quarta-feira, 11 de junho de 2014
Uma nova espiritualidade
Nós gostaríamos de nos apresentar
Nós somos uma nova geração de desbravadores espirituais
Nós não precisamos mais de respostas de segunda mão
Nós não culpamos mais os outros por nosso sofrimento
Nossa espiritualidade vai além da culpa e castigo cósmicos
E além do pensamento 'nós e eles'
Nós não nos agarramos mais a livros sagrados
Pois todos os livros são sagrados
Nós não matamos em nome da verdade
Pois a verdade está em todo lugar
Nós estamos dispostos a enfrentar sem medo a experiência do presente
Sem conclusões e sem preconceito
Nua, como no dia em que nascemos
Abertos ao que vier
Nós não esperamos mais pela vida
Ou por alguma revelação divina no futuro
Porque nós vemos vida em tudo o que há
Incluindo a espera pela vida
E vemos Deus em tudo o que outrora rejeitamos
Nós não sonhamos mais em fugir
Ou com algum "Céu" perfeito
Pois nos aconchegamos na incerteza
E a dúvida já é nossa velha amiga
E o não saber é amado com carinho
E a imperfeição é profundamente sagrada para nós
O corpo está incluído
A mente não é a inimiga
Sentimentos são sagrados
A sexualidade é celebrada
Nós amamos a bagunça que é ser humano!
E nós finalmente entendemos
Que sabedoria e compaixão
Absoluto e relativo
Dualidade e não dualidade
Transcendência e imanência
Pessoal e impessoal
Humano e divino
Nunca estiveram separados
- Jeff Foster
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Dois e três
Eu vejo vocês
e eu sei
que é pra ser
Às vezes eu vejo
só vejo
sem me meter
Sei que vou ter
minha vez
às vezes
Ora com uma
ora com outro
mas vocês...
...vocês têm isso
que só vocês têm
e eu vejo
O abraço d'ocês
abraça o meu ver
e a vista embaça
Eu vejo vocês
e me pego
a vigiar
Pra que o lar
de vocês
sejamos nós três
Eu cuido
eu durmo
acordo vocês
Eu nasço
eu morro
eu vivo vocês
e eu sei
que é pra ser
Às vezes eu vejo
só vejo
sem me meter
Sei que vou ter
minha vez
às vezes
Ora com uma
ora com outro
mas vocês...
...vocês têm isso
que só vocês têm
e eu vejo
O abraço d'ocês
abraça o meu ver
e a vista embaça
Eu vejo vocês
e me pego
a vigiar
Pra que o lar
de vocês
sejamos nós três
Eu cuido
eu durmo
acordo vocês
Eu nasço
eu morro
eu vivo vocês
Cês dois
nós três
um
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Um dia na selva internética
Acordei bem cedo. Aliás, mal dormi. A selva da internet chama minha atenção o tempo todo, com sua flora colorida, fauna exótica e ruídos estranhos. A começar pelo cri-cri de um grilo, ao lado da minha rede, dentro da oca: as primeiras notificações do dia, antes ainda que eu me levantasse. E o grilo me segue aonde vou, grilando o que acontece na mata.
O caminho até a caçada diária beira um riacho apinhado de cardumes de notícias, rumo a um oceano de informações. No céu, revoadas de pequenos tuítes migrando sabe-se lá para onde – suas tendências são imprevisíveis.
Os trending topics
Chegando ao local que escolhi para caçar e obter algum sustento, fui pego de surpresa por uma chuva torrencial de e-mails. Não foi tanta surpresa assim, já que esse toró de correio eletrônico desaba mais ou menos nesse mesmo período, todos os dias. Procurei me abrigar, mas o aguaceiro era implacável. Tive que esperar passar e fiquei encharcado de pedidos e problemas.
