segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Falanãodiz

Esta é uma foto de meu antigo posto de trabalho. Abaixo, o tipo de texto que eu produzia. Criei este agora há pouco, em menos de 10 minutos. Ainda não enferrujei. Será que o mundo ainda precisa dos meus serviços?

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A Belle Zebou's é uma empresa de serviços diversos que atende orgulhosamente a comunidade há bem-vividos 25 anos, levando sempre o que existe de melhor neste mercado a seus clientes, respeitando sua inteligência e zelando sempre pelo conforto e satisfação máximos dos mesmos.

Sediada na cidade de São Paulo, terceira maior do mundo e o maior pólo econômico da América Latina, a Belle Zebou's estende por todo o Brasil sua prestigiada rede de escritórios comerciais, oferecendo, do Opiapoque ao Chuí, o mesmo alto padrão de qualidade em todos os seus ramos de atuação.

A recente inauguração de filiais em Buenos Aires, na Argentina, e em Santiago, no Chile, marcam o início de uma nova era de expansão e prosperidade da Belle Zebou's, e indica um prognóstico em que o céu é o limite: os próximos passos são Miami e Vancouver, nos EUA e Canadá, respectivamente.

Com uma preponderante visão de todo holística, valor inegável para uma instituição idônea, que tem na realização lúdico-empreendedora uma garantia de criatividade e qualidade agregadas a seus produtos, sempre com respeito máximo pelo gosto do cliente, a Belle Zebou's lança agora o projeto:

RELIFE

o maior investimento em Responsabilidade Socioambiental já realizado na história.

Com mais de 150 colaboradores trabalhando integralmente para sua existência, o Relife promove o bem-estar e a renovação da vida por meio de alternativas sustentáveis de reaproveitamento e reintegração de recursos/pessoas para a reabilitação de um estilo de vida mais digno, responsável e ecologicamente correto.

Além de preocupar-se constantemente com o planeta, a Belle Zebou's busca utilizar sempre tecnologia de ponta, o que transforma as dependências de todas as filiais da empresa em ambientes micro-customizados, e faz seus frequentadores respirarem inovação e segurança infra-estrutural.

É com grande felicidade que a Belle Zebou's espera recebê-lo (a) brevemente em um de nossos escritórios, que carinhosamente chamamos de casa, na esperança de fazer grandes negócios para gerar e gerir sorrisos em uma constante corrente de prosperidade para nossa sociedade, para esta e, com certeza, as gerações vindouras. Seja bem-vindo (a)!

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Karmacoma - Massive Attack

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Da beleza de desistir

Faça, apareça, queira, possa, aconteça, tenha, seja, vá mais longe, garanta, chegue mais perto, prepare, suba, corra, conquiste, arrisque, vença, supere, atire-se, alcance, ultrapasse, saia, entre, não deixe, ME DEIXE EM PAZ! Sei da falta de originalidade nessa enumeração, e não só não sou o primeiro a usá-la como é a segunda vez que o faço. Me desculpem, caros desleitores, mas eu desisti de criar um primeiro parágrafo ('lead', ou lide, como grunhem chatamente os jornalistas, algo que desisti de ser, também, há algum tempo) que fosse minimamente inovador. Talvez eu pudesse, sim, se eu quisesse alcançar tal objetivo. Mas eu desisti.

Em uma sociedade violentamente positiva, beirando a histeria, com sua auto-extra-over-ajuda mequetrefe, desistir pode significar, talvez, iniciar outro empreendimento (só para ser um pouquinho positivo, vai), mas não necessariamente uma humilhante derrota. É uma honesta alternativa à impositiva tarefa de suceder sempre e em tudo! Quem aguenta ouvir a lista do parágrafo anterior todos os dias? Só ficamos cada vez mais deprimidos por não conseguir agir assim perante a vida, sempre.

Esse bombardeiro de otimismo tem a ver, na minha despretensiosa e parcial análise, com a lógica consumista. Nada genial, eu admito, talvez você já tenha pensado nisso, ou muitos outros... Mas então por que você e eu insistimos em adotar essa "filosofia" horrenda em nosso dia-a-dia? É possível que a lavagem cerebral esteja dando certo. Querer - Poder - Comprar - Esvaziar-se - Desejar - Não Poder - Endividar-se - Desesperar-se - Cobiçar - Forçar-se - Vender-se. Todas as etapas desse ciclo nefasto são entremeadas por mensagens "positivas", disparadas sem pudor em propagandas na televisão, no cinema, no jornal, no metrô, no ônibus, no outdoor (desse estamos, aqui em São Paulo, temporariamente livres, perdão, mas achei ótimo), na internet e sei lá onde mais, visto que, uma vez absorvidos, esses incentivos acabam sendo transmitidos de uma pessoa a outra, muitas vezes de maneira automática, impensada: "Ah, compra sim, amiga, dá pra pagar em 10 vezes no cartão...".

