quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Cadernices 2 - A Miríade do Imediato

Objeto da ação
afazer
objeção
abjeto

Empresa de esforço empreendido
só se aprende
a prender

E por que
ninguém pergunta
porque ninguém pergunta
por quê?

A miríade insentida de sentidos
sincera e sensata
inexata, descartada

E nessa vida inovada
o imperativo é automático
sem saída
e censura

Mas lhe parece óbvio
que me parece claro
que nos parece certo
que desaparecerá

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A partir do próximo post tomarei vergonha na cara e não mais farei links para o rapidshare. Vou criar uma conta no internet archive, e haverá outra maneira de acessar meus mp3. Por enquanto, esse é baixável
-> AllanZi - Corinthians.mp3 (Rapidshare)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Perdedor

Eu escondo meus defeitos nas virtudes
e não nego ser por vezes perdedor

Mas desejo que se afirme entre os demais
e que seja o primeiro colocado

Eu desejo que suceda
condecorado ou promovido

Pouco importa quem melhor deseje
contanto que o bem seja seu

É o que faz com seu mal que preocupa
e não desejo esse medo a ninguém

--

Imagem: William Adolphe Bouguereau (1825-1905) – Dante And Virgil In Hell (1850)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Cadernices

Tenho negligenciado este blog deveras e hoje o farei novamente, porém, com uma postagem. Possuo um daqueles cadernos, sim, um caderno, de papel, com linhas impressas e uma espiral metálica, em que anoto certas digestões intelectuais/espirituais nos momentos mais criticamente tediosos e irritantes de determinados dias, quando existe a necessidade de autocontrole para que não se transforme em autoflagelo. Visto que a incidência destas circunstâncias é grande, como provavelmente o é para todos os "trabalhadores honestos" deste mundo, há bastante material... A qualidade é duvidosa, mas fingirei que a justificativa da publicação é estudar a mente criativa nessas situações. Portanto, finjamos ser esta uma investigação conjunta, em partes, e a primeira:

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Prefiro a viagem à chegada
e ainda que o momento de chegar houvesse
eu o atravessaria
mas não há
pois viajo

São todos tão seguros
e tão sábios em sua ignorância
assegurados pela sapiência
da ignorância alheia

Sou meu próprio deus maligno
e a causa de tudo sou eu
ainda que professe a fé de outrem
serei eu a professá-la
cale-se, por favor

O medo é o fruto do passado
em relação ao futuro
assim como tudo
no presente não há medo
e o presente é liberdade
assim como nada

As pessoas estão sempre
em contagem regressiva
sem nunca regressar da contagem
e se perdem sem perder-se
pois faltará sempre um
falta um, não dois

E ver o reflexo de um relfexo
que se oculta na opacidade de um meio
o ar, o éter, o vácuo, talvez
mas sempre um espaço observado
e observador

Na extensão da ação
um frio, um vazio
pois intencionada, simplesmente
sem interior, só razão
ou nem isso
e os extremos se esticam
na reta e na queda
parábola que vira círculo
que vira cárcere
que exclui o bom
externa o mau

Na percepção do movimento
está a soma e a subtração
a simultaneidade do sim
do saber e do ser
onde o será não foi
quando foi não será
e o medo não está
nem seria

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Clipe novo do Radiohead. Bem "prafrentex", como costuma ser com esses rapazes. "Filmado" sem câmeras, apenas com scanners a laser... O primero videoclipe "escaneado"?

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Não Raro

Musa desse lapso de tempo
ela mudou o verbo de lugar

A esperança faz o que bem entende
e você nunca a se realizar

Não queira ser tolo
no intento
de ser amanhã

Mas esteja alerta pro fim
já que sempre adiou começar

Ou avance, enfim

Ainda que a alegria não nos cegue
pensa ser alegre quem não vê

Segue seu passado acumulado
e esquece que o destino já passou

Presentear é desiludir

Não quero ser raro
no entanto
não raro é comum

Não espero mais nada de mim
já que sei não saber mais que esperar

Eu me aceito assim

Para baixar e ouvir: AllanZi - Não Raro.mp3 (Rapidshare)

domingo, 15 de junho de 2008

Ladrare urbanum est

O cão não é humano
mas é urbano
e late para o entregador de jornais

Não se trata mais de sapiência natural
ou fisiológica
Quando muito obediência à lei de pedra
dessa selva louca de pedra
e cão que latu não logos
mas nunca perde um ladrar

O entregador, por sua vez
cumpre função passiva
de ser entregue ao destino
de ser latido por ele
de ser ouvido pro uivo
de ser uivado pro mundo
aos primeiros raios de sol

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Manuseio

Empilho dia em dia
até obter bom estoque
para pagar as moedas
que me custam o dia-a-dia
e a vida de quem morre
mas discutem se ela vale esse tanto
esse tanto?

