Ninguém admite estar bêbado num copo
de cerveja, pode ser, mas alguém mente
se se diz não sentir leves as idéias
ou dançar com olhos-vídros pela luz
Poucos lembram que este sinto em tudo está
nas menores e piores circunstâncias
este semimbriaguismo nos dá lentes
para examinar melhor o que é só
Não é ode ao alcoolismo, que se pense,
odiálcool, nem pensar, bem ao contrário;
é um brinde às ebriedades da vida
que_em verdade as fazem digna do nome
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Amoribundo (Menino-Mor)
É a primeira vez que vou colocar aqui texto de outrem, mas com uma série de justificativas que com certeza não são necessárias. Se quiserem, caros não-leitores, refletirem sobre o texto sem as minhas ponderações, talvez seja até mais apropriado, por isso haverá um espaço entre este parágrafo e os três que seguem antes do texto em questão.
--
Eu gostei de lê-lo com rapidez, com a velocidade provável em que foi escrito. Não é questão de ser negligente em relação aos detalhes, mas uma forma de me aproximar da freqüência de raciocínio do autor, o que é em parte o motivo porque alguns, como eu, gostam de ler Saramago. Sim, é claro que são pensamentos despretensiosos, deprovidos de apuro em sua oralidade informal e ansiosa, mas não tira a tristeza e a beleza do desespero de um jovem amor.
Em segundo lugar, alguém ainda precisa me explicar o que é a verdadeira motivação artística. Sem dizer se o texto que segue é arte ou não, já desembucho que ele não é, com certeza, uma pretensão artística. É, ao contrário, uma modéstia não-artística com forma de carta de amor e disfarçada de pretensão artística, o que pode ser uma motivação artística, claro, na minha humilde opinião.
Por último, mas não menos importante, é sempre bom ver uma foto, um instantâneo da juventude, ainda que local. Pois não só são sentimentos complexos e confusos, sem dúvida verdadeiros, que todos nós temos inegavelmente, mas desenham a geografia do arquipélago que a humanidade está se tornando, um arquipélago no entanto incomum: somos, por nossa própria vontade reforçada por séculos, ilhas flutuantes. Sabemos que não é mais possível integrarmo-nos ao continente, mas ainda temos a habilidade, ou mesmo sorte, de nos chocar contra outras ilhas, sem poder evitar, é claro, o efeito do impacto, separação. Chamo esses choques de amor.
--
Um pensamento, um acontecimento, uma realidade, uma vida, uma reação, uma filosofia,
O amor!
Amar é um sentimento que vai além da nossa imaginação saber que você ama uma pessoa e não ter ela do seu lado é como sua vida não tivesse sentido simplesmente não ter forças para conseguir lutar por você.
Amar? Nunca imaginei que seria uma coisa tão boa mais ao mesmo tempo tão ruim, acredito que tudo vem para nosso aprendizado, mais porque tudo tem que ser como de todo mundo, porque não fazer a diferença, acreditar naquilo, lutar para acontecer, suponho que quem ama luta por aquilo que quer, mais há várias circunstancias, não podemos fazer a pessoa te amar, simplesmente a deixamos ir e ser feliz, mais a dor é muito grande de vez em quando não há forças, tento mais não tenho, creio que vai passar, mais quando penso, pronto já voltou tudo de novo, tenho medo que isso não acabe, vou lutar para sobreviver, aliás, é só amor, o que tem de tão complicado nisso.
Eu posso dizer e passar para frente, que as pessoas acreditem no amor, pois ele existe e como existe, não espere, não se torture, ele vem, mais tem que ter a cabeça no lugar para que possamos lidar com ele, não digo que é complicado.
Não ter a pessoa que você ama do seu lado e não se ver longe dela, mais acredito que ela estará feliz isso já me deixa bem, passarei por novos amores, mais concerteza nunca vou esquecer meu primeiro amor, um amor verdadeiro, um amor que não tem como explicar, só sentindo na alma, no coração, no pensamento.
O amor é simples coisa que qualquer pessoa senti.
O amor é você olhar para outro olho no olho e dizer eu te amo, olhar no fundo dos olhos e dizer eu te amo, abraçar e dizer eu te amo, sentir o calor dos corpos e dizer eu te amor, sentir a sintonia dos espíritos, a energia, dormir, tomar banho, acordar do lado, comer juntos, conversar, beijar, amar, coisas tão pequenas que muitas pessoas não observam, são dessas coisas pequenas que cria uma coisa muito grande.
Quando você ama você acredita naquilo, você quer aquilo e simplesmente não acontece, o que fazer?, O que falar? Que atitude tomar. Só uma pessoa para dizer isso, você mesmo, seu coração ele vai falar o que fazer, como agir.
Não se arrependa de nada e lute para isso acontecer que é a coisa mais linda do mundo e como é linda, seria como as horas não passasse o tempo parasse, como se estivesse na lua, em outro mundo, é uma coisa absurda de tão bom que é, coração mais leve, tudo fluindo, você só quer amar, amar, amar, amar e amar.
Eu acredito nisso, vou lutar para isso, vai acontecer, vai ser tornar realidade, vou me sentir amado,vou fazer a diferença, vou amar, vou sonhar, vou te amar...............sempre..............