Ora, me deixe desistir, uma vez ou outra, se essa persistência constante e massacrante tanto sofrer me traz! Largue do meu pé! Alguém por acaso já se lembra de, um belo dia, com ou sem a vigilância dos pais, desistir de ir à escola após o toque inoportuno do despertador? Quer coisa melhor que ligar para o trabalho e, naquela falsidade que a gente se acostuma deliciosamente a desenvolver, falar que está doente e não ir? Não ir! Meu deus, como é simples! O poder terapêutico do ato de desistir, aliás, é tremendamente subestimado. Se vocês se lembram de momentos semelhantes aos que acabo de citar, imagine então desistir de encontrar aqueles amigos de namorada de amigos de terceiros que você não quer ver? Muito superficial? Então pense em se "esquecer" de ir... votar..! Sei, ainda está pouco pessoal... Veja, se já te passou pela cabeça que a idéia de escrever um livro é de jerico, NÃO ESCREVA! De que vai te servir prestar o vestibular mais concorrido do hemisfério, você não tem dinheiro para pagar cursinho e mesmo se conseguir passar, por milagre, ainda terá que terminar o curso, e quando o fizer, essa merda de diploma vai enfeitar, amarelembolorado, a parede de uma casa cujo aluguel, bom, você não desistiu de pagar, mas está realmente difícil. NÃO PRESTE! NÃO SE PRESTE!

Desistir é reconfortante. Uma decepção só acontece após uma tentativa, a frustração, a frustração latente de nossos tempos "otimistas". O que nos frustra é esse positivismo FALSO, pois se não estivesse tão encrustado na cuca que vencer é a única alternativa, não sentir-nos-íamos tão mal com uma simples derrota. E é aí que está a beleza de desistir. Mesmo que eu vá me contradizer no próximo parágrafo, a desistência é a vitória da derrota, é a antecipação de um futuro que não é nem será... Que ato reúne em si tamanha beleza paradoxal que não o de desistir? Porém, infelizmente, menosprezamos esses sentimentos que de tão pequenos passam despercebidos, mas quando se desiste de um esforço, útil ou inútil, relaxa-se os músculos, descansa-se os neurônios, respira-se fundo, antes de outra investida, nesse planeta de homens que investem, investem a favor de e contra si mesmos, sem nunca desistir de destruir e matar. Desistir da guerra talvez fosse o exemplo que faltava e, pensando bem, não é nada mal. Alguém lembra por aí de algum país que pode e DEVE desistir de meter seu exército onde nunca é chamado? Desistir de testar bombas nucleares em gente e inventar conflitos medonhos em lugarejos miseráveis? É, não sei...

Vejam bem, se não tentássemos nada seria mais fácil termos sido natimortos e não é por aí que caminha o meu idiótico divagar. Todos fazemos, todos tentamos, todos caímos e em raríssimas oportunidades sucedemos, ainda que grande parte de nossos sucessos sejam ilusórios ou até mesmo um pouco esquizofrênicos. Mas se esse diacho de livre-arbítrio é para valer, deixar uma empreitada de lado é parte de nossa toda-poderosa humanidade, é uma ação-não-ação, não é vitória nem derrota (desisti de não me contradizer), é um bem inerente, talvez até instinto de sobrevivência, e é justamente esse ato reflexivo (ou reflexão) que o "mercado", máquina monstruosa de opressão, nos quer arrancar do organismo, pois desistência é negação, negação é oposição, e oposição é sempre ruim para os negócios. Desistir é pensar de fato no que estamos a fazer, pois fazer não requer pensar, e isso nós sabemos e repetimos muito bem todos os dias, em nossa automação feliz. Aliás, se você pensasse no que faz, talvez já tivesse desistido de ler esse texto, na minha visão pessimista, ou pode ser que quem já desistiu de ler anteriormente e agora se dedica a outros afazeres esteja patologicamente acostumado a desistir e nunca desista de desistir, e isso é realmente uma desgraça desnecessária.