Depois de me secar consegui, finalmente, atingir uma parcela do meu objetivo. Não abati nenhuma presa, mas ao menos colhi um cesto de frutos. Com a tarefa cumprida, relaxei e me distraí novamente, dessa vez com um grupo de macacos que macaqueavam sem parar pendurados na gigante árvore YouTube. Seus truques eram hilários e eu fiquei ali, acho, mais de uma hora assistindo.
O novo Porta dos Fundos tá imperdível, ri muito!
Terminado o espetáculo, resolvi partir em busca de algo mais substancial para levar à minha família. Foi quando me deparei com a monumental parede de pedra Facebook, onde todas as tribos da região gravam tudo o que lhes acontece. Tudo mesmo. Do que comeram de manhã até um mosquito que os perturbou. Li tudo, hipnotizado, e gravei com uma estaca a pequena história do meu dia até ali.
Tradução para o português: “hj meu dia foi fda e talz kkkkkkk!”
A próxima trilha ia por terrenos irregulares e lamacentos, mas que, depois de algumas webs de aranha pegajosas, davam em uma bela clareira. Não menos belas eram as amazonas seminuas me convidando para ver mais, uma tentação quase incontrolável de desviar do meu caminho. A essa altura, já tinha desistido da caçada e comido todas as frutas do cesto, mas me esforcei para não ceder àqueles encantos e segui.
Já conformado em voltar de mãos abanando à oca, resolvi mandar um recado à selva inteira. Subi em uma grande pedra e postei em alto e bom som o que pensava, sem gritar, deixando que as palavras ecoassem. Disse que me sentia mal e sozinho naquela floresta bizarra. Que gostaria de conviver mais com irmãos de outras tribos, que parassem de se esconder, e que podíamos mudar isso, juntos.
Qual não foi meu espanto quando ouvi o primeiro comment envenenado passar zunindo pelo meu ouvido direito. E outro, agora do lado esquerdo. Corri o mais rápido que pude, mas um dardo de dislike acertou meu braço. Não em cheio, apenas de raspão. Os arcos e zarabatanas das tribos rivais eram brutais, e seus donos farejavam meu sangue a uma tremenda distância.
Um comentário... Corre!
Quando me safei da ira dos guerreiros comentadores, fiz um curativo simples com folhas de likes, que aliviou a dor da ferida. Olhei em redor e as coisas haviam se aquietado um pouco. Era uma boa hora para me recolher. Aquela selva havia me deixado exausto e terrivelmente sedento por um gole que fosse de realidade pura.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Aú
A lua alta no céu, cheia. Eu, na Terra, capaz das maiores atrocidades. Se isso é ser lobisomem, não é justa com a metade lobo, natural e instintiva, essa violência artificialmente inocente de mim. Mem. Ho-mem. Mas seu brilho é irresistível.
Insumo
Às vezes percebo
que todos percebem
que o sumo da vida
é um breve lampejo
E tenta-se obtê-lo
retê-lo, prendê-lo
na foto, no grito
no clique, no linque
Às vezes percebo
que todos se esquecem
que o insumo da vida
supera o desejo
É o grosso de tudo
a rocha
o tecido
a farinha
é o pão que se sova com as mãos
O sumo é o insumo
E pensam sabê-lo
de estalo
sem mínimo esforço
e o vendem
dizendo compartilhar
ao ignorar a partilha
do que há de mais puro
Suor
e bagaço
terça-feira, 18 de junho de 2013
Virou o tempo em SP
Manhã de segunda-feira cinza, fria e chuvosa. Nada de novo em São Paulo, até que outro santo, São Pedro, resolveu ajudar o povo paulistano limpando bem o céu da cidade à tarde, lá para as 17h, no dia 17 de junho de 2013. Caía a noite e a multidão que tomava o Largo da Batata, em Pinheiros, pôde ver estrelas e um enxame de helicópteros que, como abelhas ávidas, mas ordeiras, sobrevoavam o local, um a um, buscando registrar a história. A HISTÓRIA! Fontes "oficiais" falam em 65 mil pessoas se movimentando a partir dali, opostas ao aumento da tarifa de ônibus, de R$ 3,00 para R$ 3,20, mas o que vi, ouvi e senti me pareceu muito mais e POR muito mais.
