quinta-feira, 27 de março de 2008

Arte, mudarte, fugarte

A vontade que eu tenho é de mudar o mundo dentro da cabeça das pessoas, sejam elas quantas forem, não por uma vaidade minha, mas por um mero senso de justiça: todos devem ter ao menos a chance de pensar diferente uma vez na vida; e a arte serve, entre muitas coisas, para fazer cair o véu do mundo-máquina em que vivemos e mostrar suas engrenagens, ou ao menos emaranhar seu próprio véu com este, dando outra cor ou nuance àquilo que se vê através. Assim como é possível pichar o anúncio de um produto qualquer exposto na cidade, também se pode bagunçar mensagens grudadas em cérebros já tão bombardeados por propagandas, que compõem uma realidade pronta, objetiva, com a utilidade única de manter as coisas como estão: nós nascemos, trabalhamos, compramos, reproduzimo-nos e morremos. É para mostrar que há diversas dimensões a serem exploradas dentro deste período chamado vida que a arte serve, uma contribuição perceptiva de um ser a outro, algo que se passa adiante como um achado inestimável. "Olha só o que eu descobri, o que você acha?", talvez seja o início do simples, até simplório diálogo que a arte, ou melhor, o artista, quer travar. Muitos tentam, mas discutir a arte em patamares de extrema complexidade científica só faz afastá-la de quem poderia realmente ter acesso a ela, gostar, beneficiar-se dela. Não é que todos os estudos "sérios" a respeito sejam pura masturbação acadêmica, embora muitos o sejam, assim como este aqui é um onanimso não-acadêmico burguês-digital, mas o agente da arte, a pessoa que a descobre ou cria pode ser qualquer um, e aí é que está... Não é preciso ser doutor, rico, pobre, sonhador, hippie, yuppie... Todos podem destacar da realidade um aspecto novo, ou mesmo repetido, mas apresentado de maneira íntima, pessoal, escancarada, tímida, grotesca, bela, apavorante, apaixonante, triste, dolorosa, superficial, clara, escura, violenta, sangrenta, pacífica, desastrosa, fenomenal... É tudo o que pode alterar o olhar e conectá-lo ao sentimento, algo que é de fato uma revolução em tempo de completa banalidade e indiferença, quando ou não se sente nada em relação a nada, ou sente-se exatamente o que se está programado para sentir. Eu gosto de gostar da arte com reserva e assim o faço ao fazê-la, quando acho que a faço, e quero achar. Arte é toda obra que nos propomos a executar, mas faço um único porém: não é tudo o que obramos.

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P.S.: O post abaixo está se sentindo tão solitário...

segunda-feira, 24 de março de 2008

Minha Cara

O homem encanta
procura belezas

Estão por aí...

Balões a inflar
flutuam etéreos

Concebem vazio

Aceita a sorte
a presenteia
e força a bênção
corpo adentro

Expele um milagre

Não queira ser minha
amei-te operária
abelha rainha

A dor não é minha
terá sua cara
abelha rainha

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Aos meus caros desleitores, informo que farei o possível para encontrar novo site hospedeiro de arquivos para continuar a compartilhá-los convosco, visto que o Rapidshare mostrou-se rápido também em apagar o que eu ponho lá, conforme o tempo passa. Na pior das hipóteses, renovarei certos arquivos transmitidos por este blog que hoje encontram-se "caducos". Enquanto isso, para acesso imediato, aqui vai uma música de Smoke City, agradável e tranqüila surpresa aos ouvidos: Numbers - Interlude No. 1. Em seguida, algo das minhas próprias e humildes experimentações eletrônicas:
Ask Frequently.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Chomskyando Bêbado