Sim, SIM, dizem sempre os otimizadores do mundo, naquele sorriso calculado que está no verso do livro mais vendido da prateleira mais visível da livraria mais popular do shopping mais freqüentado do bairro mais rico da cidade mais importante do país mais SUJO do mundo. Auto-ajudam-se escrevendo tamanhos excrementos, mas recebendo o peso desta nojeira em dinheiro gringo. Eu digo NÃO, e acho que escrever sobre o poder de desistir não exclui a possibilidade de tergiversar sobre a delícia de pronunciar esse nasal NÃO, mas eu já desisto de antemão de tal idéia. Auto-ajudem-se, se quiserem, e DESISTAM da obviedade cotidiana de persistir em erros seculares. Eu não quero aqui soar como os mesmos que ataco, preconizando o "faça, diga, pense..", portanto eu desisto de fazê-los desistir. Mas tenho certeza que há nessa maluquice toda aqui escrita uma vontade oculta de levar a psicoterapia à extinção. Se as pessoas desistissem mais, não precisariam se consultar com um profissional sobre suas insistências esquisitas, que as faz sentir perdidas no mundo. Não desista, caro Freud, de entender nossa mente já doente desde o Éden... mas, desde o incidente com a maçã, deus já desistiu de Adão.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O Dez Perfeito - Oráculo da Morte

Pintura de Hyeronimous Bosch (1450-1516). No site, o título atribuído é Green Hell, mas eu realmente não sei. http://www.artchive.com/artchive/b/bosch/tempt_c.jpg

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Nota-pretexto pré-textualmente concebida (sempre desnecessária): fui acordado pelo texto que segue às 7h da manhã do dia 19 de novembro de 2007, debaixo de uma das tempestades mais assustadoras dos últimos anos. Em meu devaneio, 19/09/2007 (é assim mesmo que está no manuscrito, apesar de ser o mês 11) somava 10, de alguma forma numerológica bizarra, o que explica o título não menos. Aprecie, se puder.

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Nações valerão em ações o seu peso geográfico. De repente, tive a impressão ou mesmo visão de uma grande recontagem. O mundo não mais pode ser calculado como antes, sob a mesma matemática, as mesmas variantes, nada é como dantes. Uma diabólica (jagablântica, como na 'visão') bolha de dinheiro de metal sobre a qual flutuamos, de certa forma, ou até uma ou algumas imensas ampulhetas representando ou sendo o escoamento de toda nossa riqueza, tudo dividido agora em massas maiores, pedaços maiores, cifras maiores, em importâncias diferentes [relendo e relembrando a sensação, entendi o que eu queria dizer: é como se o molde, a idéia da quantia de 20.000.000, por exemplo, mudasse. Vinte milhões não cabem mais na lacuna a que essa importância pertence e se transfere a um bolo muito maior. Recontagem total]. Ou quem sabe uma hierarquia: 1 - América 2 - Europa 3 - Ásia ou Asiáfrica ou 4 - África 5 - Oceania ou 3 - Asiafricaustrália. Devidamente divididos pela grana incalculável que extrapola o tamanho físico das cidades, estados, países e continentes, vivemos sob novas regras em que velhas contas já não se aplicam a nada. Como se passássemos de uma lógica decimal a uma centesimal, como bem poderia ser uma milesimal ou assim por diante. Um salto nefasto na realidade gritante de um planeta-homem que finalmente mostra sua verdadeira e grotesca face, onde a sensação é não mais que a única de ser arrastado na pressão da enxurrada de valor digital, virtual, simbólico, mas nunca tão real, palpável, físico, uma torrente originada na mesma tempestade, a tempestade que inaugurou o dia de hoje, com relâmpagos e trovões horripilantes.

Que resta após esta delirante revelação? Que incentivo há em lutar contra a força descendente de milhões de milhões de grãos a passar pelo opressor gargalo da ampulheta do fim de tudo como conhecemos, o fim como desejamos, queremos e fizemos por merecer? Como resistir a desistir e chorar ajoelhado perante tal força? Como dormir após ser acordado com tamanha violência, após ir dormir sob tamanha violência das pálpebras a se fechar em rendição absoluta ao jugo do peso da obrigação de obrigar-se a viver? E viver seria tão somente existir, não tivéssemos a isso atribuído a maldição de fazer segundo a lógica do todo. Viver é fazer, trabalhar para merecer, competir para sobressair, escalar para atingir, subir para respirar, engalfinhar-se para existir, matar para resistir, ficar para testemunhar, escrever para documentar, dizer para ninguém ouvir, andar para ultrapassar, saber para dividir, olhar para segregar, comer para sentir, correr para se garantir, e bater, e bater, se debater no que o diabo chamaria de lar.