Luigi Campigotto 22/09/2007
--
Eu gostei de lê-lo com rapidez, com a velocidade provável em que foi escrito. Não é questão de ser negligente em relação aos detalhes, mas uma forma de me aproximar da freqüência de raciocínio do autor, o que é em parte o motivo porque alguns, como eu, gostam de ler Saramago. Sim, é claro que são pensamentos despretensiosos, deprovidos de apuro em sua oralidade informal e ansiosa, mas não tira a tristeza e a beleza do desespero de um jovem amor.
Em segundo lugar, alguém ainda precisa me explicar o que é a verdadeira motivação artística. Sem dizer se o texto que segue é arte ou não, já desembucho que ele não é, com certeza, uma pretensão artística. É, ao contrário, uma modéstia não-artística com forma de carta de amor e disfarçada de pretensão artística, o que pode ser uma motivação artística, claro, na minha humilde opinião.
Por último, mas não menos importante, é sempre bom ver uma foto, um instantâneo da juventude, ainda que local. Pois não só são sentimentos complexos e confusos, sem dúvida verdadeiros, que todos nós temos inegavelmente, mas desenham a geografia do arquipélago que a humanidade está se tornando, um arquipélago no entanto incomum: somos, por nossa própria vontade reforçada por séculos, ilhas flutuantes. Sabemos que não é mais possível integrarmo-nos ao continente, mas ainda temos a habilidade, ou mesmo sorte, de nos chocar contra outras ilhas, sem poder evitar, é claro, o efeito do impacto, separação. Chamo esses choques de amor.
--
Um pensamento, um acontecimento, uma realidade, uma vida, uma reação, uma filosofia,
O amor!
Amar é um sentimento que vai além da nossa imaginação saber que você ama uma pessoa e não ter ela do seu lado é como sua vida não tivesse sentido simplesmente não ter forças para conseguir lutar por você.
Amar? Nunca imaginei que seria uma coisa tão boa mais ao mesmo tempo tão ruim, acredito que tudo vem para nosso aprendizado, mais porque tudo tem que ser como de todo mundo, porque não fazer a diferença, acreditar naquilo, lutar para acontecer, suponho que quem ama luta por aquilo que quer, mais há várias circunstancias, não podemos fazer a pessoa te amar, simplesmente a deixamos ir e ser feliz, mais a dor é muito grande de vez em quando não há forças, tento mais não tenho, creio que vai passar, mais quando penso, pronto já voltou tudo de novo, tenho medo que isso não acabe, vou lutar para sobreviver, aliás, é só amor, o que tem de tão complicado nisso.
Eu posso dizer e passar para frente, que as pessoas acreditem no amor, pois ele existe e como existe, não espere, não se torture, ele vem, mais tem que ter a cabeça no lugar para que possamos lidar com ele, não digo que é complicado.
Não ter a pessoa que você ama do seu lado e não se ver longe dela, mais acredito que ela estará feliz isso já me deixa bem, passarei por novos amores, mais concerteza nunca vou esquecer meu primeiro amor, um amor verdadeiro, um amor que não tem como explicar, só sentindo na alma, no coração, no pensamento.
O amor é simples coisa que qualquer pessoa senti.
O amor é você olhar para outro olho no olho e dizer eu te amo, olhar no fundo dos olhos e dizer eu te amo, abraçar e dizer eu te amo, sentir o calor dos corpos e dizer eu te amor, sentir a sintonia dos espíritos, a energia, dormir, tomar banho, acordar do lado, comer juntos, conversar, beijar, amar, coisas tão pequenas que muitas pessoas não observam, são dessas coisas pequenas que cria uma coisa muito grande.
Quando você ama você acredita naquilo, você quer aquilo e simplesmente não acontece, o que fazer?, O que falar? Que atitude tomar. Só uma pessoa para dizer isso, você mesmo, seu coração ele vai falar o que fazer, como agir.
Não se arrependa de nada e lute para isso acontecer que é a coisa mais linda do mundo e como é linda, seria como as horas não passasse o tempo parasse, como se estivesse na lua, em outro mundo, é uma coisa absurda de tão bom que é, coração mais leve, tudo fluindo, você só quer amar, amar, amar, amar e amar.
Eu acredito nisso, vou lutar para isso, vai acontecer, vai ser tornar realidade, vou me sentir amado,vou fazer a diferença, vou amar, vou sonhar, vou te amar...............sempre..............
Luigi Campigotto 22/09/2007
quinta-feira, 13 de setembro de 2007
Descasa do misantropado
Comentário prepoema/estudo:
Já não tenho mais a insônia do poeta. Quando muito um notivagaroso e voluntário. É mais fácil escrever quando é mais difícil. Quando é mais fácil, não quero ou nada me vem.
Às vezes precisamos cortar alguma artéria para sangrar bonito, mas tenho apenas me espetado umas agulhas. Haja faca.
Descasa do misantropado
Essa necessidade urgente de casa
por não ter lar fora, nem vestígio
lá fora, acasa, afora, aflora, à míngua
Sem o com fica essa troça deslocada
precedendo dentro, mais margem
redor, re-dor, de rente, em volta, entorno
Escondendo o que condena fico em coma
medolento em vida, comovo
mediço, mavento, me evado, vomito, me vou
Essa inteligência ausente de sangue
gente descentro, parasita
pessoa, des-sente, peçonha, passiva, prescindo
Já não tenho mais a insônia do poeta. Quando muito um notivagaroso e voluntário. É mais fácil escrever quando é mais difícil. Quando é mais fácil, não quero ou nada me vem.