Noam Chomsky

Não tenho nem tive muitos amigos "revolucionários", aqueles que estão afim de mudar o mundo e essa balela toda. Dos poucos que tive, hoje são todos bastante críticos de seus próprios discursos anteriores, pois agora acreditam ser necessário aceitar o capitalismo como o único sistema econômico possível e que o mesmo permite a democracia como organização política e social. Bom para eles, não é mesmo? Agora que já aprenderam técnicas eficientes de puxar o saco de seus empregadores, com afinco e até algum prazer em averiguar a elasticidade das respectivas bolsas escrotais, é melhor deixar os pensamentos alternativos para amigos perdedores como eu, esses que não se fixam em lugar nenhum, nunca sabem o que querem da vida, dados às artes e outras bobagens afins. Pois quem sabe até alguns desses meus amigos, vencedores no cume da escalada social, já tenham seus próprios negócios e aprenderam a ter gente pendurada em suas partes baixas, e admito que deve ser mais prazeroso - esses não querem nem contato com amigos da minha estirpe, pois vai que a gente pede emprego, e ninguém quer gente chegada num "livre pensamento" trabalhando para si, não é? Só traz problemas.

Não estou destilando ressentimento não, na verdade eu não consigo nem nomear a maioria desses amigos, são só algumas sombras distantes... Dá uma ligeira tristeza por estar sozinho, apenas, ter sido aos poucos "abandonado", de certa forma. E não é essa solidão globalizada que está na moda por aí não, individualidade ouvindo iPod ou falando com um celular que te responde, você nem precisar ligar para ninguém... é um sentimento de SOLIDÃO por ainda não estar tão entorpecido a ponto de não enxergar mais a maneira como as pessoas se tratam por causa do dinheiro. Aqueles mesmos caras cujas histórias lemos em livros ou vemos na televisão, que guardaram centavinho por centavinho, começaram de baixo, de office-boys, e hoje são multi-milionários, vão ver como tratam seus funcionários... saiu da linha, rua. Aliás, eles têm outras empresas terceirizadas só para fazer isso, não é preciso mais cansar o músculo do próprio dedo para apontá-lo à porta. É a lei da selva moderna, ora, eu já devia estar acostumado... Mas o problema é que não estou, e toda vez que vejo alguém se humilhar em troca de migalhas, penso que o nojo que a maioria das pessoas tem pelos mendigos é em si um auto-asco, pois lembra o quanto nos curvamos diariamente, de mão estendida, servilmente, esperando o tilintar de um par de dobrões.

Os meus ex-amigos devem estar orgulhosos de serem agora homens/mulheres feitos(as), deixaram para trás essas preocupações histéricas e infantis, o lance é se garantir e acabou. Mas penso que a gradual aceitação do statu quo não é exatamente o processo natural de transformação de adolescente em adulto, mas a vitória gradual, no entanto certa, dos defensores ocultos desse mesmo estado imutável das coisas. Esse defensor é oculto não porque trata-se de um membro d'alguma sociedade secreta (nada impede que o seja) ou influenciador político, como integrante de máfias ou grupos corporativos obscuros, não necessariamente... Esse defensor é o seu próximo, é você mesmo, é seu familiar, seu amigo, o ator da televisão, o cobrador de ônibus, por isso ele se funde à massa e passa a ser um agente interno, quase sempre foi. Tudo isso a um ponto que poderíamos chamar essa defesa ferrenha e eficaz do capitalismo de epidemia, uma brilhantemente desenhada, mas desenvolvida aos poucos, conforme os eventos mundiais foram tomando lugar na história, os conflitos viraram história, as atrocidades também, e nossas mentes absorveram uma onda de banalização que talvez tenha sido promovida pela ilusão de riqueza que se teve e se tem hoje. Dessa maneira, tudo se justifica pela aquisição de bens materiais, pela geração de lucro, o que é em sua raiz a exploração e apoderação sem limites dos recursos naturais do planeta.

Em nossa realidade, o dinheiro é apenas o símbolo de algo que devemos conquistar, mas na verdade já temos absolutamente tudo o que o dinheiro jamais gerado em toda a história da humanidade poderia comprar. Porém, a idéia é justamente manter essa ilusão viva, enquanto a lógica da competição, ou concorrência, permeia todas as esferas das relações humanas e mesmo do homem com seu meio, pois seria muito ingênuo imaginar que a disputa incentivada pelo livre mercado para controlar a economia mundial reservar-se-ía à esfera dos negócios... Ela se difunde entre os seres humanos de tal forma que o comportamento violentamente competitivo no local de trabalho, na rua, na escola, nos estabelecimentos em geral, no lar, torna-se normal aos nossos olhos, quando a verdade é que estamos institucionalizando o que há de pior na espécie. Podemos, em vez disso, trabalhar outros aspectos que nos são igualmente inerentes, como a cooperação, a comunicação, o trabalho conjunto, tudo o que pode viabilizar a criação da(s) verdadeira(s) comunidade(s), palavra hoje desmoralizada pelo "fracasso" do comunismo como Estado (sendo que este nunca existiu de fato), mas uma palavra que na verdade significa a união pelo que nos é comum, comunhão, concordância, concerto... harmonia.

