Mais um entre tantos. Um blog substantivado do inglês eletrônico. Postem, meus amigos, postem esses verbos esquisitos, brancos ou cor creme-pc, ou deleitar-me-ei no delete com requintes sádicos de dedos-falos, poder de teclas. Teclo. E só não troco tudo por isso, só não cobro de vocês a minha conta, porque é virtual. E só não é virtuoso porque vício inverso é em versos luxo. Palavra versus número e eis que o Algarismo palavrou: "Faça-se o verbo!" - e o blog se fez, como zero entre uns.
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Texto escrito por mim em 24.03.05, tirado de um antigo blog mantido por colegas de faculdade: jornalismado.blogspot.com. Postarei mais um texto oriundo deste.
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Música do dia: AllanZi - Late Worker. Clique no link, depois no botão "FREE". Complete a verificação pedida e dáumlôudi! Essa é a última vez que vou explicar, sei lá porquê. E também será a primeira e última vez que digo que se ninguém baixar o arquivo se esvai, como vapor... puf... portanto baixem!
As contribuições de amigos começam a acontecer. Agora, além de não-leitores, tenho outros não-autores para blogar comigo. O título e imagem são de minha humilde escolha para o texto de meu amigo L.H.M. Esta última, uma pintura de Hieronymus Bosch (1450-1516) - A Morte e o Avarento (c. 1490).
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Amigos, irmãos, parceiros de mais esta jornada, vida, existência!
Venho por meio desta lhes apresentar uma grande amiga minha, a Morte! Sim, a nefasta, a imperdoável, a maldita que tanto nos faz ou fez sofrer. Eu sei que vocês também a conhecem, mas apresentarei quem ela tem se mostrado ser, realmente, a mim.
Nascemos com a única certeza de que, no fim, é ela que vamos encontrar. Visto isso, nos higienizamos, nos alimentamos, cuidamos da nossa saúde, nos poupamos de situações perigosas e escutamos conselhos dos mais experientes. Pois é, apenas pela sua futura presença, tentamos postergar ao máximo este encontro, nos forçando a fazer coisas às quais, com uma eventual certeza da eternidade, não daríamos a mínima importância.
Porém, a sua função não reside apenas nesse “aviso” da brevidade da nossa passagem. Se perdemos este medo, e solicitamos sua ação durante a vida, veremos que não pode haver melhor companhia. Cotidiano tedioso, metas inalcançáveis, amores platônicos, desejos, desejos e mais desejos. Por aquilo que vemos como desagradável, ou como algo essencial que ainda não temos, tornamos nossas vidas um mar de frustrações, culminando em vícios, hostilidades, tristezas, doenças, enfim, uma verdadeira propagação da nossa insatisfação interna. É aí a hora de recorrer à nossa amiga Morte... Suicídio??? Longe disso!!!
Não morremos apenas fisicamente junto dessa nossa máquina biológica de anos-luz à frente, mas morremos ao matar conceitos, teorias, pensamentos, desejos, vícios, necessidades, todas elas arquitetadas por nosso Ego, agindo em busca daquele bendito sentimento de felicidade/satisfação. Sim, matemos os meios pelo qual nosso Ego escolheu trilhar a busca do que realmente é essencial. Somos os únicos algozes dessa vitimada vida que levamos.
Por isso, digo a vocês que não tenham medo da Morte! Morram! Morram a cada instante! Não há tristeza, tédio, ou qualquer tipo de dependência que suporte isso! Morram! Morram a cada instante, a cada minuto, a cada segundo! Morram! Morram, que a Vida sorrirá cada vez mais perante nossa existência! Morram! Morram, que a sublime sensação eterna se fará cada vez mais presente dentro de vocês!
Ninguém admite estar bêbado num copo de cerveja, pode ser, mas alguém mente se se diz não sentir leves as idéias ou dançar com olhos-vídros pela luz
Poucos lembram que este sinto em tudo está nas menores e piores circunstâncias este semimbriaguismo nos dá lentes para examinar melhor o que é só
Não é ode ao alcoolismo, que se pense, odiálcool, nem pensar, bem ao contrário; é um brinde às ebriedades da vida que_em verdade as fazem digna do nome
É a primeira vez que vou colocar aqui texto de outrem, mas com uma série de justificativas que com certeza não são necessárias. Se quiserem, caros não-leitores, refletirem sobre o texto sem as minhas ponderações, talvez seja até mais apropriado, por isso haverá um espaço entre este parágrafo e os três que seguem antes do texto em questão.