Às vezes precisamos cortar alguma artéria para sangrar bonito, mas tenho apenas me espetado umas agulhas. Haja faca.
Descasa do misantropado
Essa necessidade urgente de casa
por não ter lar fora, nem vestígio
lá fora, acasa, afora, aflora, à míngua
Sem o com fica essa troça deslocada
precedendo dentro, mais margem
redor, re-dor, de rente, em volta, entorno
Escondendo o que condena fico em coma
medolento em vida, comovo
mediço, mavento, me evado, vomito, me vou
Essa inteligência ausente de sangue
gente descentro, parasita
pessoa, des-sente, peçonha, passiva, prescindo
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
Desinexistência da realirrealizacão: só a língua não trava
- Tsê vai?
- N'spermercado.
- Traispão?
- Ahã.
- Caboabanana t'mém.
- Tá.
- Sidé trais'ma coisinha gostosa.
- Ah, screviaí na lista, vai.
- Tá... Tó.
- Tá fui. Qué cois'liga n'celular.
Trabalhando hoje na revisão de um artigo sobre linguagem falada versus escrita, comecei a pensar sobre os mundos que habitamos criados por essas linguagens, e pela nossa própria língua, claro. Nosso universo é u jeit'c'magente fala. A depreciação desse oralismo em algumas línguas levou ao seu fim. Talvez não necessariamente por culpa do engesso formal da escrita, mas a possibilidade disso acontecer sempre existe. Poderíamos pensar que é essa nossa fala que acaba com uma língua, mas, longe disso, é ela que faz a língua mudar gradualmente, desenvolver-se, aprimorar-se, garantindo sua sobrevivência a cada volta que mundo dá. Dependesse da linguagem escrita, quem sabe ainda estivéssemos falando latim ou línguas ainda mais antigas.
Com freqüências variáveis e complexidades diferentes, também, inventamos muitas palavras durante a vida. Ainda que sejam onomatopáicas, limitem-se a arremedar sons, a gente precisa criar extensões desse mundo comunicativo, ramos que às vezes nos faltam. Isso mostra o quanto o desenvolvimento da língua está conectado ao da própria humanidade, com todas as suas necessidades criativas e produtivas (mais a última). Tal como no artigo, que não posso citar com precisão agora pois está amontoado lá sobre minha pseudo-mesa de frila-da-puta em Pinheiros, penso que a língua é uma parte intrínseca do mundo particular que cada um habita.
Quando ouvimos línguas africanas, asiáticas, de tribos específicas quase mortas ou mesmo as européias às quais não estamos habituados, sentimos estranheza e às vezes até desprezo, pois não as compreendemos. O mesmo acontece com regionalismos aqui no próprio Brasilzão. Grande parte dos concidadãos paulistanos que conheço tem reservas em relação a sotaques provindos do Nordeste e outros cantos, e antes o preconceito fosse apenas contra a variação lingüística usada. Em outras palavras, a maioria das pessoas tem medo do que não conhece, e em vez de tentar compreender o desconhecido, o diminui, o espezinha, tira sarro, para manter um afastamento seguro daquilo que não é próprio de seu mundinho. Mas é presumível que quem conhece mais variações do idioma possui, de fato, mais cultura, e conhecer todos os "portugueses" do Brasil não é tão "baiano" quanto alguns intolerantes (não vou usar outro nome feio em nome da ética temporária dessa blogação) gostariam que fosse, apesar de certas pessoas acharem que ter cultura é saber o que rola em Paris ou Nova Iorque.
Mesmo todos nós tendo preconceitos, temos preconceitos diferentes, que estão ligados a experiências pessoais, traumas, lembranças, conversas e pensamentos isolados, que vão construindo nossa personalidade. Assim, vivemos em dimensões absolutamente particulares, o que me leva a pensar que aquilo que tentamos entender por "realidade" não existe. Isso também chupinhei do artigo, mas tento ir um pouco além em exemplos toscos. Se o que é real é o objetivo, o que é visto ou palpável, se o azul é azul, que será o azul para um daltônico? O que será uma rua pavimentada para quem nunca a viu? A rua, que eu saiba, só tem esse nome em português... e mesmo que street seja o correspondente em inglês, essa palavra foi criada a partir de outros parâmetros. No mundo ocidental é comum que se ache bizarro colocar à prova o que já está gravado na parte feita de pedra em nossos cérebros. Não estaríamos, a todo momento, tentando impor diferentes realidades a todos, ou aceitando realidades pré-fabricadas com toda a passividade do mundo apenas para não termos de pensar sobre a nossa própria?
Isso é provavelmente a fórmula para guerras e qualquer vileza que se possa imaginar. Some à questão de realidades particulares alguns determinados líderes que pela força, pela "política" ou pela religião conseguem convencer milhões a seguirem sua própria visão de mundo, mais o desconhecimento e a não aceitação da realidade de outro país, sistema político ou crença, mais ainda certos interesses em riqueza financeira e poder em geral, pronto, temos qualquer conflito já ocorrido na breve história do ser humano sobre a Terra. Poder-se-ía dizer que animais também conflitam, mas não podemos nos esquecer que por razões infinitamente mais "objetivas" do que a utópica objetividade que pretendemos alcançar para viver em um mundo civilizado, prático, bonito, limpo, "em paz". Os territórios que o homem quer conquistar não existem, pois são realidades e pertencem ao próximo, ao próximo, ao próximo.
