A esperança não envelhece
mas sim quem a conserva
uma espécie de reservatório finito
Despeja-se no próximo incauto
preenche sua vida num minuto
a contar depois o tempo, grão a grão
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
0
nas costas de quem leva sonhos
é o peso da leveza que pesa
no pesar real da invenção
Que se imagine vidas eu entendo
que se as viva, não
e se nem a criação nos pertence
só respondo pela morte que terei
E os percalços, e os percalços
são idéias também, sim
como essa de escrever no encalço
dos estados desesperos
Sério demais se leva
quem nas costas te carrega
é só pular do sonho de leveza
e saber de uma vez só que nada pesa
E que belo vazio se abriu
domingo, 20 de janeiro de 2008
Relógio de Pulso
Nasceu dormindo, num domingo, e quase foi dado por morto, não fosse um pulso fraco, mas pulso, que lhe acometia. Às tantas foi acordado e aquela tal luz a que foi dado parecia a morte, dor pulsante, chorou de raiva, dormiu de susto. Em dado momento da existência infantil, por vezes injusta, ainda que dela, sob nostálgica luz, digam-se doces advérbios e adjetivos temporais, descobriu ser do sol distante aquele brilho, não invenção de seu pai, e de choque pulsaram-lhe as têmporas. Quando se ia, se dormia. Ah, se nos fosse dado mais tempo, morreríamos jovens, ora, não é o desejo geral? Ser jovem por um século e disso padecer, mas padecia o nosso jovem do medo de envelhecer. E assim o fazia, medrando tarde, madrugando cedo da curta e bem quista morte, trabalhava duro a vida, essa vida, talvez dádiva, talvez maldição, acontece que o mundo não lhe deixava escolher, e o impulso padrão era sofrer pela opção positiva, e aprendia a passar o dia a esquecer o dia-a-dia, para ver no fim do próximo, ou do mês, o ouro em seu bolso luzir. Que alegria, será que podia com isso comprar seu sonho dourado, seu prêmio aguardado, seu sono atrasado desde a concepção? Foi saber que não, sossego não tinha, enquanto não obtivesse o objeto mais novo, e subisse na empresa, empreitada, ganhasse respeito, mas subiam-lhe aos montes, nas costas, cabeça, às suas custas, macacos que fazem, faziam, executivos? Vai lá saber. Mas isso era bom, carpe diem, a propaganda dizia, a se apropriar da vigília, forçada, é verdade, do já não tão jovem, pela tática da repetição: um pulso, impulso, dois, latência, retorno, que lucro, que nada, que lástima. No fim desse túnel parecia nem haver centelha, mas no meio ardeu uma chama, quando venceu-o a paixão, e a ânsia de alimentá-la. Haja lenha, mas tempos felizes sem sono, por fim, quem diria, passava. Se empenhava em pulsar prazer e prover, a trazer todo dia pra casa o amor e seus frutos, quando então contraíram saúde e doença, ele e a Lúcia — até que a morte os separasse. Não precisou tanto, bastou convivência e o fogo se foi, por mais que nas brasas se cresse, mas nesse entremeio uns rostinhos brilharam, famintos gritaram, e ensinaram ao desjovem afeto, cuidado, tamanho que sono não havia, que vida, que vidas! Já quando essas graças partiram, à sorte ou azar, motores de igual propulsão, almejou retornar a dormir, relutante e sincero. Dúvida dada, passou a ver mundo enfadado, reclinado, de olhos semicerrados em frente à telinha mortal, destruidora de vistas, lares, globos oculares, irradiando luz e projetando sombras, silhuetas d'alma, sombrias e sós: paredão. E então que esse homem, recebendo o folclórico tapa traseiro tardio, ausente, de início, gritou em silêncio o rebento da idéia final. Havia dormido, o tempo passado, e o sono querido era a paz acordada, vivida a valer, que agora colhia, mesmo sem ser, um luto contente, e no entanto antecipado. Quis treva suave, que o sol falecesse em seu sono, e no dele, pulsando seu fim devagar no horizonte, dormindo, domingo.--
foto: A Nebulosa de Ampulheta, 8.000 anos-luz distante, tem uma espécie de cintura, em função dos “ventos estelares” que a formam serem mais débeis no centro.