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Eu gostei de lê-lo com rapidez, com a velocidade provável em que foi escrito. Não é questão de ser negligente em relação aos detalhes, mas uma forma de me aproximar da freqüência de raciocínio do autor, o que é em parte o motivo porque alguns, como eu, gostam de ler Saramago. Sim, é claro que são pensamentos despretensiosos, deprovidos de apuro em sua oralidade informal e ansiosa, mas não tira a tristeza e a beleza do desespero de um jovem amor.
Em segundo lugar, alguém ainda precisa me explicar o que é a verdadeira motivação artística. Sem dizer se o texto que segue é arte ou não, já desembucho que ele não é, com certeza, uma pretensão artística. É, ao contrário, uma modéstia não-artística com forma de carta de amor e disfarçada de pretensão artística, o que pode ser uma motivação artística, claro, na minha humilde opinião.
Por último, mas não menos importante, é sempre bom ver uma foto, um instantâneo da juventude, ainda que local. Pois não só são sentimentos complexos e confusos, sem dúvida verdadeiros, que todos nós temos inegavelmente, mas desenham a geografia do arquipélago que a humanidade está se tornando, um arquipélago no entanto incomum: somos, por nossa própria vontade reforçada por séculos, ilhas flutuantes. Sabemos que não é mais possível integrarmo-nos ao continente, mas ainda temos a habilidade, ou mesmo sorte, de nos chocar contra outras ilhas, sem poder evitar, é claro, o efeito do impacto, separação. Chamo esses choques de amor.
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Um pensamento, um acontecimento, uma realidade, uma vida, uma reação, uma filosofia,
O amor! Amar é um sentimento que vai além da nossa imaginação saber que você ama uma pessoa e não ter ela do seu lado é como sua vida não tivesse sentido simplesmente não ter forças para conseguir lutar por você. Amar? Nunca imaginei que seria uma coisa tão boa mais ao mesmo tempo tão ruim, acredito que tudo vem para nosso aprendizado, mais porque tudo tem que ser como de todo mundo, porque não fazer a diferença, acreditar naquilo, lutar para acontecer, suponho que quem ama luta por aquilo que quer, mais há várias circunstancias, não podemos fazer a pessoa te amar, simplesmente a deixamos ir e ser feliz, mais a dor é muito grande de vez em quando não há forças, tento mais não tenho, creio que vai passar, mais quando penso, pronto já voltou tudo de novo, tenho medo que isso não acabe, vou lutar para sobreviver, aliás, é só amor, o que tem de tão complicado nisso. Eu posso dizer e passar para frente, que as pessoas acreditem no amor, pois ele existe e como existe, não espere, não se torture, ele vem, mais tem que ter a cabeça no lugar para que possamos lidar com ele, não digo que é complicado. Não ter a pessoa que você ama do seu lado e não se ver longe dela, mais acredito que ela estará feliz isso já me deixa bem, passarei por novos amores, mais concerteza nunca vou esquecer meu primeiro amor, um amor verdadeiro, um amor que não tem como explicar, só sentindo na alma, no coração, no pensamento. O amor é simples coisa que qualquer pessoa senti. O amor é você olhar para outro olho no olho e dizer eu te amo, olhar no fundo dos olhos e dizer eu te amo, abraçar e dizer eu te amo, sentir o calor dos corpos e dizer eu te amor, sentir a sintonia dos espíritos, a energia, dormir, tomar banho, acordar do lado, comer juntos, conversar, beijar, amar, coisas tão pequenas que muitas pessoas não observam, são dessas coisas pequenas que cria uma coisa muito grande. Quando você ama você acredita naquilo, você quer aquilo e simplesmente não acontece, o que fazer?, O que falar? Que atitude tomar. Só uma pessoa para dizer isso, você mesmo, seu coração ele vai falar o que fazer, como agir. Não se arrependa de nada e lute para isso acontecer que é a coisa mais linda do mundo e como é linda, seria como as horas não passasse o tempo parasse, como se estivesse na lua, em outro mundo, é uma coisa absurda de tão bom que é, coração mais leve, tudo fluindo, você só quer amar, amar, amar, amar e amar. Eu acredito nisso, vou lutar para isso, vai acontecer, vai ser tornar realidade, vou me sentir amado,vou fazer a diferença, vou amar, vou sonhar, vou te amar...............sempre..............