Sem olhar para, mirar para, sem saber para trás o já escrito, a visão aos poucos se dissipa. Mas nunca esqueceremos, eu e você, o terror dessa manhã. O terror repentino de ser esse nojo de ser... humano.

Senti-me na correnteza de grãos
e isso nunca vou esquecer

Todos se esquecem do conforto
e da beleza de desistir
[essa idéia renderá outro texto]

Tente e desista de algo hoje
abandone essa luta vã

E aprecie o espetáculo do fim
seja bem-vindo ao fim

Nos livros, nos filmes e novelas
a visão sempre faz sentido

Essa não

Tem gente que tem um olho que vê
E o meu hoje viu
Veja.

Terror feliz. Temor feliz. A existência de deus ou seu contrário? A existência de um ser em mim. A seqüência de mim, que ainda assim ainda me sou e saio. O fim.

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Música que estou ouvindo inexplicavelmente repetidamente: Blur - Coffee and TV.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Afroveitem! (colhido fresco)

Chamem como quiserem
mas não se esqueçam
não se esqueçam

Amem quanto puderem
mas não se percam
não se percam

Riam quando brincarem
mas não ofendam
nem se ofendam

Peçam se carecerem
mas endureçam
endureçam

Façam como fizerem
mas não se esqueçam
não se esqueçam

[imagem: www.ism-sweden.org/page.php?category=6&id=140]

gueto

n substantivo masculino
1 na maioria das cidades européias, bairro onde todo judeu era obrigado a residir
2 Derivação: por extensão de sentido.
bairro de uma cidade onde vivem os membros de uma etnia ou outro grupo minoritário, freq. devido a injunções, pressões ou circunstâncias econômicas ou sociais
3 Derivação: por extensão de sentido.
todo estilo de vida ou tipo de existência resultante de tratamento discriminativo
Ex.:

etimologia: it. ghetto (1516) 'região onde, em algumas cidades, os judeus eram obrigados a morar', fig. 'ambiente fechado, não acessível'

Agora que já comecei com essa péssima, mas sempre útil idéia de utilizar o pai-dos-burros para explicar alguma coisa, gostaria de propor um pensamento, aliás um pensamento colhido fresco, pois o tive em um momento da manhã de hoje, acordei e escrevi.

A ocasião não poderia ser mais propícia: estamos em um dos feriados mais prolongados da história do Brasil, que culmina no Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Ouvi gente criticar a nomeação da data, dizendo que ela é mais discriminatória que lisonjeira e mais separa do que une. Mas, poucos dos que agora estão em mini-férias em uma dessas praias lotadas da vida estão reclamando, convenhamos, né?

Apesar do sentido dicionarial mostrado acima, entendemos gueto mais por seu uso estadunidense, em referência a bairros e regiões de tal país em que vivem, em maioria, pessoas de pele escura. Sim, escura, mas sei que até um espectro de cores pode ofender, em tempos de palavras comedidas quando referentes a minorias... Tentarei ser o mais respeitosamente falso possível.

Mas, no Brasil, o gueto é o negro ou o pobre? Se considerarmos que o pobre pode se considerar rico (espiritualmente? culturalmente?), é incorreto chamá-lo de pobre, politicamente incorreto. Mais adequado seria "financeiramente desprovido"... Esses desprovidos apenas financeiramente, mas cheios de riqueza popular, são um gueto de milhões. Aliás, são um gueto que é maioria em um país que tende a fechar os olhos para desigualdades.

Segundo este site (sei lá quais as outras milhares de fontes):

São 56,9 milhões de pobres no Brasil, sendo 24,7 milhões de pessoas na extrema pobreza. Quem são essas pessoas?

a) Crianças (mais de 50% das crianças com até 2 anos de idade são pobres);
b) Afrodescendentes (representam 45% da população total, mas 63% dos pobres e 70% dos indigentes);
c) Nordestinos ou moradores das regiões metropolitanas do Sudeste;
d) Membros de famílias chefiadas por adultos de baixa escolaridade; e
e) Membros de famílias chefiadas por trabalhadores autônomos ou por empregados sem carteira assinada.

• Aqueles que compõem o 1% mais rico da população brasileira controlam aproximadamente 10% do PIB nacional, a mesma proporção que é controlada pelos 50% mais pobres da população.