--
Nova versão de "Da Música", gravada ontem
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Pobrico
Sou rico pro pobre
sou pobre pro rico
sou médio
e sinto uma culpa capital
Eu tenho uma inversa
inveja recíproca
destes que fogem
ao mundo experimental
E partem pra guerra
sem saber que acabou
e foi o pior que venceu
conquistam o pó que restou
Mas lutam!
Que beleza louvar a penúria!
E ao lado do outro...
contemplar o vazio
Tão rico em nada
maior seu valor
tão pobre em tudo
menor é seu preço
E um velho ditado que dá e recebe
sem nunca pedir ou oferecer
perde o encanto e sucumbe
a tudo que é imposto de graça
sou pobre pro rico
sou médio
e sinto uma culpa capital
Eu tenho uma inversa
inveja recíproca
destes que fogem
ao mundo experimental
E partem pra guerra
sem saber que acabou
e foi o pior que venceu
conquistam o pó que restou
Mas lutam!
Que beleza louvar a penúria!
E ao lado do outro...
contemplar o vazio
Tão rico em nada
maior seu valor
tão pobre em tudo
menor é seu preço
E um velho ditado que dá e recebe
sem nunca pedir ou oferecer
perde o encanto e sucumbe
a tudo que é imposto de graça
--
Eu e meu caro amigo Meu Nome é Carlos produzimos recentemente uma singela música de 70 minutos, 100% eletrônica, conjuntamente, chamada 001, mas com contribuições ligeiramente mais modestas da minha parte, já que esse mundo ainda é novidade para mim. Acabo de conhecer também esse tal Internet Archive, mas nesse caso é só clicar no retângulo cinza onde está escrito "CLICK TO START", o que explica muita coisa. Interessem-se!
www.archive.org/details/mnec_allanzi_001
domingo, 13 de janeiro de 2008
Egomentira (Saídas Virtuais)
me tiram de dentro
me levam a outro
me deixam de fora
Metáfora alguma
Me presto aos olhares
me fazem mostrar
meus sorrisos duros
medindo e só sempre
melindres amigos
Melhor inimigos
me sinto sozinho
me cospem discursos
me exibem saber, menosprezo
menor sociedade
me faço de ouvidos
medroso, me anulo
Me orgulho de nada!
Me entrego ao medíocre
mentindo memórias
me quero lá dentro
meus outros também
me encontro lá fora
me diz, é possível?
Mergulho saída
me enfio no sim
me sinto seguro
me concordo inteiro
me saio covarde
me agrado mesquinho
me tiram do sério!
Me quer de verdade?
Me sou virtual
me levam a outro
me deixam de fora
Metáfora alguma
Me presto aos olhares
me fazem mostrar
meus sorrisos duros
medindo e só sempre
melindres amigos
Melhor inimigos
me sinto sozinho
me cospem discursos
me exibem saber, menosprezo
menor sociedade
me faço de ouvidos
medroso, me anulo
Me orgulho de nada!
Me entrego ao medíocre
mentindo memórias
me quero lá dentro
meus outros também
me encontro lá fora
me diz, é possível?
Mergulho saída
me enfio no sim
me sinto seguro
me concordo inteiro
me saio covarde
me agrado mesquinho
me tiram do sério!
Me quer de verdade?
Me sou virtual
--
AllanZi - Virtual Exits
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
Falanãodiz
--
A Belle Zebou's é uma empresa de serviços diversos que atende orgulhosamente a comunidade há bem-vividos 25 anos, levando sempre o que existe de melhor neste mercado a seus clientes, respeitando sua inteligência e zelando sempre pelo conforto e satisfação máximos dos mesmos.
Sediada na cidade de São Paulo, terceira maior do mundo e o maior pólo econômico da América Latina, a Belle Zebou's estende por todo o Brasil sua prestigiada rede de escritórios comerciais, oferecendo, do Opiapoque ao Chuí, o mesmo alto padrão de qualidade em todos os seus ramos de atuação.