Foi LINDO. Mas no dia seguinte, estou aprendendo algumas duras lições. Diferentemente da Primavera Árabe, o Inverno Brasileiro mostra que a gente ainda precisa lutar para lutar. É assim: agora, todo mundo quer entrar na dança e colocar na mesa certos clamores padronizados, partidários, conservadores e pessoais, que NADA têm a ver com o que brota, verdadeiramente, das ruas. Você, amigo que esteve ontem, quinta, terça e antes ocupando a cidade, já deve ter percebido uma miríade de pessoas na sua "timeline", gente que nunca moveu uma palha para mudar nada, te dizendo direta ou indiretamente (com imagens compostas no Paint) aquilo pelo que "parece mais apropriado" que você lute. Ora.
Assim, temos que lutar para continuar lutando pelo que lutamos. A definição, o foco, o ponteiro, tudo virá disso. Mas não é simples. Muitos, milhares, milhões ainda confiam nos meios tradicionais de comunicação para obter sua informação diária. Esse é um dos grandes perigos, já que os interesses midiático-corporativos também se somam às tais vozes divergentes para apontar como "se deve" protestar. Lutaremos para que a fonte mais confiável de informação seja o próximo, o companheiro, o amigo, ao vivo ou pelas redes eletrônicas, antes que elas sejam tomadas por patrulheiros chatos.
Lutaremos também para que não haja palanques eleitoreiros misturados nessa massa. Tenho visto mesmo políticos que EU ajudei a eleger dando uma de camaradas do povo, mas isso não me engana. Outros que também nunca conseguem se eleger estão correndo para dar às mãos na ciranda - aliás, uma só mão na ciranda, a outra empunhando bandeira. Cuidado com isso e, se for para votar em algum desses no ano que vem, conheça-o muito bem.
Outra luta importante - e vou parar nessa pois, afinal, estou aprendendo devagarinho e já estou começando a soar como se desse palavras de ordem (não é minha intenção) - é para evitar que saiamos disso tudo com a imagem de "rebeldes sem causa". Uma: não vamos "sair" disso, já que o processo apenas teve início. É mesmo um despertar, o abandono da inércia que uma infinidade de pessoas que vejo e ouço, ainda, entre uma garfada e outra no restaurante barato por quilo, sustentam em situação de conforto: "Deviam é ter protestado no mensalão... quando fomos escolhidos para a Copa... quando isso, se aquilo..." Chega! Encontraremos nosso Norte. Duas: causa temos sim! Não é suficiente estar inquieto e infeliz com a vida que se vive na cidade, em tantos sentidos?
De qualquer forma, só o que me parece ser legítimo, mesmo, genuíno, por mais "difuso" que os almofadinhas digam ser, é o que é dito nas ruas. Deixo aqui o meu apelo: rejeitem o que se tem falado no jornal, na TV, no Twitter e no Facebook e VÃO ÀS RUAS ouvir cada um dos clamores dessa "gente perdida". Lá, você vai encontrar a SUA voz e todas elas crescerão em uníssono, com cada vez menos violência, mais consciência e união. Não deem ouvidos ao colega reaça de trabalho que prefere "cuidar da sua própria vida" em vez de "fazer baderna". Estamos cuidando de nossas vidas, sim, tomando as rédeas dela, pela primeira vez.
Foi LINDO. Mas no dia seguinte, estou aprendendo algumas duras lições. Diferentemente da Primavera Árabe, o Inverno Brasileiro mostra que a gente ainda precisa lutar para lutar. É assim: agora, todo mundo quer entrar na dança e colocar na mesa certos clamores padronizados, partidários, conservadores e pessoais, que NADA têm a ver com o que brota, verdadeiramente, das ruas. Você, amigo que esteve ontem, quinta, terça e antes ocupando a cidade, já deve ter percebido uma miríade de pessoas na sua "timeline", gente que nunca moveu uma palha para mudar nada, te dizendo direta ou indiretamente (com imagens compostas no Paint) aquilo pelo que "parece mais apropriado" que você lute. Ora.