Se queremos ser gente, é bom que comecemos a entender que todo mundo quer, mas ninguém do mesmo jeito. Há solução para esse quase paradoxo inútil sobre o qual um blogueiro solitário se propôs a punhetar? É possível, mas antes precisa-se entender que a comunicação é mais do que a língua que falamos. Existe uma língua oculta que não precisa articular palavras nem expressar pensamentos, mas que permite à alma não se amargar perante outra e não se incomodar tanto com as diferenças. A única palavra que me vem à mente para expressá-la é "consciência". Mazagent'temq falá'amema língua, né?
Testando um novo birinaite, mp3. O tempo que fica disponível é curto, então baixem, caros não-leitores não-ouvintes. Em breve colocarei músicas minhas, cds inteiros, para todas essas milhões de pessoas que consultam o blog poderem fazer a festa. É uma múisca do Weather Report, chama Directions, do álbum Forecast e na verdade é uma tomada que nem foi para o disco originalmente. Quem quiser saber mais 'dáum gúgou', ou 'vêna uiquipédia'! (clica na imagem e depois, no rapidshare, clica em 'free')
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Se eu vivesse para sempre
Se eu vivesse para sempre, seria o senhor do tempo. Não dominado por ele, passaria pelo menos 10 anos de cada século a coçar o saco, ou quem sabe 100 anos por milênio. Nos demais, entreter-me-ía com os vais e vens de homens-formiga: nossos sistemas sócio-político-econômicos ascendendo e caindo, edifícios erguendo-se e desmoronando, marés inundando continentes e depois retraindo, a poeira das guerras a se espalhar e dissipar, como os fluxos intermitentes das chaminés das fábricas.
Se eu vivesse para sempre, é certo que veria inúmeras revoluções. Após os brancos, estariam no poder os negros africanos, logo após os árabes, os coreanos, os indígenas, testemunharia o governo gelado dos esquimós, dos tchúkhtil, criadores russos de renas, dos chineses, dos japoneses, que logo formariam uma aliança poderosa e governariam por período um pouco maior que os outros, depois o governo dos mestiços, dos pardos, dos pardos, dos pardos...
Presenciaria tórridos romances e violentas separações, um após o outro, em diferentes níveis e intensidades, numa valsa interminável que daria à luz outras valsas, outras danças e ritmos igualmente intermináveis. Dessa mistura romântico-sexo-musical formar-se-ía um único som, que soaria para o resto da eternidade.
Eu me tornaria o maior amante de todos os tempos, ou de um tempo só. Figuraria nas narrativas dos livros mais femininos, seria o homem da vida de milhares ou milhões de mulheres, que morreriam fiéis a mim e eu a elas. Poderia ser fiel infinitas vezes se eu vivesse para sempre, bem como ser o patriarca de inúmeras gerações.
Veria campos virarem pedra, virarem terra, virarem campo, meu cinema abstrato natural. Além da música e o cinema, entregar-me-ía à literatura. Leria e esqueceria toda a produção intelectual humana. Escreveria best-sellers, aclamadas peças de teatro, gravaria os mais bem-sucedidos discos, calcaria em pedra a minha arte, grudaria minha tinta em tela, para depois apreciar a verdadeira arte, vendo o quadro, o livro, o disco ser comido pelo tempo, seu senhor.
Registraria num blog a história de cada ser humano que cruzasse o meu caminho. Quando a internet como a conhecemos deixasse de existir, inventaria outra coisa similar, promovendo inúmeras revoluções tecnológicas, criando a globalização e a desglobalização, fazendo o mundo pulsar junto com suas cabeças e corações.
Seria empresário, sindicalista, taxista, gari, vagabundo, seria comunista, reacionário, anarquista, situacionista. Tudo isso professando o cristianismo, o budismo, o islamismo, o espiritismo e novos ismos que eu mesmo inventaria. E me tornaria por fim o historiador, o político, o professor, o terrorista, o religioso mais controverso da história, sendo todos estes ao mesmo tempo, dando nós nas cucas de gerações a fio.
Seria testemunha do nascimento e morte de todos os animais e plantas, sua extinção e a formação de novas espécies e mutações, entenderia a maneira com que a evolução evoliu e retrocede em movimentos díspares, porém constantes.
Quando chegasse a ser o último homem sobre a Terra, sem nada a me surpreender, nada pelo que ou contra o que lutar, quando ouvisse, visse, sentisse e pensasse uma só coisa em uma única ação, eu seria deus... e teria um só desejo: morrer.
Inspirado em trecho do conto "O Imortal", do livro "O Aleph", de Jorge Luis Borges, que segue: "Doutrinada num exército de séculos, a república de homens imortais atingira a perfeição da tolerância e quase do desdém. Sabia que em um prazo infinito ocorrem a todo homem todas as coisas. Por suas passadas ou futuras virtudes, todo homem é credor de toda bondade, mas também de toda traição, por suas infâmias do passado ou do futuro. (...) Encarados assim, todos os nossos atos são justos, mas também são indiferentes. Não há méritos morais ou intelectuais. (...) Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens. Como Cornélio Agripa, sou deus, sou herói, sou filósofo, sou demônio e sou mundo, o que é uma fatigante maneira de dizer que não sou".
terça-feira, 17 de julho de 2007
O Antibundismo
“Não pise na grama”, lia eu aos 7 anos de idade, acreditando ter encontrado pela primeira vez uma norma que fazia sentido. Sim, pois até ali meu pequeno cérebro havia registrado apenas proibições de estacionamento ou relacionadas a falar palavrões e comer doces antes das refeições oficiais. Digo registrado, porque a assimilação tomou-me mais tempo, e assimilar o que a civilização nos sinaliza provavelmente toma muito tempo de todos nós.Não pisar na grama era-me lógico por questões meramente estéticas. O gramado estava bonito, bem cuidado, os arbustos verdejavam e suas folhas guardavam ainda pingentes de orvalho que brilhavam à luz matutina. Já naquela época eu sabia que a minha presença em determinados lugares causava danos, mesmo que não me fosse chamada a atenção muitas vezes para não sujar isso ou não correr sobre aquilo – fui uma criança comportada.