Mato todos, mato todos
ele diz
Uma arma na mão e a outra no bolso
outra mão
mais um crime
e acredita não saber disso o porquê

Por que mãos sempre separadas
uma aqui
outra ali
não unidas numa prece derradeira?

Se lamentam, sei lá, amém
Tão se lá mentem, não sei
Lentamente vão-se além
violentam-se de amor
mas se alentam: "c'est la vie"

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Ainda

À beira do abismo
uma brisa é o fim
estados de mim
escravo de mim

O ar é o mesmo
inspiro temendo
acabar com a dor
abraçar o amor

E quando eu quiser
será verdade

E se eu sair
serei ainda?

Ainda são

À força do laço
desfaço-me em presa
do peso de mim
apego sem fim

A corda é a mesma
do acorde que temo
escutar em paz
receber a luz

E quando eu me vir
talvez te perca

Mas se eu souber
seremos sempre

Ainda um

AllanZi - Ainda.mp3 (Rapidshare)

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Abaixo o apEgo

Não é só mais um título "espertinho". O apego que temos pelo ego está lentamente nos levando à ruína e tornando ilegítimos quaisquer esforços sinceros de luta pró-minorias e/ou coletividades. Enquanto dermos mais importância a esse títere que inventamos, boneco de ventríloquo que animamos e ao qual damos voz, faremos justamente a vontade de uma força descomunal que nos encaminha aos empurrões para um progresso vazio, uma cultura com o ego no centro do quadro, objeto de culto, motor da alienação plena. Grupos são compostos por indivíduos, e é sobre a individualidade orgulhosa que tripudiam centenas de tipos de fazedores de dinheiro. O feminismo, para citar só um exemplo, que pode ter nascido de um genuíno impulso libertário de mulheres cheias de indignação e coragem, ao ser comprado, processado e vendido mais caro (é o que o capitalismo faz), tornou-se a imposição de um estilo de vida estupidamente masculino ao "universo feminino", resumindo a realização do desejo de liberdade e igualdade ao uso de blêiseres chiques em cargos executivos por parte de mulheres com voz imperativa, não necessariamente ativa, que imitam o que de pior há no comportamento machista dos homens de negócios. Uns poderiam argumentar que a mulher faz negócios à sua maneira, mas só o fato de fazê-los é em si uma repetição imposta, visto que, uma vez livre do servilismo, a mesma mulher tem potencial para dar uma infinidade de contruibuições ao mundo e à humanidade. O feminismo virou, portanto, um fetiche propagado e vendido como idéia, alimento egoísta. É o que o capitalismo faz.

Mas a idéia não se aplica apenas às chamadas minorias, sendo estas meros artifícios para agrupar os que antes ficavam propositalmente de fora do sistema, atuando em sua periferia para suprir algumas de suas necessidades básicas, mas sem usufruir de seus produtos ilusórios - agora eles foram propositalmente incluídos para aumentar o consumo. Não. Cotidianamente todos estamos envolvidos num grande jogo de brincar de ser aquilo que já se brinca de ser. Em outras palavras, os patrões em geral já brincam de chefiar, ditando as regras iniciais do jogo, visto que eles apenas representam, como um ator faz com seu personagem, e geram o modelo a ser reproduzido. Os subordinados, por sua vez, brincam de brincar de tentar serem chefes, desenvolvendo suas peças no tabuleiro de acordo com as regras iniciais, até que também as possam ditar a outros. E tudo passa por verdade. Mas nesse mundo de faz-de-conta, as regras iniciais revelam-se outra cópia, e na busca pelos criadores das regras originais, a pessoa comum perde-se num emaranhado incrivelmente extenso, mas finito. Porém, quanto mais se luta, mais se deixa enrolar na teia de uma aranha invisível, ou melhor, oculta, pois o invisível é algo de que procuraremos tratar mais tarde. São, na verdade, milhões de teias diversas cruzando umas com as outras, coisas vendidas como globalização, aldeia global, etc., que não passam de aranhas intercambiando os frutos das capturas de suas teias. Menos que ocultas, as aranhas são de fato enormes; nós, os insetos, é que estamos perto demais para vê-las em sua totalidade.

