sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Ascendescer
Quando criança, subir em árvores, aranhar-me entre os umbrais e trepar em brinquedos metálicos eram maneiras de superar a pequeneza infantil, almejar alturas espirituais pelo meio físico, aspirar lembrar-me, lá em cima, da verdade ainda fresca numa memória tão vasta. Mas essa pequeneza cresceu, com o tempo e a experiência, e hoje não há arranha-céu, viagem aérea ou espacial que a vença - sou homem, como todos, que deseja ser mais do que é e se torna inferior ao que sente.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Sôfrego Dessignificado
A palavra se enche, se esvazia e se reenche de significado com grande velocidade e banalidade, até o momento em que é petrificada pelo pensamento estático, preguiçoso, embotado, cansado de nunca ser.Na mesma medida, por exemplo, a cidade cresce e seu nome perde importância: você não pensa em Rio de Janeiro, mas em tudo o que sabe sobre o lugar que deu sentido à frase.
O mesmo acontece com o amor, infestado de nossos traumas e alegrias, portador dessa soberba horrível que temos ao achar conhecê-lo.
E assim é com o mundo, que violentamos a todo momento por taxá-lo negativamente sem sabê-lo, julgando-o meramente a partir de nossa curtíssima experiência nele.
Chega desse movimento gasto e revoltado que revoluciona a revolução, que reage à reação, que guerreia contra a guerra, que parou de perguntar porquês e passou a afirmá-los com raivosa convicção.
Chega de autocrítica hipócrita, que busca ferir o outro pela autoflagelação, quando "ai de mim" é "ai de vós", sendo sempre santa a lamúria e blasfema a redenção.
Quero anular essa distância abissal de observação dos fatos e perder por completo a habilidade de diferenciá-los de mim, de você, de nós e de tudo.
Quero redescobrir as coisas, não sem antes ver derreter delas esse manto ceroso de preconceitos e encontrar as palavras em momento de pré-concepção.
E que assim permaneçam, nunca ditas, numa sofreguidão alerta, nessa ânsia de palavra consciente dela mesma, estado único em que ela pode ser-se.
Esse é o poema que eu não escrevi, e nada superará sua beleza.
--
Não sou ladrão de fotos, o crédito é deste rapaz, cuja página de fotos pode ser acessada clicando-se neste link ou sobre a imagem.
Enquanto eu não tomo vergonha na cara, baixe: AllanZi - Perdão (Rapidshare)
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Cadernices 2 - A Miríade do Imediato
Objeto da açãoafazer
objeção
abjeto
Empresa de esforço empreendido
só se aprende
a prender
E por que
ninguém pergunta
porque ninguém pergunta
por quê?
A miríade insentida de sentidos
sincera e sensata
inexata, descartada
E nessa vida inovada
o imperativo é automático
sem saída
e censura
Mas lhe parece óbvio
que me parece claro
que nos parece certo
que desaparecerá
--
A partir do próximo post tomarei vergonha na cara e não mais farei links para o rapidshare. Vou criar uma conta no internet archive, e haverá outra maneira de acessar meus mp3. Por enquanto, esse é baixável
-> AllanZi - Corinthians.mp3 (Rapidshare)
terça-feira, 5 de agosto de 2008
Perdedor
Eu escondo meus defeitos nas virtudes
e não nego ser por vezes perdedor
Mas desejo que se afirme entre os demais
e que seja o primeiro colocado
Eu desejo que suceda
condecorado ou promovido
Pouco importa quem melhor deseje
contanto que o bem seja seu
É o que faz com seu mal que preocupa
e não desejo esse medo a ninguém
e não nego ser por vezes perdedor
Mas desejo que se afirme entre os demais
e que seja o primeiro colocado
Eu desejo que suceda
condecorado ou promovido
Pouco importa quem melhor deseje
contanto que o bem seja seu
É o que faz com seu mal que preocupa
e não desejo esse medo a ninguém
--
Imagem: William Adolphe Bouguereau (1825-1905) – Dante And Virgil In Hell (1850)
Imagem: William Adolphe Bouguereau (1825-1905) – Dante And Virgil In Hell (1850)
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Cadernices