Acho que é o suficiente... Para mostrar, talvez, que, já que queremos tratar com palavras "adequadas" os nossos maiores e mais gritantes problemas, então eu proponho que se PARE de hiposcrisia ao chamar de gueto algo que de tão enorme só não vê quem é cego, deficiente visual ou visualmente desfavorecido...

Agora que nos EUA a cultura do gueto negro é dominante (no Brasil, alguém já ouviu falar de baile funk?), como chamar a cultura atribuída aos novos financeiramente ligeiramente menos abastados? Pois se uma cultura é retirada de seu lugar de origem e comercializada, um produto mesmo (fonográfico ruim, no caso), o que acontece no lugar de origem? Ou a pobreza é, neste momento, uma exclusividade dos culturalmente involuntariamente "não-obtenedores"? Sim, mesmo os não-pobres que não têm cultura agora são os realmente pobres... Será?

Ainda que essa música negra (calma) ou afrodescendente (!!!) seja adaptada aos ouvidos brancos... ops!.. euro-puro-similares, não se pode ignorar que hoje o gueto seja chique, mas no plano das idéias. O gueto é cada vez mais gueto na realidade prática, e o abismo não pára de crescer. Mas é fácil fingir-se interessado pelas condições sociais horríveis em que se encontra a maioria da população apenas pegando um traço cultural legitimamente popular e usando o PIOR dele, como a música fúnqui ou o hiphop americano que preconiza usar dinheiro para se limpar e tratar mulheres como objetos.

Faz sentido, já que antigamente ser preto, negro, ou afrofodido era ser escravo, por mais politicamente correto que seja esquecer tal fato, e ser pobre também o é... Mas como somos todos escravos voluntários de uma mesma máquina-maravilha-mercado (um dia inventam uma sigla-beleza como 'MMM'), então ser alegremente comandado é politicamente correto nessa lógica divertidamente ilusória, na qual basta inventar nomes eufemísticos para segregar respeitosamente.

Mas quem sou eu para falar? Apenas um afro-russo-pardameríndio-marrombranco-euro-brazuco-esportuga... Ai, ai... Vai ser foda quando quando a classe média brasileira se encher, ou melhor, se ofender por ser média, mediana, medíocre, pois além disso já é medrosa e maldita. Esses sobre-povo ou nata não-ralé, eu, tu, eles. Na minha opinião, somos apenas possuidores das maiores inutilidades domésticas já inventadas, felizes portadores de nada. Mas, daqui a um ou dois parágrafos eu volto a falar disso.

Então temos os brancos ex-colonizadores, burrodescendentes ou plutodependentes, os negros ex-escravos, afrofodidos ou de invisibilidade escura, os amerindiotas, esses não só invisíveis como inexistentes, os nordestinos (oh, meu deus, acabaram meus eufemismos e tucanismos estúpidos), esses que descendem dos branco-puros holandeses, que no entanto são tratados como bichos no sudeste no Brasil.

Opa, alguém falou em bichos? Não, espere. Eles são "seres-senscientes-não-humanos". Ah, faça-me o favor! Chega! Os animais não se importariam em ser chamados simplesmente de animais se apenas os tratássemos melhor... Mas... Não é esse então o problema?! A maneira como tratamos um ao outro? Terei eu descoberto a pólvora? Serei eu um ser superior (desculpem, não quero segregar ninguém) ao me preocupar em tratar bem as pessoas, animais e coisas, em vez de criar termos infelizes para dissimular uma preocupação?

Então, o preconceito só depende da terminologia adotada, mas é sempre correto acobertar nossa indecência ou politicar nossa correteza. É melhor apagar da memória o que é inoce-inofe-incapa-indesejável, não se misturar, não mencionar, não falar sobre e principalmente não ter nenhum contato físico com essa pobreza da qual temos nojo, mas que adoramos ver em filmes-polêmica, polefilmes, polelículas...

Me admira que as mulheres ainda sejam chamadas assim, ou os judeus, enfim, já que hoje toda minoria é protegida gramaticalmente sem querer ser, uma proteção-violência ignorante, em nome da propaganda, das vendas, das marcas. Eu posso ajudar as empresas inventando o "ser humano não-animal do sexo forte feminino votante e assalariado independente", vulgarmente mulher, ou o "grupo minoritário-majoritário mundial étnico-religioso-cultural israelo-referente", popularmente judeu. Ora, e quem não quer vender (enfiar, atochar) seus produtos para mulheres e judeus? E para as mulheres de judeus?! (Controle-se!)