Já não tenho mais a insônia do poeta. Quando muito um notivagaroso e voluntário. É mais fácil escrever quando é mais difícil. Quando é mais fácil, não quero ou nada me vem.
Às vezes precisamos cortar alguma artéria para sangrar bonito, mas tenho apenas me espetado umas agulhas. Haja faca.
Descasa do misantropado
Essa necessidade urgente de casa por não ter lar fora, nem vestígio lá fora, acasa, afora, aflora, à míngua
Sem o com fica essa troça deslocada precedendo dentro, mais margem redor, re-dor, de rente, em volta, entorno
Escondendo o que condena fico em coma medolento em vida, comovo mediço, mavento, me evado, vomito, me vou
Essa inteligência ausente de sangue gente descentro, parasita pessoa, des-sente, peçonha, passiva, prescindo
Trabalhando hoje na revisão de um artigo sobre linguagem falada versus escrita, comecei a pensar sobre os mundos que habitamos criados por essas linguagens, e pela nossa própria língua, claro. Nosso universo é u jeit'c'magente fala. A depreciação desse oralismo em algumas línguas levou ao seu fim. Talvez não necessariamente por culpa do engesso formal da escrita, mas a possibilidade disso acontecer sempre existe. Poderíamos pensar que é essa nossa fala que acaba com uma língua, mas, longe disso, é ela que faz a língua mudar gradualmente, desenvolver-se, aprimorar-se, garantindo sua sobrevivência a cada volta que mundo dá. Dependesse da linguagem escrita, quem sabe ainda estivéssemos falando latim ou línguas ainda mais antigas.
Com freqüências variáveis e complexidades diferentes, também, inventamos muitas palavras durante a vida. Ainda que sejam onomatopáicas, limitem-se a arremedar sons, a gente precisa criar extensões desse mundo comunicativo, ramos que às vezes nos faltam. Isso mostra o quanto o desenvolvimento da língua está conectado ao da própria humanidade, com todas as suas necessidades criativas e produtivas (mais a última). Tal como no artigo, que não posso citar com precisão agora pois está amontoado lá sobre minha pseudo-mesa de frila-da-puta em Pinheiros, penso que a língua é uma parte intrínseca do mundo particular que cada um habita.
Quando ouvimos línguas africanas, asiáticas, de tribos específicas quase mortas ou mesmo as européias às quais não estamos habituados, sentimos estranheza e às vezes até desprezo, pois não as compreendemos. O mesmo acontece com regionalismos aqui no próprio Brasilzão. Grande parte dos concidadãos paulistanos que conheço tem reservas em relação a sotaques provindos do Nordeste e outros cantos, e antes o preconceito fosse apenas contra a variação lingüística usada. Em outras palavras, a maioria das pessoas tem medo do que não conhece, e em vez de tentar compreender o desconhecido, o diminui, o espezinha, tira sarro, para manter um afastamento seguro daquilo que não é próprio de seu mundinho. Mas é presumível que quem conhece mais variações do idioma possui, de fato, mais cultura, e conhecer todos os "portugueses" do Brasil não é tão "baiano" quanto alguns intolerantes (não vou usar outro nome feio em nome da ética temporária dessa blogação) gostariam que fosse, apesar de certas pessoas acharem que ter cultura é saber o que rola em Paris ou Nova Iorque.