É igualmente fácil aceitar apenas a idéia de que nossos instintos violentos falam mais alto e mesmo que conseguíssemos construir uma sociedade igualitária ela seria rapidamente suprimida pela sanha de poder "natural" que temos. Ora, pensando assim, o conjunto de instintos que devemos controlar diariamente para manter a sociedade capitalista funcionando seria inviável, impossível, ridículo, impensável, e não obstante o fazemos: obedecemos a regras, não são todos que o fazem, mas certamente uma grande parte, e principalmente as regras que comprovadamente evitam problemas graves da vida em sociedade, do rápido progresso tecnlógico, da organização do trabalho, da distribuição de renda, dos transportes, etc. Convivemos com tudo isso criando soluções inteligentes, e então por que razão não poderíamos desenvolver aos poucos um novo conjunto de regras que nos permitiriam viver nessa aparentemente utópica sociedade igualitária, evitando que nossos instintos perfeitamente controláveis impedissem seu desmantelamento, impedissem o surgimento de autoridades psicopatas, de ganância opulenta, de preconceito, de violência, escravidão, e todos os males que aprendemos a acreditar fazerem parte da "normalidade"? Infelizmente, meus amigos agora chefes continuam colocando mais combustível nessa máquina, e se faltar "material humano", eles não hesitariam em mandar alguém me jogar lá. Você também. E toda essa arquitetura destrutiva serve para colocar poder na mão de um punhado de gente.

Portanto, meu apelo aos leitores inexistentes é que tenham discernimento sobre o "mundo de informação" que absorvem. Isso parece maravilhoso, mas a informação acessível a você só o é porque precisam que você deseje comprar, não só produtos, mas estilos de vida, os mesmos estilos de vida que levam ultimamente todos a pensar que subjugar o próximo para ganhar dinheiro é correto, que o valor de um ser humano é definido por suas posses. Desliguem a tevê ao menos durante o comercial! Se puderem fazê-lo durante a novela, melhor ainda, se perceberem que não precisam da tv, perfeito. Não é que a transmissão de imagens via ondas, cabo, fibra ótica seja ruim, mas o conteúdo disso só tem servido para manter funcionando essa "ordem" sangrenta que acabo de descrever, que podemos ver diante de nós todo santo dia! Abram os olhos: isso serve para a grande maioria dos veículos de comunicação... Por favor, aprendam a pensar por conta própria, eu detestaria escrever sobre vocês em alguns anos, criticando-os da mesma forma que agora tenho que fazer com ex-amigos, para esquecer que os tive, pois eles já se esqueceram há tempo.

Ando abatido e deprimido com tudo isso, mas creio ser apenas um processo necessário de desilusão, de convalescência da epidemia de sandices bombardeadas em meu cérebro por 25 anos, processo de desintoxicação, desapego de um vício, reabilitação. Eu não diria que é um despertar pois tenho quase certeza que isso já aconteceu, mas no curso da vida, em uma analogia com a duração de um dia, agora é o momento de sair daquele estado sonolento em que ainda se está esfregando os olhos para ter certeza de que aquilo que vemos é a realidade. É nesse momento que devemos tentar lembrar o que sonhamos.

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Provavelmente ainda revisitarei o tema pois tenho uma porrada de coisas para falar a respeito, filmes e leituras a indicar, algo mais sério e "científico", mas admito estar com certa preguiça agora, apenas joguei aí um desabafo confuso. Aguardem talvez uma parte 2, caros desleitores. Abaixo, vídeo estático, só para ouvir, do sensacional Fela Kuti, cuja referência wiki não vou colocar aqui pois a que encontrei em português é muito ruim. Basta saber que este nigeriano cantava de maneira muito visceral tudo o que quero dizer aqui, mesmo que esse inglês enrolado seja difícil de entender. É um gênio libertador africano, e para compreender basta apreciar a força de sua música, nada mais. "I not be gentleman at all. I be africa man, original".