Somos todos E SÓ fatias gordas, gostosas, deliciosas, prontas para consumir. É a mercadelícia da pluralidade desigual. Afroveitem!!!

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http://rapidshare.com/files/69929490/AllanZi_-_Normal.mp3

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

AdlibildA

Uma tentativa livre
outra versificação de trovas
ou de truques criativos
que seja, que venha
ou se afaste

Sem participação da massa
ou espelho meu transverso
que ensejo, desgraça
essa criação divina
é terrena

E o pensamento preso
ou prensado contra cada estrofe
um espasmo voluntário
anti-gozo, sim
anti-heróico

Que decepção seria
se a mim só e só isso coubesse
se regozijando o ego
feiura, orgulho
o umbigo

E ao som me solto em metro
nesta semprisão bem construída
de escrever e sim
se entender-se é só o fim
começou

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O novo cd do Radiohead foi lançado para venda pela internet, encomenda ou download, e o consumidor determina o preço que quer pagar. Se não acredita, visite o site. Eu comprei. A jogada é esperta, na minha opinião, pois desafia tanto a troca livre e gratuita de músicas quanto a megalomaníaca indústria fonográfica, e eles não deixam de ganhar o deles. Aqui tem uma das minhas preferidas. Pense o que quiser, faça o que quiser, hoje eu não quero mesmo me preocupar com você. E você?

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Sem eutanásia para o Papa

Texto de 5/4/2005 escrito por mim para o blog jornalismado.blogspot.com.

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Se fôssemos católicos mexicanos (por que não?), estaríamos comemorando a morte do Papa. Explico: nesta cultura, a morte é tratada com festa, como uma celebração à vida do ente que acaba de deixá-la. Deixá-la, diga-se, nos corações e nas mentes de quem o conheceu, para deixar também seu legado, sua sabedoria, sua velhice.

Essa relação é resultado de uma tradição herdada dos povos nativos que viviam no país antes da chegada dos europeus. Os nahua, os otomi, os purepecha e os totonac, povos pertencentes às civilizações maia e asteca, acreditavam que uma vez por ano, no Dia de Finados, os mortos vinham visitar os vivos. Isso provaria, na concepção deles, que os mortos viviam em um mundo paralelo bastante semelhante ao dos vivos e que era perfeitamente possível o contato entre os dois. Na cultura desses antepassados, a crença era motivo de festa. E essa tradição permanece até hoje entre os mexicanos. Música, decoração especial e o melhor da culinária local fazem parte da comemoração. Nas casas, costuma-se armar um altar em homenagem aos falecidos. Mas a tristeza passa longe.

Um povo que lida bem com a morte, vive melhor. No entanto, aqui por estas bandas, aqui no quintalzinho dos States, medo. Cá como lá e na velha "mãe" Europa. Um luto medroso pela morte da americana Terri Schiavo, porém tímido e fugaz, e um luto apavorado e grandioso diante da figura esbranquiçada daquele que tão bem lutou contra a pecaminosa liberdade.

No caso de Schiavo, o que sentimos foi a dor de um rosto inexpressivo, que nos é indolor, ao mesmo tempo. É uma dor que não pode mais distribuir sorrisos falsos, sinais de positivo para as câmeras, posar com o presidente intrometido para fotos de agências de notícias pasteurizadas. É a dor da morte sem máscara, sem o filtro da ciência que tudo pode, tudo conserta, tudo limpa. Morte da qual não se pode fugir, o que é tão natural. Morte, e nada mais.

Crescente medo da morte, um irracional pavor do fim das coisas, como se acordássemos todos do torpor tecnológico que nos faz (nós, seres virtuais internéticos) parecer eternos. Estranhamos a velhice como uma doença incurável. Doença não é. E a cura, não há Bill Gates que encontre. Como os republicanos dos EUA no caso Terri, queremos fazer da morte um pecado. Como os democratas dos EUA, deixamos a morte morrer de fome, como se não fizesse parte de nós, e achamos assim que ela irá embora, sem peso na consciência por tamanha crueldade.

Uma semana curta para tanta choradeira. E continuamos a ignorar o fundamentalismo explícito em ambas as situações: a morte lenta de Schiavo, o triunfo do moralismo com que os EUA governam a si próprios e estendem para o resto do mundo com seus dedos elásticos. A morte do Papa, o triunfo de uma das maiores e mais bem sucedidas jogadas de marketing (todo seu papado) já feitas pela Igreja desde sua fundação, uma insituição que consegue se manter como a mais antiga nesta aura mística e dourada e abrir caminho pelos anos 2000 com sua cúpula pontiaguda.