Mesmo todos nós tendo preconceitos, temos preconceitos diferentes, que estão ligados a experiências pessoais, traumas, lembranças, conversas e pensamentos isolados, que vão construindo nossa personalidade. Assim, vivemos em dimensões absolutamente particulares, o que me leva a pensar que aquilo que tentamos entender por "realidade" não existe. Isso também chupinhei do artigo, mas tento ir um pouco além em exemplos toscos. Se o que é real é o objetivo, o que é visto ou palpável, se o azul é azul, que será o azul para um daltônico? O que será uma rua pavimentada para quem nunca a viu? A rua, que eu saiba, só tem esse nome em português... e mesmo que street seja o correspondente em inglês, essa palavra foi criada a partir de outros parâmetros. No mundo ocidental é comum que se ache bizarro colocar à prova o que já está gravado na parte feita de pedra em nossos cérebros. Não estaríamos, a todo momento, tentando impor diferentes realidades a todos, ou aceitando realidades pré-fabricadas com toda a passividade do mundo apenas para não termos de pensar sobre a nossa própria?
Isso é provavelmente a fórmula para guerras e qualquer vileza que se possa imaginar. Some à questão de realidades particulares alguns determinados líderes que pela força, pela "política" ou pela religião conseguem convencer milhões a seguirem sua própria visão de mundo, mais o desconhecimento e a não aceitação da realidade de outro país, sistema político ou crença, mais ainda certos interesses em riqueza financeira e poder em geral, pronto, temos qualquer conflito já ocorrido na breve história do ser humano sobre a Terra. Poder-se-ía dizer que animais também conflitam, mas não podemos nos esquecer que por razões infinitamente mais "objetivas" do que a utópica objetividade que pretendemos alcançar para viver em um mundo civilizado, prático, bonito, limpo, "em paz". Os territórios que o homem quer conquistar não existem, pois são realidades e pertencem ao próximo, ao próximo, ao próximo.
Se queremos ser gente, é bom que comecemos a entender que todo mundo quer, mas ninguém do mesmo jeito. Há solução para esse quase paradoxo inútil sobre o qual um blogueiro solitário se propôs a punhetar? É possível, mas antes precisa-se entender que a comunicação é mais do que a língua que falamos. Existe uma língua oculta que não precisa articular palavras nem expressar pensamentos, mas que permite à alma não se amargar perante outra e não se incomodar tanto com as diferenças. A única palavra que me vem à mente para expressá-la é "consciência". Mazagent'temq falá'amema língua, né?
Testando um novo birinaite, mp3. O tempo que fica disponível é curto, então baixem, caros não-leitores não-ouvintes. Em breve colocarei músicas minhas, cds inteiros, para todas essas milhões de pessoas que consultam o blog poderem fazer a festa. É uma múisca do Weather Report, chama Directions, do álbum Forecast e na verdade é uma tomada que nem foi para o disco originalmente. Quem quiser saber mais 'dáum gúgou', ou 'vêna uiquipédia'! (clica na imagem e depois, no rapidshare, clica em 'free')
Se eu vivesse para sempre, seria o senhor do tempo. Não dominado por ele, passaria pelo menos 10 anos de cada século a coçar o saco, ou quem sabe 100 anos por milênio. Nos demais, entreter-me-ía com os vais e vens de homens-formiga: nossos sistemas sócio-político-econômicos ascendendo e caindo, edifícios erguendo-se e desmoronando, marés inundando continentes e depois retraindo, a poeira das guerras a se espalhar e dissipar, como os fluxos intermitentes das chaminés das fábricas.
Se eu vivesse para sempre, é certo que veria inúmeras revoluções. Após os brancos, estariam no poder os negros africanos, logo após os árabes, os coreanos, os indígenas, testemunharia o governo gelado dos esquimós, dos tchúkhtil, criadores russos de renas, dos chineses, dos japoneses, que logo formariam uma aliança poderosa e governariam por período um pouco maior que os outros, depois o governo dos mestiços, dos pardos, dos pardos, dos pardos...
Presenciaria tórridos romances e violentas separações, um após o outro, em diferentes níveis e intensidades, numa valsa interminável que daria à luz outras valsas, outras danças e ritmos igualmente intermináveis. Dessa mistura romântico-sexo-musical formar-se-ía um único som, que soaria para o resto da eternidade.
Eu me tornaria o maior amante de todos os tempos, ou de um tempo só. Figuraria nas narrativas dos livros mais femininos, seria o homem da vida de milhares ou milhões de mulheres, que morreriam fiéis a mim e eu a elas. Poderia ser fiel infinitas vezes se eu vivesse para sempre, bem como ser o patriarca de inúmeras gerações.