Tenho negligenciado este blog deveras e hoje o farei novamente, porém, com uma postagem. Possuo um daqueles cadernos, sim, um caderno, de papel, com linhas impressas e uma espiral metálica, em que anoto certas digestões intelectuais/espirituais nos momentos mais criticamente tediosos e irritantes de determinados dias, quando existe a necessidade de autocontrole para que não se transforme em autoflagelo. Visto que a incidência destas circunstâncias é grande, como provavelmente o é para todos os "trabalhadores honestos" deste mundo, há bastante material... A qualidade é duvidosa, mas fingirei que a justificativa da publicação é estudar a mente criativa nessas situações. Portanto, finjamos ser esta uma investigação conjunta, em partes, e a primeira:--
Prefiro a viagem à chegada
e ainda que o momento de chegar houvesse
eu o atravessaria
mas não há
pois viajo
São todos tão seguros
e tão sábios em sua ignorância
assegurados pela sapiência
da ignorância alheia
Sou meu próprio deus maligno
e a causa de tudo sou eu
ainda que professe a fé de outrem
serei eu a professá-la
cale-se, por favor
O medo é o fruto do passado
em relação ao futuro
assim como tudo
no presente não há medo
e o presente é liberdade
assim como nada
As pessoas estão sempre
em contagem regressiva
sem nunca regressar da contagem
e se perdem sem perder-se
pois faltará sempre um
falta um, não dois
E ver o reflexo de um relfexo
que se oculta na opacidade de um meio
o ar, o éter, o vácuo, talvez
mas sempre um espaço observado
e observador
Na extensão da ação
um frio, um vazio
pois intencionada, simplesmente
sem interior, só razão
ou nem isso
e os extremos se esticam
na reta e na queda
parábola que vira círculo
que vira cárcere
que exclui o bom
externa o mau
Na percepção do movimento
está a soma e a subtração
a simultaneidade do sim
do saber e do ser
onde o será não foi
quando foi não será
e o medo não está
nem seria
--
Clipe novo do Radiohead. Bem "prafrentex", como costuma ser com esses rapazes. "Filmado" sem câmeras, apenas com scanners a laser... O primero videoclipe "escaneado"?
quarta-feira, 25 de junho de 2008
Não Raro
Musa desse lapso de tempoela mudou o verbo de lugar
A esperança faz o que bem entende
e você nunca a se realizar
Não queira ser tolo
no intento
de ser amanhã
Mas esteja alerta pro fim
já que sempre adiou começar
Ou avance, enfim
Ainda que a alegria não nos cegue
pensa ser alegre quem não vê
Segue seu passado acumulado
e esquece que o destino já passou
Presentear é desiludir
Não quero ser raro
no entanto
não raro é comum
Não espero mais nada de mim
já que sei não saber mais que esperar
Eu me aceito assim
Para baixar e ouvir: AllanZi - Não Raro.mp3 (Rapidshare)
domingo, 15 de junho de 2008
Ladrare urbanum est
O cão não é humanomas é urbano
e late para o entregador de jornais
Não se trata mais de sapiência natural
ou fisiológica
Quando muito obediência à lei de pedra
dessa selva louca de pedra
e cão que latu não logos
mas nunca perde um ladrar
O entregador, por sua vez
cumpre função passiva
de ser entregue ao destino
de ser latido por ele
de ser ouvido pro uivo
de ser uivado pro mundo
aos primeiros raios de sol
quinta-feira, 5 de junho de 2008
Manuseio
Empilho dia em dia
até obter bom estoque
para pagar as moedas
que me custam o dia-a-dia
e a vida de quem morre
mas discutem se ela vale esse tanto
esse tanto?
Mato todos, mato todos
ele diz
Uma arma na mão e a outra no bolso
outra mão
mais um crime
e acredita não saber disso o porquê
Por que mãos sempre separadas
uma aqui
outra ali
não unidas numa prece derradeira?
Se lamentam, sei lá, amém
Tão se lá mentem, não sei
Lentamente vão-se além
violentam-se de amor
mas se alentam: "c'est la vie"
até obter bom estoque
para pagar as moedas
que me custam o dia-a-dia
e a vida de quem morre
mas discutem se ela vale esse tanto
esse tanto?
Mato todos, mato todos
ele diz
Uma arma na mão e a outra no bolso
outra mão
mais um crime
e acredita não saber disso o porquê
Por que mãos sempre separadas
uma aqui
outra ali
não unidas numa prece derradeira?