Passados alguns anos, não foi muito difícil compreender que, acima de tudo, inclusive da segurança, sinalizações servem para manter a “ordem” e proteger a propriedade de alguém. Hoje, para mim, a grama do vizinho é sempre um tanto mais amarelada, por verdes que sejam os pensamentos e intenções do sujeito, pois descobri que só protegemos o que nos custa dinheiro, não o que nos pode custar a vida quando perdemos, como a flora.
Já me afastando de questões ambientais, pois não teria argumentos ecologicamente corretos o suficiente, volto-me a uma observação do tempo presente, eu já com um cérebro um tanto maior (mesmo que este não seja capaz de produzir raciocínios mais interessantes que os de uma criança), no meu ofício fixamente temporário de revisor, parado no andar térreo do prédio, esperando sei lá o quê, sempre tenho que esperar alguém para conseguir trabalhar.
Resolvi fumar um cigarro (já falei que minha ecologia e minha naturebisse não serviriam de nada?), como ali já havia feito tantas vezes, e qual não foi minha surpresa ao ver que as muretas ao redor dos jardinetes da entrada do edifício estavam agora equipadas com lanças de aço por toda sua extensão? Vejam bem, a boa e velha placa que diz “Pedimos o favor não sentar ao redor da grama. Obrigado.” ainda estava lá! Esta, eu nunca contestei.
Ainda que o novo aparato não evite que dezenas de bitucas sejam arremessadas sobre os belos pequenos jardins (a vontade de fazer o mesmo era imensa, mas algo de ambientalista em mim não permitiu), ele garante, sem sombra de dúvida, que nenhuma pessoa em sã consciência se sente sobre a mureta! Fiquei abismado. E olha que não costumo falar do quão abismado fico a respeito de coisa alguma, em meus textos.
Sim, a presença das pessoas faz estrago, mas não como a minha faria àqueles gramados verdejantes de outrora, e sim de uma maneira geral e irrestrita. E não satisfeitas com agredir o ambiente, fazem-no também com nossa inteligência. Recuso-me terminantemente a discutir a utilidade do dispositivo ou o nível de prejuízo que um traseiro humano seria capaz causar a um jardim ou a seus muros, tamanho que justificasse o uso de armas.
Até quando vamos gastar quantidades absurdas de energia com a proteção de pequenezas? Parece-me que quanto menos alienado um homem é da produção capitalista, ou, trocando em miúdos, quanto mais poderoso e rico ele é, mais alienado se torna da realidade. Gostaria que isso fizesse sentido, mas o problema é que apenas a guarda da propriedade não é e não pode mais ser desculpa para nossas paranóias. Qual será, então, a nova desculpa?
Antecipando-me à imaginação fértil do possível leitor, meu sempre caro apreciador virtual ou inexistente... Será a violência? Mas a causa desta, ao menos na sociedade moderna, não seria justamente a propriedade privada? Pode ser, mas, estou ficando confuso... Uma Cerca Antibunda?! É essa a resposta para nossas neuroses anti-terro-vio-ultra-letas-lentas-bestas?
Não teríamos mais nada com que nos preocupar?!
Pode me xingar do que for, mas o desrespeito à inteligência é o maior crime dos últimos séculos. Pode me chamar de igualmente paranóico, neurótico, apenas porque vi uma bobagem na rua, mas se o jornal das 8 me diz que o Brasil está prosperando, e que basta continuarmos trabalhando cabisbaixos, subservientes, comprando inutilidades, indo ao shopping para celebrar o natal, que o empresário Fulano de Orleans Bragança está ajudando os pobres, que o Bush venceu o terrorismo... se o jornalista me fala tudo isso, todos os dias, com a cara mais lavada do mundo, já me deu motivo para quebrar o antigo acordo de paz com a burrice, a ignorância, a cegueira consentida.
Quando os homens realmente poderosos do mundo começaram a falar sobre democracia,
Ok, eu sei que foi um dos meus piores posts, mas alivie-se procurando a música de uma banda que meu amigo e leitor inexistente indicou há pouco tempo e foi uma grata supresa. Broken Social Scene. Aí embaixo vai um youtube, mas estou pensando seriamente em disponibilizar mp3 aqui. Se vai atrair mais não-leitores, não sei, mas que vai entrar gente, vai.
sábado, 7 de julho de 2007
Borges
Sonhei que sonhava comigo
e acordei terceiro
fazendo o que faço primeiro
sem nem um segundo sonhar
Que alívio saber que me invento
mas triste é pensar que repito
o nada que nada me é
e acordei terceiro
fazendo o que faço primeiro
sem nem um segundo sonhar
Que alívio saber que me invento
mas triste é pensar que repito
o nada que nada me é
quinta-feira, 24 de maio de 2007
Vida Corrigida - Reflexões mudas no caderno de um revisor
Provo meu valorpingando nos is meu suor
Atento a detalhes alheios
e tolas convenções
Ninguém percebe, ninguém percebe
mas se o faz eu sustento
e alimento o problema
Trabalho o problema, problema é trabalho
Ninguém se queixa, ninguém se queixa
me queixo por eles da imperfeição
Ninguém é perfeito, ninguém é perfeito
só eu devo ser?
domingo, 29 de abril de 2007
Inutitulidade ou O Homem de Negócios de Negócios de Negócios...