Veria campos virarem pedra, virarem terra, virarem campo, meu cinema abstrato natural. Além da música e o cinema, entregar-me-ía à literatura. Leria e esqueceria toda a produção intelectual humana. Escreveria best-sellers, aclamadas peças de teatro, gravaria os mais bem-sucedidos discos, calcaria em pedra a minha arte, grudaria minha tinta em tela, para depois apreciar a verdadeira arte, vendo o quadro, o livro, o disco ser comido pelo tempo, seu senhor.
Registraria num blog a história de cada ser humano que cruzasse o meu caminho. Quando a internet como a conhecemos deixasse de existir, inventaria outra coisa similar, promovendo inúmeras revoluções tecnológicas, criando a globalização e a desglobalização, fazendo o mundo pulsar junto com suas cabeças e corações.
Seria empresário, sindicalista, taxista, gari, vagabundo, seria comunista, reacionário, anarquista, situacionista. Tudo isso professando o cristianismo, o budismo, o islamismo, o espiritismo e novos ismos que eu mesmo inventaria. E me tornaria por fim o historiador, o político, o professor, o terrorista, o religioso mais controverso da história, sendo todos estes ao mesmo tempo, dando nós nas cucas de gerações a fio.
Seria testemunha do nascimento e morte de todos os animais e plantas, sua extinção e a formação de novas espécies e mutações, entenderia a maneira com que a evolução evoliu e retrocede em movimentos díspares, porém constantes.
Quando chegasse a ser o último homem sobre a Terra, sem nada a me surpreender, nada pelo que ou contra o que lutar, quando ouvisse, visse, sentisse e pensasse uma só coisa em uma única ação, eu seria deus... e teria um só desejo: morrer.
Inspirado em trecho do conto "O Imortal", do livro "O Aleph", de Jorge Luis Borges, que segue:"Doutrinada num exército de séculos, a república de homens imortais atingira a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que em um prazo infinito ocorrem a todo homem todas as coisas. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo homem é credor de toda bondade, mas também de toda traição, por suas infâmias do passado ou do futuro. (...) Encarados assim, todos os nossos atos são justos, mas também são indiferentes. Não há méritos morais ou intelectuais. (...) Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens. Como Cornélio Agripa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demônio e sou mundo, o que é uma fatigante maneira de dizer que não sou".
“Não pise na grama”, lia eu aos 7 anos de idade, acreditando ter encontrado pela primeira vez uma norma que fazia sentido. Sim, pois até ali meu pequeno cérebro havia registrado apenas proibições de estacionamento ou relacionadas a falar palavrões e comer doces antes das refeições oficiais. Digo registrado, porque a assimilação tomou-me mais tempo, e assimilar o que a civilização nos sinaliza provavelmente toma muito tempo de todos nós.
Não pisar na grama era-me lógico por questões meramente estéticas. O gramado estava bonito, bem cuidado, os arbustos verdejavam e suas folhas guardavam ainda pingentes de orvalho que brilhavam à luz matutina. Já naquela época eu sabia que a minha presença em determinados lugares causava danos, mesmo que não me fosse chamada a atenção muitas vezes para não sujar isso ou não correr sobre aquilo – fui uma criança comportada.
Passados alguns anos, não foi muito difícil compreender que, acima de tudo, inclusive da segurança, sinalizações servem para manter a “ordem” e proteger a propriedade de alguém. Hoje, para mim, a grama do vizinho é sempre um tanto mais amarelada, por verdes que sejam os pensamentos e intenções do sujeito, pois descobri que só protegemos o que nos custa dinheiro, não o que nos pode custar a vida quando perdemos, como a flora.
Já me afastando de questões ambientais, pois não teria argumentos ecologicamente corretos o suficiente, volto-me a uma observação do tempo presente, eu já com um cérebro um tanto maior (mesmo que este não seja capaz de produzir raciocínios mais interessantes que os de uma criança), no meu ofício fixamente temporário de revisor, parado no andar térreo do prédio, esperando sei lá o quê, sempre tenho que esperar alguém para conseguir trabalhar.