A recente inauguração de filiais em Buenos Aires, na Argentina, e em Santiago, no Chile, marcam o início de uma nova era de expansão e prosperidade da Belle Zebou's, e indica um prognóstico em que o céu é o limite: os próximos passos são Miami e Vancouver, nos EUA e Canadá, respectivamente.
Com uma preponderante visão de todo holística, valor inegável para uma instituição idônea, que tem na realização lúdico-empreendedora uma garantia de criatividade e qualidade agregadas a seus produtos, sempre com respeito máximo pelo gosto do cliente, a Belle Zebou's lança agora o projeto:
Com mais de 150 colaboradores trabalhando integralmente para sua existência, o Relife promove o bem-estar e a renovação da vida por meio de alternativas sustentáveis de reaproveitamento e reintegração de recursos/pessoas para a reabilitação de um estilo de vida mais digno, responsável e ecologicamente correto.
Além de preocupar-se constantemente com o planeta, a Belle Zebou's busca utilizar sempre tecnologia de ponta, o que transforma as dependências de todas as filiais da empresa em ambientes micro-customizados, e faz seus frequentadores respirarem inovação e segurança infra-estrutural.
É com grande felicidade que a Belle Zebou's espera recebê-lo (a) brevemente em um de nossos escritórios, que carinhosamente chamamos de casa, na esperança de fazer grandes negócios para gerar e gerir sorrisos em uma constante corrente de prosperidade para nossa sociedade, para esta e, com certeza, as gerações vindouras. Seja bem-vindo (a)!
--
Karmacoma - Massive Attack
A Belle Zebou's é uma empresa de serviços diversos que atende orgulhosamente a comunidade há bem-vividos 25 anos, levando sempre o que existe de melhor neste mercado a seus clientes, respeitando sua inteligência e zelando sempre pelo conforto e satisfação máximos dos mesmos.
Sediada na cidade de São Paulo, terceira maior do mundo e o maior pólo econômico da América Latina, a Belle Zebou's estende por todo o Brasil sua prestigiada rede de escritórios comerciais, oferecendo, do Opiapoque ao Chuí, o mesmo alto padrão de qualidade em todos os seus ramos de atuação.
A recente inauguração de filiais em Buenos Aires, na Argentina, e em Santiago, no Chile, marcam o início de uma nova era de expansão e prosperidade da Belle Zebou's, e indica um prognóstico em que o céu é o limite: os próximos passos são Miami e Vancouver, nos EUA e Canadá, respectivamente.
Com uma preponderante visão de todo holística, valor inegável para uma instituição idônea, que tem na realização lúdico-empreendedora uma garantia de criatividade e qualidade agregadas a seus produtos, sempre com respeito máximo pelo gosto do cliente, a Belle Zebou's lança agora o projeto:
RELIFE
o maior investimento em Responsabilidade Socioambiental já realizado na história.
Com mais de 150 colaboradores trabalhando integralmente para sua existência, o Relife promove o bem-estar e a renovação da vida por meio de alternativas sustentáveis de reaproveitamento e reintegração de recursos/pessoas para a reabilitação de um estilo de vida mais digno, responsável e ecologicamente correto.
Além de preocupar-se constantemente com o planeta, a Belle Zebou's busca utilizar sempre tecnologia de ponta, o que transforma as dependências de todas as filiais da empresa em ambientes micro-customizados, e faz seus frequentadores respirarem inovação e segurança infra-estrutural.
É com grande felicidade que a Belle Zebou's espera recebê-lo (a) brevemente em um de nossos escritórios, que carinhosamente chamamos de casa, na esperança de fazer grandes negócios para gerar e gerir sorrisos em uma constante corrente de prosperidade para nossa sociedade, para esta e, com certeza, as gerações vindouras. Seja bem-vindo (a)!