Assim, temos que lutar para continuar lutando pelo que lutamos. A definição, o foco, o ponteiro, tudo virá disso. Mas não é simples. Muitos, milhares, milhões ainda confiam nos meios tradicionais de comunicação para obter sua informação diária. Esse é um dos grandes perigos, já que os interesses midiático-corporativos também se somam às tais vozes divergentes para apontar como "se deve" protestar. Lutaremos para que a fonte mais confiável de informação seja o próximo, o companheiro, o amigo, ao vivo ou pelas redes eletrônicas, antes que elas sejam tomadas por patrulheiros chatos.
Lutaremos também para que não haja palanques eleitoreiros misturados nessa massa. Tenho visto mesmo políticos que EU ajudei a eleger dando uma de camaradas do povo, mas isso não me engana. Outros que também nunca conseguem se eleger estão correndo para dar às mãos na ciranda - aliás, uma só mão na ciranda, a outra empunhando bandeira. Cuidado com isso e, se for para votar em algum desses no ano que vem, conheça-o muito bem.
Outra luta importante - e vou parar nessa pois, afinal, estou aprendendo devagarinho e já estou começando a soar como se desse palavras de ordem (não é minha intenção) - é para evitar que saiamos disso tudo com a imagem de "rebeldes sem causa". Uma: não vamos "sair" disso, já que o processo apenas teve início. É mesmo um despertar, o abandono da inércia que uma infinidade de pessoas que vejo e ouço, ainda, entre uma garfada e outra no restaurante barato por quilo, sustentam em situação de conforto: "Deviam é ter protestado no mensalão... quando fomos escolhidos para a Copa... quando isso, se aquilo..." Chega! Encontraremos nosso Norte. Duas: causa temos sim! Não é suficiente estar inquieto e infeliz com a vida que se vive na cidade, em tantos sentidos?
De qualquer forma, só o que me parece ser legítimo, mesmo, genuíno, por mais "difuso" que os almofadinhas digam ser, é o que é dito nas ruas. Deixo aqui o meu apelo: rejeitem o que se tem falado no jornal, na TV, no Twitter e no Facebook e VÃO ÀS RUAS ouvir cada um dos clamores dessa "gente perdida". Lá, você vai encontrar a SUA voz e todas elas crescerão em uníssono, com cada vez menos violência, mais consciência e união. Não deem ouvidos ao colega reaça de trabalho que prefere "cuidar da sua própria vida" em vez de "fazer baderna". Estamos cuidando de nossas vidas, sim, tomando as rédeas dela, pela primeira vez.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
O cassetete invisível
Olhos abertos, sem querer que estejam. Dispara, no pulmão, a respiração curtinha; no coração, o aperto se aperta; na garanta, um nó cego. Tem início o dia do cidadão de bem, feliz por poder ir e vir durante horas no trânsito lento de luzinhas vermelhas, ter a chance de comprar bugigangas na sexta-feira negra, por desfrutar das virtudes culturais coloridas de uma metrópole cinza. Ele está feliz por ter um emprego de 8, 9, 10 horas diárias onde pode ser verdadeiramente falso e distribuir alegremente sorrisos amarelos, que, por entre os dentes, dizem baixinho, sem alarde: "socorro".
O habitante da cidade está tranquilo: já tomou a pílula de hoje no café, enquanto passava a mão na cabeça do filho pequeno, dizendo "comporte-se, tenha juízo, seja bonzinho". É tudo o que ele sabe ensinar. É tudo o que aprendeu. E parte para o dia sem medo de ter medo, olhando para os lados, prevenido contra o outro e tudo o que pareça estranho, ainda que seja o próprio espelho. "Está tudo bem, mas é bom ficar esperto", pensa.