Resolvi fumar um cigarro (já falei que minha ecologia e minha naturebisse não serviriam de nada?), como ali já havia feito tantas vezes, e qual não foi minha surpresa ao ver que as muretas ao redor dos jardinetes da entrada do edifício estavam agora equipadas com lanças de aço por toda sua extensão? Vejam bem, a boa e velha placa que diz “Pedimos o favor não sentar ao redor da grama. Obrigado.” ainda estava lá! Esta, eu nunca contestei.
Ainda que o novo aparato não evite que dezenas de bitucas sejam arremessadas sobre os belos pequenos jardins (a vontade de fazer o mesmo era imensa, mas algo de ambientalista em mim não permitiu), ele garante, sem sombra de dúvida, que nenhuma pessoa em sã consciência se sente sobre a mureta! Fiquei abismado. E olha que não costumo falar do quão abismado fico a respeito de coisa alguma, em meus textos.
Sim, a presença das pessoas faz estrago, mas não como a minha faria àqueles gramados verdejantes de outrora, e sim de uma maneira geral e irrestrita. E não satisfeitas com agredir o ambiente, fazem-no também com nossa inteligência. Recuso-me terminantemente a discutira utilidade do dispositivo ou o nível de prejuízo que um traseiro humano seria capaz causar a um jardim ou a seus muros, tamanho que justificasse o uso de armas.
Até quando vamos gastar quantidades absurdas de energia com a proteção de pequenezas? Parece-me que quanto menos alienado um homem é da produção capitalista, ou, trocando em miúdos, quanto mais poderoso e rico ele é, mais alienado se torna da realidade. Gostaria que isso fizesse sentido, mas o problema é que apenas a guarda dapropriedade não é e não pode mais ser desculpa para nossas paranóias. Qual será, então, a nova desculpa?
Antecipando-me à imaginação fértil do possível leitor, meu sempre caro apreciador virtual ou inexistente... Será a violência? Mas a causa desta, ao menos na sociedade moderna, não seria justamente a propriedade privada? Pode ser, mas, estou ficando confuso... Uma Cerca Antibunda?! É essa a resposta para nossas neuroses anti-terro-vio-ultra-letas-lentas-bestas? Não teríamos mais nada com que nos preocupar?!
Pode me xingar do que for, mas o desrespeito à inteligência é o maior crime dos últimos séculos. Pode me chamar de igualmente paranóico, neurótico, apenas porque vi uma bobagem na rua, mas se o jornal das 8 me diz que o Brasil está prosperando, e que basta continuarmos trabalhando cabisbaixos, subservientes, comprando inutilidades, indo ao shopping para celebrar o natal, que o empresário Fulano de Orleans Bragança está ajudando os pobres, que o Bush venceu o terrorismo... se o jornalista me fala tudo isso, todos os dias, com a cara mais lavada do mundo, já me deu motivo para quebrar o antigo acordo de paz com a burrice, a ignorância, a cegueira consentida.
Quando os homens realmente poderosos do mundo começaram a falar sobre democracia, direitos humanos, guerra ao terror, prevalência da paz, do bem, bem-estar geral, comida, bens, dinheiro para todos, escalada social, mais-valia, trabalho honesto, justiça, ciência, “ciclo virtuoso” (???)... quando começaram a falar disso, tudo bem. Quando disseram que era para a gente acreditar, não fazem idéia do verdadeiro estrago que causaram, e que já podemos sentir, todos os dias, sentir nosso maldito medo. Estrago muito pior do que causariam ao jardim com suas bundas, mesmo porque agora ele pode se defender sozinho... Mas, claro, com a ajuda da nova placa sinalizadora auto-explicativa: “Cuidado! Gramado bravo!”.
Ok, eu sei que foi um dos meus piores posts, mas alivie-se procurando a música de uma banda que meu amigo e leitor inexistente indicou há pouco tempo e foi uma grata supresa. Broken Social Scene. Aí embaixo vai um youtube, mas estou pensando seriamente em disponibilizar mp3 aqui. Se vai atrair mais não-leitores, não sei, mas que vai entrar gente, vai.