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Karmacoma - Massive Attack
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
Da beleza de desistir
Faça, apareça, queira, possa, aconteça, tenha, seja, vá mais longe, garanta, chegue mais perto, prepare, suba, corra, conquiste, arrisque, vença, supere, atire-se, alcance, ultrapasse, saia, entre, não deixe, ME DEIXE EM PAZ! Sei da falta de originalidade nessa enumeração, e não só não sou o primeiro a usá-la como é a segunda vez que o faço. Me desculpem, caros desleitores, mas eu desisti de criar um primeiro parágrafo ('lead', ou lide, como grunhem chatamente os jornalistas, algo que desisti de ser, também, há algum tempo) que fosse minimamente inovador. Talvez eu pudesse, sim, se eu quisesse alcançar tal objetivo. Mas eu desisti.Em uma sociedade violentamente positiva, beirando a histeria, com sua auto-extra-over-ajuda mequetrefe, desistir pode significar, talvez, iniciar outro empreendimento (só para ser um pouquinho positivo, vai), mas não necessariamente uma humilhante derrota. É uma honesta alternativa à impositiva tarefa de suceder sempre e em tudo! Quem aguenta ouvir a lista do parágrafo anterior todos os dias? Só ficamos cada vez mais deprimidos por não conseguir agir assim perante a vida, sempre.
Esse bombardeiro de otimismo tem a ver, na minha despretensiosa e parcial análise, com a lógica consumista. Nada genial, eu admito, talvez você já tenha pensado nisso, ou muitos outros... Mas então por que você e eu insistimos em adotar essa "filosofia" horrenda em nosso dia-a-dia? É possível que a lavagem cerebral esteja dando certo. Querer - Poder - Comprar - Esvaziar-se - Desejar - Não Poder - Endividar-se - Desesperar-se - Cobiçar - Forçar-se - Vender-se. Todas as etapas desse ciclo nefasto são entremeadas por mensagens "positivas", disparadas sem pudor em propagandas na televisão, no cinema, no jornal, no metrô, no ônibus, no outdoor (desse estamos, aqui em São Paulo, temporariamente livres, perdão, mas achei ótimo), na internet e sei lá onde mais, visto que, uma vez absorvidos, esses incentivos acabam sendo transmitidos de uma pessoa a outra, muitas vezes de maneira automática, impensada: "Ah, compra sim, amiga, dá pra pagar em 10 vezes no cartão...".
Ora, me deixe desistir, uma vez ou outra, se essa persistência constante e massacrante tanto sofrer me traz! Largue do meu pé! Alguém por acaso já se lembra de, um belo dia, com ou sem a vigilância dos pais, desistir de ir à escola após o toque inoportuno do despertador? Quer coisa melhor que ligar para o trabalho e, naquela falsidade que a gente se acostuma deliciosamente a desenvolver, falar que está doente e não ir? Não ir! Meu deus, como é simples! O poder terapêutico do ato de desistir, aliás, é tremendamente subestimado. Se vocês se lembram de momentos semelhantes aos que acabo de citar, imagine então desistir de encontrar aqueles amigos de namorada de amigos de terceiros que você não quer ver? Muito superficial? Então pense em se "esquecer" de ir... votar..! Sei, ainda está pouco pessoal... Veja, se já te passou pela cabeça que a idéia de escrever um livro é de jerico, NÃO ESCREVA! De que vai te servir prestar o vestibular mais concorrido do hemisfério, você não tem dinheiro para pagar cursinho e mesmo se conseguir passar, por milagre, ainda terá que terminar o curso, e quando o fizer, essa merda de diploma vai enfeitar, amarelembolorado, a parede de uma casa cujo aluguel, bom, você não desistiu de pagar, mas está realmente difícil. NÃO PRESTE! NÃO SE PRESTE!
Desistir é reconfortante. Uma decepção só acontece após uma tentativa, a frustração, a frustração latente de nossos tempos "otimistas". O que nos frustra é esse positivismo FALSO, pois se não estivesse tão encrustado na cuca que vencer é a única alternativa, não sentir-nos-íamos tão mal com uma simples derrota. E é aí que está a beleza de desistir. Mesmo que eu vá me contradizer no próximo parágrafo, a desistência é a vitória da derrota, é a antecipação de um futuro que não é nem será... Que ato reúne em si tamanha beleza paradoxal que não o de desistir? Porém, infelizmente, menosprezamos esses sentimentos que de tão pequenos passam despercebidos, mas quando se desiste de um esforço, útil ou inútil, relaxa-se os músculos, descansa-se os neurônios, respira-se fundo, antes de outra investida, nesse planeta de homens que investem, investem a favor de e contra si mesmos, sem nunca desistir de destruir e matar. Desistir da guerra talvez fosse o exemplo que faltava e, pensando bem, não é nada mal. Alguém lembra por aí de algum país que pode e DEVE desistir de meter seu exército onde nunca é chamado? Desistir de testar bombas nucleares em gente e inventar conflitos medonhos em lugarejos miseráveis? É, não sei...