As cobranças são naturais para esse ser civilizado, ele tem que ficar de olho na meta. É o pão que dela depende. Ele tem um alvo a atingir, mas também um pintado na testa. Esse ele nunca vê. Não precisa, afinal, é só não se virar, nem se levantar, ficar abaixadinho, mesmo, aqui atrás da divisória do cubículo, que tudo fica em paz. Não está na mira, nem atira, não fica no meio do que não lhe pertence, enquanto se apropriam de tudo o que poderia ser seu e de todos.
Volta pra casa, sua propriedade, e passa um tempão com a família, o que já é uma tradição: 2 horas. Depois de um banho morno e um beijinho na esposa, dorme o sono dos justos, não sem antes dar um traguinho rápido, ainda que desesperado, em um álcool qualquer. É só pra não tomar duas pilulinhas em um dia. Está relaxado, mas seu pesado sono não tem sonhos. Pesadelos também não tem, mas ele sabe que, se não mantiver religiosamente essa rotina, ele pode vir. E ele vem: olhos abertos, sem querer que estejam.
Quem se revoltaria contra uma vida tão indevida?
Quem ousaria se levantar pra por o dedo na ferida?
Quem se importaria em mudar quando a inércia é a medida?
Você e eu.
segunda-feira, 3 de junho de 2013
Bad times
Bad times when we killed for food
when we killed each other out of greed
envy or...
Bad times when we did nothing but point
point, point our fingers at the scars
moles and...
Bad times when we summoned money
with its power to put things over
over...
Life
Good times are now
that we no longer need to battle
for the space to be
When are we now?
terça-feira, 21 de maio de 2013
Encontre o sujeito
O criminoso mata
a sociedade clama
o governo omite
O pobre rouba
o menor é cúmplice
a justiça é cega
O preto folga
o veado esnoba
a mulher que manda
O mercado exige
a gentalha grita
a arma cala
O Éden me chama
o inferno é dos outros
o dinheiro é meu
Onde está esse sujeito
que apontando
sem um verbo
nada faz?
O sujeito não se encontra
não se enxerga
não se vê
Representa-lhe o indeterminado
fica à mercê do oculto
a sociedade clama
o governo omite
O pobre rouba
o menor é cúmplice
a justiça é cega
O preto folga
o veado esnoba
a mulher que manda
O mercado exige
a gentalha grita
a arma cala
O Éden me chama
o inferno é dos outros
o dinheiro é meu
Onde está esse sujeito
que apontando
sem um verbo
nada faz?
O sujeito não se encontra
não se enxerga
não se vê
Representa-lhe o indeterminado
fica à mercê do oculto
e o simples que se dane
ou sujeite-se pra merecer
Antes fosse observador
está mais pra inexistente
mas presente no discurso
de um tempo virtual
e perigosamente
distante
Antes fosse observador
está mais pra inexistente
mas presente no discurso
de um tempo virtual
e perigosamente
distante
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Não é a mamãe
Ser pai é foda. Nos dois sentidos. Só é menos foda, em ambos, quando o cara insiste em imitar o pai que foi seu avô ou bisavô: provedor distante, incapaz de afeto, filhopata sentado à ponta da mesa de jantar ordenando que lhe "passem as batatas". No mais, ser pai, principalmente de um bebê, é muito foda, e não tem mais lugar praquele tipo de figura paterna arcaica, a que deu vulto ao execrável patriarcado – tiozão que não sabe trocar uma fralda. Hoje, a gente tem mesmo que se desdobrar para aprender um monte de coisas que ninguém fez questão de nos ensinar, já que tem muita mãe machista por aí que prepara os filhotes na escola da tirania. Não foi o meu caso, mas os ecos disso tão por aí, na novela, na propaganda, nos Felicianos do Brasil. Não vem ao caso.