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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Ampulheta Cintura

A esperança não envelhece
mas sim quem a conserva
uma espécie de reservatório finito

Despeja-se no próximo incauto
preenche sua vida num minuto
a contar depois o tempo, grão a grão

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

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E que imenso vazio se abriu
nas costas de quem leva sonhos
é o peso da leveza que pesa
no pesar real da invenção

Que se imagine vidas eu entendo
que se as viva, não
e se nem a criação nos pertence
só respondo pela morte que terei

E os percalços, e os percalços
são idéias também, sim
como essa de escrever no encalço
dos estados desesperos

Sério demais se leva
quem nas costas te carrega
é só pular do sonho de leveza
e saber de uma vez só que nada pesa

E que belo vazio se abriu

domingo, 20 de janeiro de 2008

Relógio de Pulso

Nasceu dormindo, num domingo, e quase foi dado por morto, não fosse um pulso fraco, mas pulso, que lhe acometia. Às tantas foi acordado e aquela tal luz a que foi dado parecia a morte, dor pulsante, chorou de raiva, dormiu de susto. Em dado momento da existência infantil, por vezes injusta, ainda que dela, sob nostálgica luz, digam-se doces advérbios e adjetivos temporais, descobriu ser do sol distante aquele brilho, não invenção de seu pai, e de choque pulsaram-lhe as têmporas. Quando se ia, se dormia. Ah, se nos fosse dado mais tempo, morreríamos jovens, ora, não é o desejo geral? Ser jovem por um século e disso padecer, mas padecia o nosso jovem do medo de envelhecer. E assim o fazia, medrando tarde, madrugando cedo da curta e bem quista morte, trabalhava duro a vida, essa vida, talvez dádiva, talvez maldição, acontece que o mundo não lhe deixava escolher, e o impulso padrão era sofrer pela opção positiva, e aprendia a passar o dia a esquecer o dia-a-dia, para ver no fim do próximo, ou do mês, o ouro em seu bolso luzir. Que alegria, será que podia com isso comprar seu sonho dourado, seu prêmio aguardado, seu sono atrasado desde a concepção? Foi saber que não, sossego não tinha, enquanto não obtivesse o objeto mais novo, e subisse na empresa, empreitada, ganhasse respeito, mas subiam-lhe aos montes, nas costas, cabeça, às suas custas, macacos que fazem, faziam, executivos? Vai lá saber. Mas isso era bom, carpe diem, a propaganda dizia, a se apropriar da vigília, forçada, é verdade, do já não tão jovem, pela tática da repetição: um pulso, impulso, dois, latência, retorno, que lucro, que nada, que lástima. No fim desse túnel parecia nem haver centelha, mas no meio ardeu uma chama, quando venceu-o a paixão, e a ânsia de alimentá-la. Haja lenha, mas tempos felizes sem sono, por fim, quem diria, passava. Se empenhava em pulsar prazer e prover, a trazer todo dia pra casa o amor e seus frutos, quando então contraíram saúde e doença, ele e a Lúcia — até que a morte os separasse. Não precisou tanto, bastou convivência e o fogo se foi, por mais que nas brasas se cresse, mas nesse entremeio uns rostinhos brilharam, famintos gritaram, e ensinaram ao desjovem afeto, cuidado, tamanho que sono não havia, que vida, que vidas! Já quando essas graças partiram, à sorte ou azar, motores de igual propulsão, almejou retornar a dormir, relutante e sincero. Dúvida dada, passou a ver mundo enfadado, reclinado, de olhos semicerrados em frente à telinha mortal, destruidora de vistas, lares, globos oculares, irradiando luz e projetando sombras, silhuetas d'alma, sombrias e sós: paredão. E então que esse homem, recebendo o folclórico tapa traseiro tardio, ausente, de início, gritou em silêncio o rebento da idéia final. Havia dormido, o tempo passado, e o sono querido era a paz acordada, vivida a valer, que agora colhia, mesmo sem ser, um luto contente, e no entanto antecipado. Quis treva suave, que o sol falecesse em seu sono, e no dele, pulsando seu fim devagar no horizonte, dormindo, domingo.