Vejam bem, se não tentássemos nada seria mais fácil termos sido natimortos e não é por aí que caminha o meu idiótico divagar. Todos fazemos, todos tentamos, todos caímos e em raríssimas oportunidades sucedemos, ainda que grande parte de nossos sucessos sejam ilusórios ou até mesmo um pouco esquizofrênicos. Mas se esse diacho de livre-arbítrio é para valer, deixar uma empreitada de lado é parte de nossa toda-poderosa humanidade, é uma ação-não-ação, não é vitória nem derrota (desisti de não me contradizer), é um bem inerente, talvez até instinto de sobrevivência, e é justamente esse ato reflexivo (ou reflexão) que o "mercado", máquina monstruosa de opressão, nos quer arrancar do organismo, pois desistência é negação, negação é oposição, e oposição é sempre ruim para os negócios. Desistir é pensar de fato no que estamos a fazer, pois fazer não requer pensar, e isso nós sabemos e repetimos muito bem todos os dias, em nossa automação feliz. Aliás, se você pensasse no que faz, talvez já tivesse desistido de ler esse texto, na minha visão pessimista, ou pode ser que quem já desistiu de ler anteriormente e agora se dedica a outros afazeres esteja patologicamente acostumado a desistir e nunca desista de desistir, e isso é realmente uma desgraça desnecessária.
Sim, SIM, dizem sempre os otimizadores do mundo, naquele sorriso calculado que está no verso do livro mais vendido da prateleira mais visível da livraria mais popular do shopping mais freqüentado do bairro mais rico da cidade mais importante do país mais SUJO do mundo. Auto-ajudam-se escrevendo tamanhos excrementos, mas recebendo o peso desta nojeira em dinheiro gringo. Eu digo NÃO, e acho que escrever sobre o poder de desistir não exclui a possibilidade de tergiversar sobre a delícia de pronunciar esse nasal NÃO, mas eu já desisto de antemão de tal idéia. Auto-ajudem-se, se quiserem, e DESISTAM da obviedade cotidiana de persistir em erros seculares. Eu não quero aqui soar como os mesmos que ataco, preconizando o "faça, diga, pense..", portanto eu desisto de fazê-los desistir. Mas tenho certeza que há nessa maluquice toda aqui escrita uma vontade oculta de levar a psicoterapia à extinção. Se as pessoas desistissem mais, não precisariam se consultar com um profissional sobre suas insistências esquisitas, que as faz sentir perdidas no mundo. Não desista, caro Freud, de entender nossa mente já doente desde o Éden... mas, desde o incidente com a maçã, deus já desistiu de Adão.
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
O Dez Perfeito - Oráculo da Morte
Pintura de Hyeronimous Bosch (1450-1516). No site, o título atribuído é Green Hell, mas eu realmente não sei. http://www.artchive.com/artchive/b/bosch/tempt_c.jpg--
Nota-pretexto pré-textualmente concebida (sempre desnecessária): fui acordado pelo texto que segue às 7h da manhã do dia 19 de novembro de 2007, debaixo de uma das tempestades mais assustadoras dos últimos anos. Em meu devaneio, 19/09/2007 (é assim mesmo que está no manuscrito, apesar de ser o mês 11) somava 10, de alguma forma numerológica bizarra, o que explica o título não menos. Aprecie, se puder.