O que não se percebe é que a lenta morte do Papa (desde que ele começou a morrer por aí na televisão e nos jornais), que durou anos, foi o rápido renascimento do fundamentalismo religioso romano. Vejam que não há Cristo na Igreja Católica Apostólica Romana. E nossa Roma tecno-bélica agradece: impede a morte natural para impor a morte matemática e numérica no Iraque, como se ao presidente do mundo coubesse decidir os destinos de todos, como se fosse... Quem? E a eutanásia quem quer é o povo, mas nem isso pode.

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Baixem música de graça: Sonolento, do AllanZi que vos des-fala. Canção (mp3) e letra (txt).

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Sombras: uma análise física que vai à meta

Amigos, irmãos, parceiros de mais esta jornada, vida, existência!

Hoje, sob a luz da física e da metafísica, falarei um pouco sobre sombras. Sim, sob um foco de luz, afinal, sem luz não há sombras, apesar das sombras serem, de certa forma, a ausência de luz. Vamos iluminar esse pensamento.

Começarei por onde nossa razão foi levada escolarmente a equacionar, pela Física Clássica. Na definição da física, sombra seria a região de um espaço em que nenhum raio luminoso proveniente de uma fonte chega, devido à presença de determinado obstáculo. Quem nunca ficou olhando a própria sombra projetada pelo Sol no chão, na parede, ou em qualquer ser próximo a nós? Quem já olhou, deve então ter percebido que a nossa sombra nada mais é do que uma projeção sem luz de nós mesmos.

Tomando a fonte de luz como aquilo que ilumina o nosso próprio ser, o obstáculo como o nosso próprio ser, e a sombra como a projeção sem luz de nosso próprio ser, pergunto: O que seria a fonte que nos ilumina? Tudo aquilo que realmente nos motiva, nos dá ânimo pra prosseguir, dia após dia, nosso ideal de felicidade, que pode ser um outro ser e/ou um objetivo. Somos nós um obstáculo? Oferecemos resistência à luz de outros seres e/ou de nossos objetivos? Respondam vocês mesmos. A presença das sombras em nossas vidas e cotidianos é inevitável? Equacionarei essa questão com base na Física de Aristóteles, a física do imaterial, voltando ao tempo para ir além, usando a Metafísica (em grego, metha = depois, além).

Se na presença da fonte luminosa somos um obstáculo à luz emanada, realmente as sombras são inevitáveis. Porém, existe um fato que devo lembrar a todos: só é possível observar a presença da própria sombra se desviamos o nosso objetivo da fonte luminosa! Só vemos a nossa própria sombra com a nossa fonte de luz à frente, e nosso olhar para trás! Ou seja, ao observarmos a nossa própria sombra, estamos fora de nossos focos, caminhos e direções, que rumam em busca da nossa realização.

Examinemos, com base no que foi concluído, as sombras que estão ao redor, as diversas projeções sem luz que nos cercam. Quais delas são nossas e quais delas não são? Todo o sombrio externo observado vem de seres fora de seus próprios caminhos, ou estão simplesmente englobados em nossas próprias escuras projeções?

Para terminar com esse papo obscuro, quero dizer que não somos eternos obstáculos à luz. Nem que o somos a todo instante. Em minha caminhada pela (meta)física, constatei que o objeto que é um obstáculo parcial à luz, ou seja, uma espécie de segundo estágio em relação ao anterior, é o objeto denominado translúcido. Então, queridos semelhantes, se sombras lhe atrapalham o caminho, não percam seus focos e busquem a translucidez.... trans-lucidez!!!

L.H.M.
Namastê

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Como já é de praxe, o intrometido do descriador do blog vai dar o seu pitaco no texto do amigo autor não-tão-anônimo. Mas, como também é costumeiro, a idéia é somar, pois suponho que adquirir conhecimento faça parte da meta de nossos caros não-leitores... Portanto, sugiro complementar essa leitura com esta referência wiki (isso é clicável) sobre o Mito da Caverna, de Platão. Apreciador de e desentendedor que sou em filosofia, creio que isso possa lançar uma luz sobre a questão da projeção de sombras, e não só no universo espiritual, físico e metafísico, como também no político. É só refletir, luzir, reluzir e transluzir. A imagem que usei para ilustrar o texto é uma das milhares de alegorias feitas do tal Mito. Deixo aqui também um link (linklique) para uma música de minha autoria chamada "Da Música", que, vai saber, pode amarrar bem tudo isso auditivamente.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Vagabalho Trabalhundo - Gênese