Se lamentam, sei lá, amém
Tão se lá mentem, não sei
Lentamente vão-se além
violentam-se de amor
mas se alentam: "c'est la vie"
quarta-feira, 28 de maio de 2008
Ainda
uma brisa é o fim
estados de mim
escravo de mim
O ar é o mesmo
inspiro temendo
acabar com a dor
abraçar o amor
E quando eu quiser
será verdade
E se eu sair
serei ainda?
Ainda são
À força do laço
desfaço-me em presa
do peso de mim
apego sem fim
A corda é a mesma
do acorde que temo
escutar em paz
receber a luz
E quando eu me vir
talvez te perca
Mas se eu souber
seremos sempre
Ainda um
AllanZi - Ainda.mp3 (Rapidshare)
estados de mim
escravo de mim
O ar é o mesmo
inspiro temendo
acabar com a dor
abraçar o amor
E quando eu quiser
será verdade
E se eu sair
serei ainda?
Ainda são
À força do laço
desfaço-me em presa
do peso de mim
apego sem fim
A corda é a mesma
do acorde que temo
escutar em paz
receber a luz
E quando eu me vir
talvez te perca
Mas se eu souber
seremos sempre
Ainda um
AllanZi - Ainda.mp3 (Rapidshare)
segunda-feira, 19 de maio de 2008
Abaixo o apEgo
Não é só mais um título "espertinho". O apego que temos pelo ego está lentamente nos levando à ruína e tornando ilegítimos quaisquer esforços sinceros de luta pró-minorias e/ou coletividades. Enquanto dermos mais importância a esse títere que inventamos, boneco de ventríloquo que animamos e ao qual damos voz, faremos justamente a vontade de uma força descomunal que nos encaminha aos empurrões para um progresso vazio, uma cultura com o ego no centro do quadro, objeto de culto, motor da alienação plena. Grupos são compostos por indivíduos, e é sobre a individualidade orgulhosa que tripudiam centenas de tipos de fazedores de dinheiro. O feminismo, para citar só um exemplo, que pode ter nascido de um genuíno impulso libertário de mulheres cheias de indignação e coragem, ao ser comprado, processado e vendido mais caro (é o que o capitalismo faz), tornou-se a imposição de um estilo de vida estupidamente masculino ao "universo feminino", resumindo a realização do desejo de liberdade e igualdade ao uso de blêiseres chiques em cargos executivos por parte de mulheres com voz imperativa, não necessariamente ativa, que imitam o que de pior há no comportamento machista dos homens de negócios. Uns poderiam argumentar que a mulher faz negócios à sua maneira, mas só o fato de fazê-los é em si uma repetição imposta, visto que, uma vez livre do servilismo, a mesma mulher tem potencial para dar uma infinidade de contruibuições ao mundo e à humanidade. O feminismo virou, portanto, um fetiche propagado e vendido como idéia, alimento egoísta. É o que o capitalismo faz.Mas a idéia não se aplica apenas às chamadas minorias, sendo estas meros artifícios para agrupar os que antes ficavam propositalmente de fora do sistema, atuando em sua periferia para suprir algumas de suas necessidades básicas, mas sem usufruir de seus produtos ilusórios - agora eles foram propositalmente incluídos para aumentar o consumo. Não. Cotidianamente todos estamos envolvidos num grande jogo de brincar de ser aquilo que já se brinca de ser. Em outras palavras, os patrões em geral já brincam de chefiar, ditando as regras iniciais do jogo, visto que eles apenas representam, como um ator faz com seu personagem, e geram o modelo a ser reproduzido. Os subordinados, por sua vez, brincam de brincar de tentar serem chefes, desenvolvendo suas peças no tabuleiro de acordo com as regras iniciais, até que também as possam ditar a outros. E tudo passa por verdade. Mas nesse mundo de faz-de-conta, as regras iniciais revelam-se outra cópia, e na busca pelos criadores das regras originais, a pessoa comum perde-se num emaranhado incrivelmente extenso, mas finito. Porém, quanto mais se luta, mais se deixa enrolar na teia de uma aranha invisível, ou melhor, oculta, pois o invisível é algo de que procuraremos tratar mais tarde. São, na verdade, milhões de teias diversas cruzando umas com as outras, coisas vendidas como globalização, aldeia global, etc., que não passam de aranhas intercambiando os frutos das capturas de suas teias. Menos que ocultas, as aranhas são de fato enormes; nós, os insetos, é que estamos perto demais para vê-las em sua totalidade.