--
Nações valerão em ações o seu peso geográfico. De repente, tive a impressão ou mesmo visão de uma grande recontagem. O mundo não mais pode ser calculado como antes, sob a mesma matemática, as mesmas variantes, nada é como dantes. Uma diabólica (jagablântica, como na 'visão') bolha de dinheiro de metal sobre a qual flutuamos, de certa forma, ou até uma ou algumas imensas ampulhetas representando ou sendo o escoamento de toda nossa riqueza, tudo dividido agora em massas maiores, pedaços maiores, cifras maiores, em importâncias diferentes [relendo e relembrando a sensação, entendi o que eu queria dizer: é como se o molde, a idéia da quantia de 20.000.000, por exemplo, mudasse. Vinte milhões não cabem mais na lacuna a que essa importância pertence e se transfere a um bolo muito maior. Recontagem total]. Ou quem sabe uma hierarquia: 1 - América 2 - Europa 3 - Ásia ou Asiáfrica ou 4 - África 5 - Oceania ou 3 - Asiafricaustrália. Devidamente divididos pela grana incalculável que extrapola o tamanho físico das cidades, estados, países e continentes, vivemos sob novas regras em que velhas contas já não se aplicam a nada. Como se passássemos de uma lógica decimal a uma centesimal, como bem poderia ser uma milesimal ou assim por diante. Um salto nefasto na realidade gritante de um planeta-homem que finalmente mostra sua verdadeira e grotesca face, onde a sensação é não mais que a única de ser arrastado na pressão da enxurrada de valor digital, virtual, simbólico, mas nunca tão real, palpável, físico, uma torrente originada na mesma tempestade, a tempestade que inaugurou o dia de hoje, com relâmpagos e trovões horripilantes.
Que resta após esta delirante revelação? Que incentivo há em lutar contra a força descendente de milhões de milhões de grãos a passar pelo opressor gargalo da ampulheta do fim de tudo como conhecemos, o fim como desejamos, queremos e fizemos por merecer? Como resistir a desistir e chorar ajoelhado perante tal força? Como dormir após ser acordado com tamanha violência, após ir dormir sob tamanha violência das pálpebras a se fechar em rendição absoluta ao jugo do peso da obrigação de obrigar-se a viver? E viver seria tão somente existir, não tivéssemos a isso atribuído a maldição de fazer segundo a lógica do todo. Viver é fazer, trabalhar para merecer, competir para sobressair, escalar para atingir, subir para respirar, engalfinhar-se para existir, matar para resistir, ficar para testemunhar, escrever para documentar, dizer para ninguém ouvir, andar para ultrapassar, saber para dividir, olhar para segregar, comer para sentir, correr para se garantir, e bater, e bater, se debater no que o diabo chamaria de lar.
Sem olhar para, mirar para, sem saber para trás o já escrito, a visão aos poucos se dissipa. Mas nunca esqueceremos, eu e você, o terror dessa manhã. O terror repentino de ser esse nojo de ser... humano.
Senti-me na correnteza de grãos
e isso nunca vou esquecer
Todos se esquecem do conforto
e da beleza de desistir
[essa idéia renderá outro texto]
Tente e desista de algo hoje
abandone essa luta vã
E aprecie o espetáculo do fim
seja bem-vindo ao fim
Nos livros, nos filmes e novelas
a visão sempre faz sentido
Essa não
Tem gente que tem um olho que vê
E o meu hoje viu
Veja.
Terror feliz. Temor feliz. A existência de deus ou seu contrário? A existência de um ser em mim. A seqüência de mim, que ainda assim ainda me sou e saio. O fim.
--
Música que estou ouvindo inexplicavelmente repetidamente: Blur - Coffee and TV.
quinta-feira, 15 de novembro de 2007
Afroveitem! (colhido fresco)
Chamem como quiseremmas não se esqueçam
não se esqueçam
Amem quanto puderem
mas não se percam
não se percam
Riam quando brincarem
mas não ofendam
nem se ofendam
Peçam se carecerem
mas endureçam
endureçam
Façam como fizerem
mas não se esqueçam
não se esqueçam
[imagem: www.ism-sweden.org/page.php?category=6&id=140]
gueto
n substantivo masculino
1 na maioria das cidades européias, bairro onde todo judeu era obrigado a residir
2 Derivação: por extensão de sentido.
bairro de uma cidade onde vivem os membros de uma etnia ou outro grupo minoritário, freq. devido a injunções, pressões ou circunstâncias econômicas ou sociais
3 Derivação: por extensão de sentido.
todo estilo de vida ou tipo de existência resultante de tratamento discriminativo
Ex.:
etimologia: it. ghetto (1516) 'região onde, em algumas cidades, os judeus eram obrigados a morar', fig. 'ambiente fechado, não acessível'
Agora que já comecei com essa péssima, mas sempre útil idéia de utilizar o pai-dos-burros para explicar alguma coisa, gostaria de propor um pensamento, aliás um pensamento colhido fresco, pois o tive em um momento da manhã de hoje, acordei e escrevi.