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foto: A Nebulosa de Ampulheta, 8.000 anos-luz distante, tem uma espécie de cintura, em função dos “ventos estelares” que a formam serem mais débeis no centro.

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Nova versão de "Da Música", gravada ontem

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Pobrico


Sou rico pro pobre
sou pobre pro rico
sou médio
e sinto uma culpa capital

Eu tenho uma inversa
inveja recíproca
destes que fogem
ao mundo experimental

E partem pra guerra
sem saber que acabou
e foi o pior que venceu
conquistam o pó que restou

Mas lutam!
Que beleza louvar a penúria!
E ao lado do outro...
contemplar o vazio

Tão rico em nada
maior seu valor
tão pobre em tudo
menor é seu preço

E um velho ditado que dá e recebe
sem nunca pedir ou oferecer
perde o encanto e sucumbe
a tudo que é imposto de graça

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Eu e meu caro amigo Meu Nome é Carlos produzimos recentemente uma singela música de 70 minutos, 100% eletrônica, conjuntamente, chamada 001, mas com contribuições ligeiramente mais modestas da minha parte, já que esse mundo ainda é novidade para mim. Acabo de conhecer também esse tal Internet Archive, mas nesse caso é só clicar no retângulo cinza onde está escrito "CLICK TO START", o que explica muita coisa. Interessem-se!

www.archive.org/details/mnec_allanzi_001

domingo, 13 de janeiro de 2008

Egomentira (Saídas Virtuais)

Me chamam a sair
me tiram de dentro
me levam a outro
me deixam de fora

Metáfora alguma

Me presto aos olhares
me fazem mostrar
meus sorrisos duros
medindo e só sempre
melindres amigos

Melhor inimigos
me sinto sozinho
me cospem discursos
me exibem saber, menosprezo
menor sociedade
me faço de ouvidos
medroso, me anulo

Me orgulho de nada!
Me entrego ao medíocre
mentindo memórias
me quero lá dentro
meus outros também
me encontro lá fora
me diz, é possível?

Mergulho saída
me enfio no sim
me sinto seguro
me concordo inteiro
me saio covarde
me agrado mesquinho
me tiram do sério!

Me quer de verdade?
Me sou virtual

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AllanZi - Virtual Exits

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Falanãodiz

Esta é uma foto de meu antigo posto de trabalho. Abaixo, o tipo de texto que eu produzia. Criei este agora há pouco, em menos de 10 minutos. Ainda não enferrujei. Será que o mundo ainda precisa dos meus serviços?

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A Belle Zebou's é uma empresa de serviços diversos que atende orgulhosamente a comunidade há bem-vividos 25 anos, levando sempre o que existe de melhor neste mercado a seus clientes, respeitando sua inteligência e zelando sempre pelo conforto e satisfação máximos dos mesmos.

Sediada na cidade de São Paulo, terceira maior do mundo e o maior pólo econômico da América Latina, a Belle Zebou's estende por todo o Brasil sua prestigiada rede de escritórios comerciais, oferecendo, do Opiapoque ao Chuí, o mesmo alto padrão de qualidade em todos os seus ramos de atuação.

A recente inauguração de filiais em Buenos Aires, na Argentina, e em Santiago, no Chile, marcam o início de uma nova era de expansão e prosperidade da Belle Zebou's, e indica um prognóstico em que o céu é o limite: os próximos passos são Miami e Vancouver, nos EUA e Canadá, respectivamente.

Com uma preponderante visão de todo holística, valor inegável para uma instituição idônea, que tem na realização lúdico-empreendedora uma garantia de criatividade e qualidade agregadas a seus produtos, sempre com respeito máximo pelo gosto do cliente, a Belle Zebou's lança agora o projeto:

RELIFE

o maior investimento em Responsabilidade Socioambiental já realizado na história.

Com mais de 150 colaboradores trabalhando integralmente para sua existência, o Relife promove o bem-estar e a renovação da vida por meio de alternativas sustentáveis de reaproveitamento e reintegração de recursos/pessoas para a reabilitação de um estilo de vida mais digno, responsável e ecologicamente correto.