Sob essa mesma metáfora poder-se-ía incluir mais um aspecto, o mais importante, o único positivo, e que deveria ser o único, ponto final: a invisibilidade da consciência. Cheguei a considerar o uso da palavra "deus"; pensei na palavra "todo"; cogitei a palavra "um" - amém, amém, amém. O que não vemos, ou procuramos não ver, é o algo, ou nada, o onde, ou lugar nenhum, que origina e encerra tudo. É o que está por trás de todas as mentiras, pois as verdades assumidas nesse grande jogo supracitado não passam de mentiras, enquanto nenhuma é a verdade. Isso pode causar controvérsia entre alguns não-leitores, mas é curioso como em tantos anos de ódio pelas religiões, em geral, acabo agora repetindo essa máxima, motivo máximo de minha raiva que não existe mais. Aprendemos certos e errados que estão ambos errados, pois foram criados além da criação. Um mundo de certezas baseadas em nada, ou antes fossem, pois são assentadas em reflexos, imagens vagas, experiências incertas. Universo de signos, símbolos, caracteres, formas que se auto-imitam há tempos, mas querem dizer sempre as mesmas coisas. Acontece que se, por um lado, a idéia de unicidade ou verdade única é utilizada como instrumento de opressão e controle indevidamente pela maioria de auto-proclamados líderes espirituais, e isso obviamente deve ser repudiado, por outro, num uso livre, espontâneo e positivo, é apenas a constatação pacífica, feliz e plena de uma realidade natural interior, que tentamos inutilmente negar. Vivemos, debatemo-nos e estrebuchamo-nos na busca de soluções para um jogo que inventamos e não tem solução. Nadamos contra uma corrente branda que nos convida, há milênios, a navegar tranqüilos. Tudo em favor de um ego que, longe de nos representar ou espelhar, escraviza-nos, e nos faz guerrear em vão com um "eu" invisível e verdadeiro, que precisa ser percebido, simplesmente. Se entendermos que certo e errado são só pedaços do caminho que todos precisamos trilhar, veríamos que fazer o certo não é obedecer e impor ordens, mas deixar que sua natureza mais essencial siga seu curso, ao invés de criar empecilhos artificiais, atrasos que só ferem o nosso próprio desenvolvimento como seres.
Portanto, nada do que foi criticado na parte inicial do texto tem importância. Não é algo bom, mas não afeta em absolutamente nenhum grau àqueles que crêem com todas as suas forças no fato de sermos parte de algo muito maior, fora do alcance desses joguetes. Não é motivo para este blogueiro inexistente parar de denunciar seus testemunhos oculares: afinal, se sinto-me "semi-desperto", sinto-me, também, na obrigação de transmitir todas essas impressões a quem está por despertar brevemente. Mas não me impede também de mostrar que há outro lado, e que, sendo assim, não há o que temer. Esse processo de abertura da percepção é demorado e requer paciência, mas é sem dúvida muito mais gratificante do que nossa corrida diária rumo ao mesmo lugar. Não quero ser radical, não gosto de ser radical. É claro que nossa ciência evoluiu, ou pelo menos agigantou-se, excedeu seus próprios limites e passou a abarcar detalhes antes ignorados, não explicados, não traduzidos à tal da linguagem... Mas será isso 'tudo'? Estaremos simplesmente 'escrevendo' o mundo, e para quê? Será que com isso não estamos somente limitando um espaço que pode ser muito mais vasto? E se tudo isso soa estranho vindo de alguém considerado cético por outros, basta saber que não cheguei a essas perguntas e conclusões por um raciocínio cartesiano, lógico, exato, tampouco graças a uma "revelação", dessas que costumam falar os envangelizadores televisivos. É uma percepção perfeitamente acessível a todos, e para que isso aconteça é necessário se permitir, por alguns segundos da vida, deixar de lado as preocupações, paranóias e sofrimentos voluntários. Alguns segundos. Num mundo em que um motorista mal perde dois segundos para que você, pedestre, possa atravessar a rua, isso parece difícil. Mas não é. E ao fazermos isso, podemos entender, finalmente, que não sabemos quem somos. Se você pensa ser reações químicas, sinapses e descargas elétricas dentro de um cérebro, não há problema. Só não vá entrar em curto pensando como sua mente consegue fazer isso, e você sabe que sabe que faz. Somos nada, e não há o que temer.
--
Trecho de Music for a Large Ensemble, de Steve Reich (só audio, e é só o que precisa):
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