A ocasião não poderia ser mais propícia: estamos em um dos feriados mais prolongados da história do Brasil, que culmina no Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Ouvi gente criticar a nomeação da data, dizendo que ela é mais discriminatória que lisonjeira e mais separa do que une. Mas, poucos dos que agora estão em mini-férias em uma dessas praias lotadas da vida estão reclamando, convenhamos, né?
Apesar do sentido dicionarial mostrado acima, entendemos gueto mais por seu uso estadunidense, em referência a bairros e regiões de tal país em que vivem, em maioria, pessoas de pele escura. Sim, escura, mas sei que até um espectro de cores pode ofender, em tempos de palavras comedidas quando referentes a minorias... Tentarei ser o mais respeitosamente falso possível.
Mas, no Brasil, o gueto é o negro ou o pobre? Se considerarmos que o pobre pode se considerar rico (espiritualmente? culturalmente?), é incorreto chamá-lo de pobre, politicamente incorreto. Mais adequado seria "financeiramente desprovido"... Esses desprovidos apenas financeiramente, mas cheios de riqueza popular, são um gueto de milhões. Aliás, são um gueto que é maioria em um país que tende a fechar os olhos para desigualdades.
Segundo este site (sei lá quais as outras milhares de fontes):
São 56,9 milhões de pobres no Brasil, sendo 24,7 milhões de pessoas na extrema pobreza. Quem são essas pessoas?
a) Crianças (mais de 50% das crianças com até 2 anos de idade são pobres);
b) Afrodescendentes (representam 45% da população total, mas 63% dos pobres e 70% dos indigentes);
c) Nordestinos ou moradores das regiões metropolitanas do Sudeste;
d) Membros de famílias chefiadas por adultos de baixa escolaridade; e
e) Membros de famílias chefiadas por trabalhadores autônomos ou por empregados sem carteira assinada.
• Aqueles que compõem o 1% mais rico da população brasileira controlam aproximadamente 10% do PIB nacional, a mesma proporção que é controlada pelos 50% mais pobres da população.
Acho que é o suficiente... Para mostrar, talvez, que, já que queremos tratar com palavras "adequadas" os nossos maiores e mais gritantes problemas, então eu proponho que se PARE de hiposcrisia ao chamar de gueto algo que de tão enorme só não vê quem é cego, deficiente visual ou visualmente desfavorecido...
Agora que nos EUA a cultura do gueto negro é dominante (no Brasil, alguém já ouviu falar de baile funk?), como chamar a cultura atribuída aos novos financeiramente ligeiramente menos abastados? Pois se uma cultura é retirada de seu lugar de origem e comercializada, um produto mesmo (fonográfico ruim, no caso), o que acontece no lugar de origem? Ou a pobreza é, neste momento, uma exclusividade dos culturalmente involuntariamente "não-obtenedores"? Sim, mesmo os não-pobres que não têm cultura agora são os realmente pobres... Será?
Ainda que essa música negra (calma) ou afrodescendente (!!!) seja adaptada aos ouvidos brancos... ops!.. euro-puro-similares, não se pode ignorar que hoje o gueto seja chique, mas no plano das idéias. O gueto é cada vez mais gueto na realidade prática, e o abismo não pára de crescer. Mas é fácil fingir-se interessado pelas condições sociais horríveis em que se encontra a maioria da população apenas pegando um traço cultural legitimamente popular e usando o PIOR dele, como a música fúnqui ou o hiphop americano que preconiza usar dinheiro para se limpar e tratar mulheres como objetos.