Além de preocupar-se constantemente com o planeta, a Belle Zebou's busca utilizar sempre tecnologia de ponta, o que transforma as dependências de todas as filiais da empresa em ambientes micro-customizados, e faz seus frequentadores respirarem inovação e segurança infra-estrutural.

É com grande felicidade que a Belle Zebou's espera recebê-lo (a) brevemente em um de nossos escritórios, que carinhosamente chamamos de casa, na esperança de fazer grandes negócios para gerar e gerir sorrisos em uma constante corrente de prosperidade para nossa sociedade, para esta e, com certeza, as gerações vindouras. Seja bem-vindo (a)!

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Karmacoma - Massive Attack

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Da beleza de desistir

Faça, apareça, queira, possa, aconteça, tenha, seja, vá mais longe, garanta, chegue mais perto, prepare, suba, corra, conquiste, arrisque, vença, supere, atire-se, alcance, ultrapasse, saia, entre, não deixe, ME DEIXE EM PAZ! Sei da falta de originalidade nessa enumeração, e não só não sou o primeiro a usá-la como é a segunda vez que o faço. Me desculpem, caros desleitores, mas eu desisti de criar um primeiro parágrafo ('lead', ou lide, como grunhem chatamente os jornalistas, algo que desisti de ser, também, há algum tempo) que fosse minimamente inovador. Talvez eu pudesse, sim, se eu quisesse alcançar tal objetivo. Mas eu desisti.

Em uma sociedade violentamente positiva, beirando a histeria, com sua auto-extra-over-ajuda mequetrefe, desistir pode significar, talvez, iniciar outro empreendimento (só para ser um pouquinho positivo, vai), mas não necessariamente uma humilhante derrota. É uma honesta alternativa à impositiva tarefa de suceder sempre e em tudo! Quem aguenta ouvir a lista do parágrafo anterior todos os dias? Só ficamos cada vez mais deprimidos por não conseguir agir assim perante a vida, sempre.

Esse bombardeiro de otimismo tem a ver, na minha despretensiosa e parcial análise, com a lógica consumista. Nada genial, eu admito, talvez você já tenha pensado nisso, ou muitos outros... Mas então por que você e eu insistimos em adotar essa "filosofia" horrenda em nosso dia-a-dia? É possível que a lavagem cerebral esteja dando certo. Querer - Poder - Comprar - Esvaziar-se - Desejar - Não Poder - Endividar-se - Desesperar-se - Cobiçar - Forçar-se - Vender-se. Todas as etapas desse ciclo nefasto são entremeadas por mensagens "positivas", disparadas sem pudor em propagandas na televisão, no cinema, no jornal, no metrô, no ônibus, no outdoor (desse estamos, aqui em São Paulo, temporariamente livres, perdão, mas achei ótimo), na internet e sei lá onde mais, visto que, uma vez absorvidos, esses incentivos acabam sendo transmitidos de uma pessoa a outra, muitas vezes de maneira automática, impensada: "Ah, compra sim, amiga, dá pra pagar em 10 vezes no cartão...".

Ora, me deixe desistir, uma vez ou outra, se essa persistência constante e massacrante tanto sofrer me traz! Largue do meu pé! Alguém por acaso já se lembra de, um belo dia, com ou sem a vigilância dos pais, desistir de ir à escola após o toque inoportuno do despertador? Quer coisa melhor que ligar para o trabalho e, naquela falsidade que a gente se acostuma deliciosamente a desenvolver, falar que está doente e não ir? Não ir! Meu deus, como é simples! O poder terapêutico do ato de desistir, aliás, é tremendamente subestimado. Se vocês se lembram de momentos semelhantes aos que acabo de citar, imagine então desistir de encontrar aqueles amigos de namorada de amigos de terceiros que você não quer ver? Muito superficial? Então pense em se "esquecer" de ir... votar..! Sei, ainda está pouco pessoal... Veja, se já te passou pela cabeça que a idéia de escrever um livro é de jerico, NÃO ESCREVA! De que vai te servir prestar o vestibular mais concorrido do hemisfério, você não tem dinheiro para pagar cursinho e mesmo se conseguir passar, por milagre, ainda terá que terminar o curso, e quando o fizer, essa merda de diploma vai enfeitar, amarelembolorado, a parede de uma casa cujo aluguel, bom, você não desistiu de pagar, mas está realmente difícil. NÃO PRESTE! NÃO SE PRESTE!