Mais um entre tantos. Um blog substantivado do inglês eletrônico. Postem, meus amigos, postem esses verbos esquisitos, brancos ou cor creme-pc, ou deleitar-me-ei no delete com requintes sádicos de dedos-falos, poder de teclas. Teclo. E só não troco tudo por isso, só não cobro de vocês a minha conta, porque é virtual. E só não é virtuoso porque vício inverso é em versos luxo. Palavra versus número e eis que o Algarismo palavrou: "Faça-se o verbo!" - e o blog se fez, como zero entre uns.

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Texto escrito por mim em 24.03.05, tirado de um antigo blog mantido por colegas de faculdade: jornalismado.blogspot.com. Postarei mais um texto oriundo deste.

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Música do dia: AllanZi - Late Worker. Clique no link, depois no botão "FREE". Complete a verificação pedida e dáumlôudi! Essa é a última vez que vou explicar, sei lá porquê. E também será a primeira e última vez que digo que se ninguém baixar o arquivo se esvai, como vapor... puf... portanto baixem!

domingo, 30 de setembro de 2007

Morte em vida merecida

As contribuições de amigos começam a acontecer. Agora, além de não-leitores, tenho outros não-autores para blogar comigo. O título e imagem são de minha humilde escolha para o texto de meu amigo L.H.M. Esta última, uma pintura de Hieronymus Bosch (1450-1516) - A Morte e o Avarento (c. 1490).

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Amigos, irmãos, parceiros de mais esta jornada, vida, existência!

Venho por meio desta lhes apresentar uma grande amiga minha, a Morte! Sim, a nefasta, a imperdoável, a maldita que tanto nos faz ou fez sofrer. Eu sei que vocês também a conhecem, mas apresentarei quem ela tem se mostrado ser, realmente, a mim.

Nascemos com a única certeza de que, no fim, é ela que vamos encontrar. Visto isso, nos higienizamos, nos alimentamos, cuidamos da nossa saúde, nos poupamos de situações perigosas e escutamos conselhos dos mais experientes. Pois é, apenas pela sua futura presença, tentamos postergar ao máximo este encontro, nos forçando a fazer coisas às quais, com uma eventual certeza da eternidade, não daríamos a mínima importância.

Porém, a sua função não reside apenas nesse “aviso” da brevidade da nossa passagem. Se perdemos este medo, e solicitamos sua ação durante a vida, veremos que não pode haver melhor companhia. Cotidiano tedioso, metas inalcançáveis, amores platônicos, desejos, desejos e mais desejos. Por aquilo que vemos como desagradável, ou como algo essencial que ainda não temos, tornamos nossas vidas um mar de frustrações, culminando em vícios, hostilidades, tristezas, doenças, enfim, uma verdadeira propagação da nossa insatisfação interna. É aí a hora de recorrer à nossa amiga Morte... Suicídio??? Longe disso!!!

Não morremos apenas fisicamente junto dessa nossa máquina biológica de anos-luz à frente, mas morremos ao matar conceitos, teorias, pensamentos, desejos, vícios, necessidades, todas elas arquitetadas por nosso Ego, agindo em busca daquele bendito sentimento de felicidade/satisfação. Sim, matemos os meios pelo qual nosso Ego escolheu trilhar a busca do que realmente é essencial. Somos os únicos algozes dessa vitimada vida que levamos.

Por isso, digo a vocês que não tenham medo da Morte! Morram! Morram a cada instante! Não há tristeza, tédio, ou qualquer tipo de dependência que suporte isso! Morram! Morram a cada instante, a cada minuto, a cada segundo! Morram! Morram, que a Vida sorrirá cada vez mais perante nossa existência! Morram! Morram, que a sublime sensação eterna se fará cada vez mais presente dentro de vocês!

L.H.M.
Namastê

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Comecébrio (Semimbriaguismo)

Ninguém admite estar bêbado num copo
de cerveja, pode ser, mas alguém mente
se se diz não sentir leves as idéias
ou dançar com olhos-vídros pela luz

Poucos lembram que este sinto em tudo está
nas menores e piores circunstâncias
este semimbriaguismo nos dá lentes
para examinar melhor o que é só

Não é ode ao alcoolismo, que se pense,
odiálcool, nem pensar, bem ao contrário;
é um brinde às ebriedades da vida
que_em verdade as fazem digna do nome