Faz sentido, já que antigamente ser preto, negro, ou afrofodido era ser escravo, por mais politicamente correto que seja esquecer tal fato, e ser pobre também o é... Mas como somos todos escravos voluntários de uma mesma máquina-maravilha-mercado (um dia inventam uma sigla-beleza como 'MMM'), então ser alegremente comandado é politicamente correto nessa lógica divertidamente ilusória, na qual basta inventar nomes eufemísticos para segregar respeitosamente.
Mas quem sou eu para falar? Apenas um afro-russo-pardameríndio-marrombranco-euro-brazuco-esportuga... Ai, ai... Vai ser foda quando quando a classe média brasileira se encher, ou melhor, se ofender por ser média, mediana, medíocre, pois além disso já é medrosa e maldita. Esses sobre-povo ou nata não-ralé, eu, tu, eles. Na minha opinião, somos apenas possuidores das maiores inutilidades domésticas já inventadas, felizes portadores de nada. Mas, daqui a um ou dois parágrafos eu volto a falar disso.
Então temos os brancos ex-colonizadores, burrodescendentes ou plutodependentes, os negros ex-escravos, afrofodidos ou de invisibilidade escura, os amerindiotas, esses não só invisíveis como inexistentes, os nordestinos (oh, meu deus, acabaram meus eufemismos e tucanismos estúpidos), esses que descendem dos branco-puros holandeses, que no entanto são tratados como bichos no sudeste no Brasil.
Opa, alguém falou em bichos? Não, espere. Eles são "seres-senscientes-não-humanos". Ah, faça-me o favor! Chega! Os animais não se importariam em ser chamados simplesmente de animais se apenas os tratássemos melhor... Mas... Não é esse então o problema?! A maneira como tratamos um ao outro? Terei eu descoberto a pólvora? Serei eu um ser superior (desculpem, não quero segregar ninguém) ao me preocupar em tratar bem as pessoas, animais e coisas, em vez de criar termos infelizes para dissimular uma preocupação?
Então, o preconceito só depende da terminologia adotada, mas é sempre correto acobertar nossa indecência ou politicar nossa correteza. É melhor apagar da memória o que é inoce-inofe-incapa-indesejável, não se misturar, não mencionar, não falar sobre e principalmente não ter nenhum contato físico com essa pobreza da qual temos nojo, mas que adoramos ver em filmes-polêmica, polefilmes, polelículas...
Me admira que as mulheres ainda sejam chamadas assim, ou os judeus, enfim, já que hoje toda minoria é protegida gramaticalmente sem querer ser, uma proteção-violência ignorante, em nome da propaganda, das vendas, das marcas. Eu posso ajudar as empresas inventando o "ser humano não-animal do sexo forte feminino votante e assalariado independente", vulgarmente mulher, ou o "grupo minoritário-majoritário mundial étnico-religioso-cultural israelo-referente", popularmente judeu. Ora, e quem não quer vender (enfiar, atochar) seus produtos para mulheres e judeus? E para as mulheres de judeus?! (Controle-se!)
Somos todos E SÓ fatias gordas, gostosas, deliciosas, prontas para consumir. É a mercadelícia da pluralidade desigual. Afroveitem!!!
--
http://rapidshare.com/files/69929490/AllanZi_-_Normal.mp3
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
AdlibildA
Uma tentativa livreoutra versificação de trovas
ou de truques criativos
que seja, que venha
ou se afaste
Sem participação da massa
ou espelho meu transverso
que ensejo, desgraça
essa criação divina
é terrena
E o pensamento preso
ou prensado contra cada estrofe
um espasmo voluntário
anti-gozo, sim
anti-heróico
Que decepção seria
se a mim só e só isso coubesse
se regozijando o ego
feiura, orgulho
o umbigo
E ao som me solto em metro
nesta semprisão bem construída
de escrever e sim
se entender-se é só o fim
começou
--
O novo cd do Radiohead foi lançado para venda pela internet, encomenda ou download, e o consumidor determina o preço que quer pagar. Se não acredita, visite o site. Eu comprei. A jogada é esperta, na minha opinião, pois desafia tanto a troca livre e gratuita de músicas quanto a megalomaníaca indústria fonográfica, e eles não deixam de ganhar o deles. Aqui tem uma das minhas preferidas. Pense o que quiser, faça o que quiser, hoje eu não quero mesmo me preocupar com você. E você?
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