Desistir é reconfortante. Uma decepção só acontece após uma tentativa, a frustração, a frustração latente de nossos tempos "otimistas". O que nos frustra é esse positivismo FALSO, pois se não estivesse tão encrustado na cuca que vencer é a única alternativa, não sentir-nos-íamos tão mal com uma simples derrota. E é aí que está a beleza de desistir. Mesmo que eu vá me contradizer no próximo parágrafo, a desistência é a vitória da derrota, é a antecipação de um futuro que não é nem será... Que ato reúne em si tamanha beleza paradoxal que não o de desistir? Porém, infelizmente, menosprezamos esses sentimentos que de tão pequenos passam despercebidos, mas quando se desiste de um esforço, útil ou inútil, relaxa-se os músculos, descansa-se os neurônios, respira-se fundo, antes de outra investida, nesse planeta de homens que investem, investem a favor de e contra si mesmos, sem nunca desistir de destruir e matar. Desistir da guerra talvez fosse o exemplo que faltava e, pensando bem, não é nada mal. Alguém lembra por aí de algum país que pode e DEVE desistir de meter seu exército onde nunca é chamado? Desistir de testar bombas nucleares em gente e inventar conflitos medonhos em lugarejos miseráveis? É, não sei...

Vejam bem, se não tentássemos nada seria mais fácil termos sido natimortos e não é por aí que caminha o meu idiótico divagar. Todos fazemos, todos tentamos, todos caímos e em raríssimas oportunidades sucedemos, ainda que grande parte de nossos sucessos sejam ilusórios ou até mesmo um pouco esquizofrênicos. Mas se esse diacho de livre-arbítrio é para valer, deixar uma empreitada de lado é parte de nossa toda-poderosa humanidade, é uma ação-não-ação, não é vitória nem derrota (desisti de não me contradizer), é um bem inerente, talvez até instinto de sobrevivência, e é justamente esse ato reflexivo (ou reflexão) que o "mercado", máquina monstruosa de opressão, nos quer arrancar do organismo, pois desistência é negação, negação é oposição, e oposição é sempre ruim para os negócios. Desistir é pensar de fato no que estamos a fazer, pois fazer não requer pensar, e isso nós sabemos e repetimos muito bem todos os dias, em nossa automação feliz. Aliás, se você pensasse no que faz, talvez já tivesse desistido de ler esse texto, na minha visão pessimista, ou pode ser que quem já desistiu de ler anteriormente e agora se dedica a outros afazeres esteja patologicamente acostumado a desistir e nunca desista de desistir, e isso é realmente uma desgraça desnecessária.

Sim, SIM, dizem sempre os otimizadores do mundo, naquele sorriso calculado que está no verso do livro mais vendido da prateleira mais visível da livraria mais popular do shopping mais freqüentado do bairro mais rico da cidade mais importante do país mais SUJO do mundo. Auto-ajudam-se escrevendo tamanhos excrementos, mas recebendo o peso desta nojeira em dinheiro gringo. Eu digo NÃO, e acho que escrever sobre o poder de desistir não exclui a possibilidade de tergiversar sobre a delícia de pronunciar esse nasal NÃO, mas eu já desisto de antemão de tal idéia. Auto-ajudem-se, se quiserem, e DESISTAM da obviedade cotidiana de persistir em erros seculares. Eu não quero aqui soar como os mesmos que ataco, preconizando o "faça, diga, pense..", portanto eu desisto de fazê-los desistir. Mas tenho certeza que há nessa maluquice toda aqui escrita uma vontade oculta de levar a psicoterapia à extinção. Se as pessoas desistissem mais, não precisariam se consultar com um profissional sobre suas insistências esquisitas, que as faz sentir perdidas no mundo. Não desista, caro Freud, de entender nossa mente já doente desde o Éden... mas, desde o incidente com a maçã, deus já desistiu de Adão.