Você está desempregado? Eu também. É difícil, não é? Qualificações, habilidades, escolaridade, experiência... "facilidade em intercomunicabilidade em inúmeros níveis"! Aposto que alguém já deve ter colocado isso no currículo. Você não? Talvez algo parecido. Entrevistas, dinâmicas (argh!) de grupo, olhares escrutinadores de "RHs" despreparados, pseudo-psicólogos que analisam até a maneira como você respira e pisca, tudo espreitando e conspirando contra a sua, ora, sacrossanta boa vontade em querer fazer alguma coisa, QUALQUER coisa, em troca de trocados, com o perdão do trocadilho. E não é que até realizar esta simples prostituição tem sido complicado, ultimamente?Pois é. Acontece que existe uma nova forma de trabalho: o trabalho sobre o trabalho. Isso pode não ser tão novo quanto parece, mas do jeito visto hoje não tem precedentes. Bom, talvez desde o início da agricultura, nossa maior e imbatível revolução rumo ao progresso econômico, existissem trabalhadores cujo trabalho era pensar no trabalho de outros que faziam o trabalho. Detalhadamente, pessoas que não só estruturavam os procedimentos, mas que também pensavam o trabalho como fruto, produto, bem, matéria. Será? Vou admitir que não fiz pesquisa alguma para escrever estas bobagens, mas é muito provável.
Acontece que, hoje, tivemos a pachorra de ir além. A criação de novas áreas ou sub-áreas do conhecimento acorrentou os trabalhadores intelectuais ao mundo corporativo. Talvez isso não seja para sempre, mas, por enquanto, vemo-nos obrigados a estudar, trabalhar em e GOSTAR de assuntos como "comunicação corporativa", "gestão de pessoas", "relação com investidores", "sustentabilidade" (seja lá o que isso signifique), "responsabilidades" diversas, "hospitalidade" (receber gente rica, possíveis investidores), "análise de risco", "consultoria" disso e daquilo, "assessoria" para mais outro tanto de coisas, "saúde laboral" (!), psicologia do trabalho (!!!), etc, etc, etc.
Usei "trabalhadores intelectuais" não sem motivo. É claro que ainda existem aos milhões os braçais, peões, chão-de-fábrica ou como queiram chamar estes semi-escravos, que estão cada vez mais fora do que dentro das empresas, pois, com a globalização, tornou-se mais fácil explorar o labor de gente desesperada, mas lá do outro lado do mundo (ou aqui no Haiti), onde ninguém vai ver, nem reclamar, nem se compadecer dessas almas. Os robôs já fizeram sua parte ao remover uma quantidade monstruosa de pessoas dos processos de fabricação, das linhas de montagem. Mas, enfim, estes peões são cartas fora do baralho, ou pelo menos estão dentro das mangas dos ternos alinhadíssimos dos novos senhores de engenho.
Quero me ater a uma nova hierarquia no trabalho intelecutal, este considerado importante, e o surgimento de uma casta altíssima na escada para o sucesso. O dinheiro está em áreas que exigem níveis técnicos absurdos, mas com pagamentos igualmente absurdos. Quem hoje domina a tecnologia, domina a informação e domina o mundo. A Era da Informação já era. Foi um período criado pelos meios de comunicação para alimentar em nós a fantasia de que temos acesso a tudo, liberdade de pensamento, absorção de culturas até então remotas e produtos ainda mais fabulosos provindos dessas culturas. E o que fazemos com essa informação? No modo de pensar do capitalismo, rigorosamente nada. Podemos enfiar em algum lugar, fica a critério.
Esse conhecimento é mero troco, umas migalhas jogadas a todos (ainda não todos, mas quem sabe em breve) em reconhecimento à nossa obediência servil por um par de séculos. Se na Idade Média a arte e a técnica eram guardados a sete chaves pela igreja, hoje, fique tranqüilo: está tudo aí para quem quiser catar do chão. Esbalde-se com livros "subversivos", descubra na internet como construir uma bomba caseira, assista a filmes iranianos, decifre o código morse e até o DaVinci! Pouco importa. Sabe por quê? Nada disso vai te dar acesso ao dinheiro. Hoje, meu amigo, a informação que interessa é outra. Táticas militares são utilizadas em multinacionais, a chamada "inteligência", já ouviu falar? Pois bem, de nada vale a sua. Essa é para ganhar muito, mas MUITO dinheiro, com zeros que não cabem em banco nenhum.
