou sonhar, vou te amar...............sempre..............

Luigi Campigotto 22/09/2007

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Descasa do misantropado

Comentário prepoema/estudo:

Já não tenho mais a insônia do poeta. Quando muito um notivagaroso e voluntário. É mais fácil escrever quando é mais difícil. Quando é mais fácil, não quero ou nada me vem.

Às vezes precisamos cortar alguma artéria para sangrar bonito, mas tenho apenas me espetado umas agulhas. Haja faca.

Descasa do misantropado

Essa necessidade urgente de casa
por não ter lar fora, nem vestígio
lá fora, acasa, afora, aflora, à míngua

Sem o com fica essa troça deslocada
precedendo dentro, mais margem
redor, re-dor, de rente, em volta, entorno

Escondendo o que condena fico em coma
medolento em vida, comovo
mediço, mavento, me evado, vomito, me vou

Essa inteligência ausente de sangue
gente descentro, parasita
pessoa, des-sente, peçonha, passiva, prescindo

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Desinexistência da realirrealizacão: só a língua não trava

Foto: Cubiculum ed Revisorum Toscus - by AllanZi

- Tsê vai?
- N'spermercado.
- Traispão?
- Ahã.
- Caboabanana t'mém.
- Tá.
- Sidé trais'ma coisinha gostosa.
- Ah, screviaí na lista, vai.
- Tá... Tó.
- Tá fui. Qué cois'liga n'celular.

Trabalhando hoje na revisão de um artigo sobre linguagem falada versus escrita, comecei a pensar sobre os mundos que habitamos criados por essas linguagens, e pela nossa própria língua, claro. Nosso universo é u jeit'c'magente fala. A depreciação desse oralismo em algumas línguas levou ao seu fim. Talvez não necessariamente por culpa do engesso formal da escrita, mas a possibilidade disso acontecer sempre existe. Poderíamos pensar que é essa nossa fala que acaba com uma língua, mas, longe disso, é ela que faz a língua mudar gradualmente, desenvolver-se, aprimorar-se, garantindo sua sobrevivência a cada volta que mundo dá. Dependesse da linguagem escrita, quem sabe ainda estivéssemos falando latim ou línguas ainda mais antigas.

Com freqüências variáveis e complexidades diferentes, também, inventamos muitas palavras durante a vida. Ainda que sejam onomatopáicas, limitem-se a arremedar sons, a gente precisa criar extensões desse mundo comunicativo, ramos que às vezes nos faltam. Isso mostra o quanto o desenvolvimento da língua está conectado ao da própria humanidade, com todas as suas necessidades criativas e produtivas (mais a última). Tal como no artigo, que não posso citar com precisão agora pois está amontoado lá sobre minha pseudo-mesa de frila-da-puta em Pinheiros, penso que a língua é uma parte intrínseca do mundo particular que cada um habita.

Quando ouvimos línguas africanas, asiáticas, de tribos específicas quase mortas ou mesmo as européias às quais não estamos habituados, sentimos estranheza e às vezes até desprezo, pois não as compreendemos. O mesmo acontece com regionalismos aqui no próprio Brasilzão. Grande parte dos concidadãos paulistanos que conheço tem reservas em relação a sotaques provindos do Nordeste e outros cantos, e antes o preconceito fosse apenas contra a variação lingüística usada. Em outras palavras, a maioria das pessoas tem medo do que não conhece, e em vez de tentar compreender o desconhecido, o diminui, o espezinha, tira sarro, para manter um afastamento seguro daquilo que não é próprio de seu mundinho. Mas é presumível que quem conhece mais variações do idioma possui, de fato, mais cultura, e conhecer todos os "portugueses" do Brasil não é tão "baiano" quanto alguns intolerantes (não vou usar outro nome feio em nome da ética temporária dessa blogação) gostariam que fosse, apesar de certas pessoas acharem que ter cultura é saber o que rola em Paris ou Nova Iorque.

Mesmo todos nós tendo preconceitos, temos preconceitos diferentes, que estão ligados a experiências pessoais, traumas, lembranças, conversas e pensamentos isolados, que vão construindo nossa personalidade. Assim, vivemos em dimensões absolutamente particulares, o que me leva a pensar que aquilo que tentamos entender por "realidade" não existe. Isso também chupinhei do artigo, mas tento ir um pouco além em exemplos toscos. Se o que é real é o objetivo, o que é visto ou palpável, se o azul é azul, que será o azul para um daltônico? O que será uma rua pavimentada para quem nunca a viu? A rua, que eu saiba, só tem esse nome em português... e mesmo que street seja o correspondente em inglês, essa palavra foi criada a partir de outros parâmetros. No mundo ocidental é comum que se ache bizarro colocar à prova o que já está gravado na parte feita de pedra em nossos cérebros. Não estaríamos, a todo momento, tentando impor diferentes realidades a todos, ou aceitando realidades pré-fabricadas com toda a passividade do mundo apenas para não termos de pensar sobre a nossa própria?

Isso é provavelmente a fórmula para guerras e qualquer vileza que se possa imaginar. Some à questão de realidades particulares alguns determinados líderes que pela força, pela "política" ou pela religião conseguem convencer milhões a seguirem sua própria visão de mundo, mais o desconhecimento e a não aceitação da realidade de outro país, sistema político ou crença, mais ainda certos interesses em riqueza financeira e poder em geral, pronto, temos qualquer conflito já ocorrido na breve história do ser humano sobre a Terra. Poder-se-ía dizer que animais também conflitam, mas não podemos nos esquecer que por razões infinitamente mais "objetivas" do que a utópica objetividade que pretendemos alcançar para viver em um mundo civilizado, prático, bonito, limpo, "em paz". Os territórios que o homem quer conquistar não existem, pois são realidades e pertencem ao próximo, ao próximo, ao próximo.