Mas também não é o caso do extremo oposto. Juro que fiquei tentado a ser esse pai fofíssimo da leva new wave de pais que, desculpem, só existem nos contos de fada hipsters: querem ser mães, dizem-se quase mães, sentem-se como um bizarro protótipo de mãe sem peito para aleitar. Mas não são! Você tem a sua cotinha de dar conforto, de aliviar uma cólica ou outra, de fazer dormir um dia aqui, outro ali. São todas pequenas conquistas que nos fazem pensar: "Porra, sou foda!" Ser pai é foda, mas você não é, não. A mãe é. Esses momentos mágicos só vão rolar quando o pimpolho ou pimpolha estiver nas últimas forças, sem energia sequer pra fazer o que sabe melhor: dizer, com seu corpo, gestos e choro que "não é a mamãe".
É, amigo, acostume-se, pois você não é mesmo! É pai! Eu me senti meio fora da brincadeira, que de brincadeira não tem nada, nos primeiros meses. Por mais que eu quisesse me mostrar ali, disposto, “vamo que vamo”, é a companheira que resolve a maioria dos perrengues diretos com o bichinho. Afinal, ele quer estar muito mais em contato com aquela deusa maravilhosa que o gerou, não com esse maluco peludo! Você vai fazer compressa e mamadeira no meio da noite, sim, vai correr pra comprar papinha no mercado, dar uns banhos catastróficos e fazer uns rolês impensáveis no decorrer do percurso. Mas aquele milagrinho berra pela sua progenitora, sempre!
E não me venham com essa de "pai grávido". Ainda que eu curta alguns posts do blog de um famoso pai X-Men, autor de um livro que descreve um pouco o conceito mencionado, não é assim que acontece na maioria dos casos. Pode ter um ou outro que passe mal durante a gravidez (da companheira), mas há grandes chances de ser só ansiedade. Eu passei mal de tanta dor nas costas, mas tenho certeza que a minha esposa teve muito mais disso do que eu.
Não tô aqui impedindo ninguém de ser fofo, só que isso vai soar meio falso, às vezes, não natural. Agora, ser carinhoso, terno e bondoso com o seu filho, não é opção, é obrigação! Mas é nesse momento que a gente aprende a não esperar nada em troca, já que, quando a chapa esquentar, o nenê quer é mamar. E não pense que esse lance de ser pai 2.0 (3.0? Onde estamos, mesmo, nessa contagem?), consciente do seu lugar na criação da cria, tem muitas regalias. Lembra que a gente abriu mão de ser aquele Darth Vader, em uma galáxia muito, muito distante? Pois bem, agora você tá sempre tão próximo que vai ouvir um monte se resolver tomar aquela cervejinha com "os caras" e passar um pouco da hora. Experimenta!
Acabei de ir lá fazer uma inalação no garoto. O Pedro tem 11 meses e só agora eu sinto que a nossa conexão tá começando a acontecer. Ele sorri quando eu chego em casa e gosta de me ouvir tocar violão, dançando, todo animado. As viradas de tempo são cruéis com os bebês e o peito dele tá com um gatinho miando de novo. Mas adivinha quem tava lá, fazendo ele dormir e dormindo junto, de tão cansada? A mamãe. A Thaís é a melhor companheira do mundo, é claro, e eu sou seu aprendiz na jornada que é o crescimento do Pedrinho. No fim das contas, você não é pai: vai se tornando, bem devagarinho, como um útero externo de onde se estende um novo cordão, invisível. Eu não tenho um útero de verdade, então, pro meu pequeno me conhecer por dentro, ele precisa que eu me mostre, assim mesmo, toscão, verdadeiro, do mesmo jeito que eu virei marido. Ser marido é foda. Mas esse já é outro papo.
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Allan Zaarour é jornalista, músico e blogueiro ocasional. Pai do Pedro e marido da Thaís, vai aprendendo com os tropeços e escrevendo sobre eles.
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