Quanto à nossa mera inteligência, onde se encaixa nessa hierarquia? Para proteger inteligentemente todo esse esquema inteligente de inteligência, existem hoje trabalhos que se relacionam diretamente ao trabalho, é o chão-de-fábrica do novo poder. De um lado, mentirosos profissionais que servem para comunicar as benfeitorias de seus clientes e varrer o resto para baixo do tapete, entenda-se assessoria de imprensa (assim mesmo, com letras minúsculas, como todo título deveria ser). Outros mentirosos seriam os que estão preocupados com a saúde física e mental de seus funcionários, os que se preocupam com o impacto ambiental que a produção maçiça de seus clientes/empresas produz, e alguns similares. O resultado de seu trabalho é composto, na maioria das vezes, por números que devem deixar todo mundo contente. Quando se pode descontextualizar ou mascarar esses números, melhor ainda!
Dá para perceber? Todos esses títulos e novas áreas "importantes para os negócios" servem para que o trabalho seja justificado. E se o trabalho é justificado, o dinheiro e o poder de uns pouquíssimos, também. Trabalhamos no que vai interferir no trabalho e distanciamo-nos da produção em si. Não sei dizer, a essa altura do texto, se isso é bom ou ruim, mas soa estranho que falemos e pensemos mais em maneiras de viabilizar, assessorar, sustentar, analisar e permitir o trabalho do que fazê-lo. Se temos cada vez mais urgência em provar o valor de nosso trabalho, só pode significar que ele o está perdendo. Temos títulos e mais títulos para trabalhos esdrúxulos, mas o próprio trabalho fica dando voltas em torno de si mesmo, aproximando as pontas de uma linha de progresso que em breve será um círculo, uma loucura feita só por ser feita, para que uns teham o poder, só pelo poder.
Com mais gente, vêm mais responsabilidades, mais nomes, mais assessorias, análises, auditorias (auditores são os dedos-duros dos negócios, para garantir que a grana está no lugar certo) e fiscalizações, evidenciando uma desconfiança que já nasceu com a concorrência capitalista ou que, aliás, já nasceu conosco, sendo o motor da busca nervosa por poder sobre nossos semelhantes, da nossa evolução, do nosso progresso. O mais interessante é que toda essa atenção sobre os procedimentos acaba apenas criando mais brechas para que negócios sujos sejam feitos. Como? Corrupção. Não é mais fácil apenas corromper quem fiscaliza do que quem faz? Aí temos o tráfico comendo solto, o contrabando de armas, de INFORMAÇÃO... Tem quem venda a alma por uma cifra escrita em guardanapo. Isso alimenta ainda mais essa concorrência de guerra mundial, mas o jogo é esse, não é?
Algum engravatado rico (pois nem todo engravatado é rico e vice-versa) poderia dizer:
- Mas você está simplificando demais! Nesse contexto, é claro que tudo isso parece ridículo, mas nós estamos ditando os rumos da humanidade, seu sustento diário, a perpetuação da espécie!
E tem como complicar mais do que já o fazem? Perpetuando a espécie com certeza estão, só não sei que espécie é essa. Talvez a E$PÉCIE. Um dia precisaremos, se já não precisamos, de auditores que façam auditoria nos auditores dos auditores, dos auditores... Mas, claro, não é assim que vai se chamar. Será a Audi3pG Carlson-Kramer 9005, ou coisa que o valha. E talvez até o Carlson ou o Kramer ganhem um prêmio Nobel por isso, simplificar o mundo dos negócios e, conseqüentemente, a nossa vida. Bom, eu não estou vendo a vida se simplificar em nenhum aspecto. É fácil confundir simples por cômodo, habitual. Estamos nos acostumando a pensar em todas as coisas de maneira mais complicada, a ponto de se tornarem simples, ou, quando somos apenas mão-de-obra barata, limitamo-nos a relegar essa rotina complicada aos nossos superiores, o que complica ainda mais a nossa simplificação da vida. Pode parecer complicado, mas é simples: ficamos escravos de tudo o que construímos.
Assistir: Syriana. Fabuloso filme que fala muito mais sobre isso do que a bobajada acima. Mas é bom assistir com atenção, talvez duas ou três vezes. É, é complicado.