Se queremos ser gente, é bom que comecemos a entender que todo mundo quer, mas ninguém do mesmo jeito. Há solução para esse quase paradoxo inútil sobre o qual um blogueiro solitário se propôs a punhetar? É possível, mas antes precisa-se entender que a comunicação é mais do que a língua que falamos. Existe uma língua oculta que não precisa articular palavras nem expressar pensamentos, mas que permite à alma não se amargar perante outra e não se incomodar tanto com as diferenças. A única palavra que me vem à mente para expressá-la é "consciência". Mazagent'temq falá'amema língua, né?

Testando um novo birinaite, mp3. O tempo que fica disponível é curto, então baixem, caros não-leitores não-ouvintes. Em breve colocarei músicas minhas, cds inteiros, para todas essas milhões de pessoas que consultam o blog poderem fazer a festa. É uma múisca do Weather Report, chama Directions, do álbum Forecast e na verdade é uma tomada que nem foi para o disco originalmente. Quem quiser saber mais 'dáum gúgou', ou 'vêna uiquipédia'! (clica na imagem e depois, no rapidshare, clica em 'free')

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Se eu vivesse para sempre

The Edge of Eternity - fractal de David Makin: website.lineone.net/~dave_makin

Se eu vivesse para sempre, seria o senhor do tempo. Não dominado por ele, passaria pelo menos 10 anos de cada século a coçar o saco, ou quem sabe 100 anos por milênio. Nos demais, entreter-me-ía com os vais e vens de homens-formiga: nossos sistemas sócio-político-econômicos ascendendo e caindo, edifícios erguendo-se e desmoronando, marés inundando continentes e depois retraindo, a poeira das guerras a se espalhar e dissipar, como os fluxos intermitentes das chaminés das fábricas.

Se eu vivesse para sempre, é certo que veria inúmeras revoluções. Após os brancos, estariam no poder os negros africanos, logo após os árabes, os coreanos, os indígenas, testemunharia o governo gelado dos esquimós, dos tchúkhtil, criadores russos de renas, dos chineses, dos japoneses, que logo formariam uma aliança poderosa e governariam por período um pouco maior que os outros, depois o governo dos mestiços, dos pardos, dos pardos, dos pardos...

Presenciaria tórridos romances e violentas separações, um após o outro, em diferentes níveis e intensidades, numa valsa interminável que daria à luz outras valsas, outras danças e ritmos igualmente intermináveis. Dessa mistura romântico-sexo-musical formar-se-ía um único som, que soaria para o resto da eternidade.

Eu me tornaria o maior amante de todos os tempos, ou de um tempo só. Figuraria nas narrativas dos livros mais femininos, seria o homem da vida de milhares ou milhões de mulheres, que morreriam fiéis a mim e eu a elas. Poderia ser fiel infinitas vezes se eu vivesse para sempre, bem como ser o patriarca de inúmeras gerações.

Veria campos virarem pedra, virarem terra, virarem campo, meu cinema abstrato natural. Além da música e o cinema, entregar-me-ía à literatura. Leria e esqueceria toda a produção intelectual humana. Escreveria best-sellers, aclamadas peças de teatro, gravaria os mais bem-sucedidos discos, calcaria em pedra a minha arte, grudaria minha tinta em tela, para depois apreciar a verdadeira arte, vendo o quadro, o livro, o disco ser comido pelo tempo, seu senhor.

Registraria num blog a história de cada ser humano que cruzasse o meu caminho. Quando a internet como a conhecemos deixasse de existir, inventaria outra coisa similar, promovendo inúmeras revoluções tecnológicas, criando a globalização e a desglobalização, fazendo o mundo pulsar junto com suas cabeças e corações.

Seria empresário, sindicalista, taxista, gari, vagabundo, seria comunista, reacionário, anarquista, situacionista. Tudo isso professando o cristianismo, o budismo, o islamismo, o espiritismo e novos ismos que eu mesmo inventaria. E me tornaria por fim o historiador, o político, o professor, o terrorista, o religioso mais controverso da história, sendo todos estes ao mesmo tempo, dando nós nas cucas de gerações a fio.

Seria testemunha do nascimento e morte de todos os animais e plantas, sua extinção e a formação de novas espécies e mutações, entenderia a maneira com que a evolução evoliu e retrocede em movimentos díspares, porém constantes.

Quando chegasse a ser o último homem sobre a Terra, sem nada a me surpreender, nada pelo que ou contra o que lutar, quando ouvisse, visse, sentisse e pensasse uma só coisa em uma única ação, eu seria deus... e teria um só desejo: morrer.

Inspirado em trecho do conto "O Imortal", do livro "O Aleph", de Jorge Luis Borges, que segue: "Doutrinada num exército de séculos, a república de homens imortais atingira a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que em um prazo infinito ocorrem a todo homem todas as coisas. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo homem é credor de toda bondade, mas também de toda traição, por suas infâmias do passado ou do futuro. (...) Encarados assim, todos os nossos atos são justos, mas também são indiferentes. Não há méritos morais ou intelectuais. (...) Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens. Como Cornélio Agripa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demônio e sou mundo, o que é uma fatigante maneira de dizer que não sou".