segunda-feira, 16 de abril de 2007
Não dá
Agora eu queria começar a escrever. Ia comentar o último livro que li, quantas idéias interessantes... não posso mais escrever. Tocou o telefone, era um vendedor que sabia o meu nome, ele me disse que a oportunidade que ele tinha reservada especialmente para mim era única, imperdível, é uma coleção dos maiores best-sellers de todos os tempos, eu pagaria por eles em prestações levíssimas no cartão de crédito, falei que pensaria a respeito, afinal todo mundo já leu, não sei se quero ficar de fora. Eu ia até tentar escrever. Estava com um pensamento bastante fértil na cabeça, sobre originalidade e o contrário dela, como tudo hoje em dia é reproduzido em massa... não posso mais escrever. Deixei a televisão ligada, está passando uma matéria que me chamou tanto a atenção, sobre um artista famoso da antiguidade que vai ter suas obras estampadas em camisetas e bonés, tudo em prol das crianças do Camboja que passam fome, parece que foi idéia de um estilista bastante conceituado na sociedade, que já pintou quadros nas ruas da Europa, passou dificuldades financeiras em sua juventude, fico pensando se não seria essa uma nova forma para a arte, que funciona, uma coisa tão acessível e ainda por cima com um propósito tão bonito, será que eu quero ser mesmo artista, pois não me vêm essas idéias inovadoras à cabeça, devia expandir os meus horizontes, como a própria personalidade que fala na televisão diz que todos têm de fazer. Será que vou ter tempo de escrever, ainda? Tantas vozes gritando dentro de mim desde o sonho que tive na noite passada, alguém me dizia para ficar de olhos abertos para a manipulação, outra voz falou em escravidão, isso seria material interessante para um texto... não posso mais escrever. Lembro-me, agora, tenho que procurar emprego, pois o dinheiro que ando ganhando não é digno, nem suficiente, nem o jeito como eu o gasto é bom, eu não trabalho o montante de horas necessárias e nem tenho um emprego direito e justo para poder comprar as coisas que o vendedor do telefonema me disse que preciso ter, fora que o trabalho enobrece o homem e ando me sentindo tão longe da nobreza, estaria mais perto dela com um terno e uma gravata, há empresas com propostas tão claras para melhorar a vida das pessoas, eu devia trabalhar numa delas ao invés de ficar me masturbando com esse suposto trabalho, afinal, não pode ser considerado trabalho algo que me deixa aí solto para fazer meus próprios horários e as coisas que eu gosto, poder falar das que eu não gosto, isso seria muito egoísmo, ninguém tem o direito de ficar fazendo seus próprios horários enquanto os outros ralam o dia inteiro, não têm tempo nem para pensar, comer, ver os amigos e a família, os filhos, respirar, se comunicar, amar, ler, ir ao cinema, ao teatro, estudar, e desmaiam em suas camas, à noite, pois ir dormir simplesmente quando se está com sono é realmente coisa de vagabundo. Mas será possível? Tenho tanta coisa importante para me preocupar que não estou conseguindo escrever! Queria falar do amor, das mulheres, hoje conversei com uma garota linda no ponto de ônibus, ela veio me pedir uma informação sobre o itinerário e acabamos trocando umas palavrinhas, ela é muito inteligente, gosta de poesia, estava indo para a faculdade (ela faz o curso de letras) fiquei extasiado, e que graça ela tem, que olhar interessante, pena que não pude conversar mais com ela, foi tão rápido, o ônibus dela passou e... não posso mais escrever. Não posso, imagine, daqui a pouco estou com 30 anos, preciso me casar, dividir meus bens com uma mulher, não precisa ser uma mulher incrível, só alguma que satisfaça por um tempo as minhas necessidades fisiológicas, lave minhas roupas com amaciante, faça uma comidinha gostosa, seja simpática, hora ou outra ela me dá um ou mais herdeiros, como na vida normal, assim, como deve ser, a gente vai poder exibi-los nas festinhas dos nossos queridos amigos, vou adorar elogiar os filhos deles, apesar de eu achar aquele ali um pouco mimado, mas, bom, ele tem o direito de ter tudo aquilo que os pais ralaram a vida inteira para dar a ele, tantos brinquedos caros, escola particular, isso é que é uma criança de sorte, não precisa ter contato com aquelas pobres e desgraçadas crianças do Camboja, ou mesmo as daqui, elas vão crescer seguras num condomínio fechado, ah, como é bom poder ter um pouco de paz, apesar de que vai haver muitas brigas no meu casamento, provavelmente, dependendo da mulher e do meu estado de espírito (ela pode ter olhado diferente para aquele meu amigo cafajeste, será que ela está me traindo?) podem até ser aquelas de quebrar coisas, quando os vizinhos chamam a polícia, mas taí uma coisa perfeitamente normal numa relação homem/mulher, é melhor do que ficar por aí solteirão, não pega bem. Juro que estou tentando escrever. Imaginei uma tirada cômica qualquer, alguma paródia da vida cotidiana, algo que fizesse o mais duro dos homens rir, mas ao mesmo tempo estou checando meu correio eletrônico, um amigo enviou-me uma montagem hilária de fotos, estão tirando sarro de uma mulher gorda que tenta entrar num carro pequeno, há, há, há, mal consigo me conter, que pretensão a minha querer escrever algo cômico, já tem tanta gente criativa por aí, olha só, tem outro, meio pornográfico, um rapaz tentando convencer uma garota a praticar sexo oral com uma sacada tão perspicaz, há, há, há, estou até chorando de rir, isso é que é humor, eu devia mesmo era criar uma página na internet para mostrar esse tipo de coisa, todas as minhas besteiras, talvez eu fique até famoso por isso, quem sabe, essa era da informação dá tanta liberdade para as pessoas se expressarem, como nesses blogs, é isso, um diário público “virtual”, seria tão prático, eu não ia precisar me preocupar tanto em escrever, seria só colocar o que aconteceu no meu dia, praticamente uma crônica cotidiana pessoal, isso sim é democracia, todo mundo tem seu espaço na grande teia mundial. Até comecei a esboçar umas linhas, mas, ah, tanta coisa para pensar, tantos projetos de vida. Nem sei se quero mais escrever, acho que quero, mas está ficando tarde, afinal de contas, escrever não vai me levar a lugar algum, ninguém vai ler, mesmo, o que vale é meu sucesso individual, o progresso de cada um, preciso comprar um lugar só meu, preciso chamar tantas coisas de “só minhas”, isso é que é importante, progredir na vida, vencer, tem gente que não vê isso, era sobre elas que eu queria escrever, na verdade, sobre essas pessoas medíocres que não aprendem nada, não sabem aproveitar o dia, a vida! Eu bem sei, mas estou vendo que hoje não vou poder escrever.AllanZi - 17/09/2003
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