Sob essa mesma metáfora poder-se-ía incluir mais um aspecto, o mais importante, o único positivo, e que deveria ser o único, ponto final: a invisibilidade da consciência. Cheguei a considerar o uso da palavra "deus"; pensei na palavra "todo"; cogitei a palavra "um" - amém, amém, amém. O que não vemos, ou procuramos não ver, é o algo, ou nada, o onde, ou lugar nenhum, que origina e encerra tudo. É o que está por trás de todas as mentiras, pois as verdades assumidas nesse grande jogo supracitado não passam de mentiras, enquanto nenhuma é a verdade. Isso pode causar controvérsia entre alguns não-leitores, mas é curioso como em tantos anos de ódio pelas religiões, em geral, acabo agora repetindo essa máxima, motivo máximo de minha raiva que não existe mais. Aprendemos certos e errados que estão ambos errados, pois foram criados além da criação. Um mundo de certezas baseadas em nada, ou antes fossem, pois são assentadas em reflexos, imagens vagas, experiências incertas. Universo de signos, símbolos, caracteres, formas que se auto-imitam há tempos, mas querem dizer sempre as mesmas coisas. Acontece que se, por um lado, a idéia de unicidade ou verdade única é utilizada como instrumento de opressão e controle indevidamente pela maioria de auto-proclamados líderes espirituais, e isso obviamente deve ser repudiado, por outro, num uso livre, espontâneo e positivo, é apenas a constatação pacífica, feliz e plena de uma realidade natural interior, que tentamos inutilmente negar. Vivemos, debatemo-nos e estrebuchamo-nos na busca de soluções para um jogo que inventamos e não tem solução. Nadamos contra uma corrente branda que nos convida, há milênios, a navegar tranqüilos. Tudo em favor de um ego que, longe de nos representar ou espelhar, escraviza-nos, e nos faz guerrear em vão com um "eu" invisível e verdadeiro, que precisa ser percebido, simplesmente. Se entendermos que certo e errado são só pedaços do caminho que todos precisamos trilhar, veríamos que fazer o certo não é obedecer e impor ordens, mas deixar que sua natureza mais essencial siga seu curso, ao invés de criar empecilhos artificiais, atrasos que só ferem o nosso próprio desenvolvimento como seres.

Portanto, nada do que foi criticado na parte inicial do texto tem importância. Não é algo bom, mas não afeta em absolutamente nenhum grau àqueles que crêem com todas as suas forças no fato de sermos parte de algo muito maior, fora do alcance desses joguetes. Não é motivo para este blogueiro inexistente parar de denunciar seus testemunhos oculares: afinal, se sinto-me "semi-desperto", sinto-me, também, na obrigação de transmitir todas essas impressões a quem está por despertar brevemente. Mas não me impede também de mostrar que há outro lado, e que, sendo assim, não há o que temer. Esse processo de abertura da percepção é demorado e requer paciência, mas é sem dúvida muito mais gratificante do que nossa corrida diária rumo ao mesmo lugar. Não quero ser radical, não gosto de ser radical. É claro que nossa ciência evoluiu, ou pelo menos agigantou-se, excedeu seus próprios limites e passou a abarcar detalhes antes ignorados, não explicados, não traduzidos à tal da linguagem... Mas será isso 'tudo'? Estaremos simplesmente 'escrevendo' o mundo, e para quê? Será que com isso não estamos somente limitando um espaço que pode ser muito mais vasto? E se tudo isso soa estranho vindo de alguém considerado cético por outros, basta saber que não cheguei a essas perguntas e conclusões por um raciocínio cartesiano, lógico, exato, tampouco graças a uma "revelação", dessas que costumam falar os envangelizadores televisivos. É uma percepção perfeitamente acessível a todos, e para que isso aconteça é necessário se permitir, por alguns segundos da vida, deixar de lado as preocupações, paranóias e sofrimentos voluntários. Alguns segundos. Num mundo em que um motorista mal perde dois segundos para que você, pedestre, possa atravessar a rua, isso parece difícil. Mas não é. E ao fazermos isso, podemos entender, finalmente, que não sabemos quem somos. Se você pensa ser reações químicas, sinapses e descargas elétricas dentro de um cérebro, não há problema. Só não vá entrar em curto pensando como sua mente consegue fazer isso, e você sabe que sabe que faz. Somos nada, e não há o que temer.

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Trecho de Music for a Large Ensemble, de Steve Reich (só audio, e é só o que precisa):

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Ourobúrros

Começando com máximas, mas não frases prontas, para foder com a cabeça e encher o saco do leitor inexistente aqui materializado diante do texto, logo de cara: a verdade é só um momento do falso, nossa realidade é inventada para nos domesticar, você não controla sua própria vida, você não é mais que um público-alvo ou consumidor, etc... Já falei bastante disso aqui nesse blog e minha intenção é apenas criar um primeiro parágrafo que dê sustentação ao segundo, por paradoxal que pareça, mas é preciso ter um ponto de partida. Neste caso, é um ataque verbal ao capitalismo e o jeito como ele entorpece nossos sentidos substituindo o que poderíamos chamar de realidade por uma fictícia, mas que levamos absolutamente ao pé da letra.

Essa própria crítica, o pensamento que expresso aqui em palavras, faz parte de uma realidade terceira, algo isolado dentro de nossas mentes, e pode causar meramente uma reação contemplativa a um mundo físico e virtual imutável. Assim é se acreditamos não poder mudá-lo, e assim é. O buraco negro que tudo banaliza, atenua e transforma em aceitável, e que tem a finalidade de fazer-nos crer serem válidos os atos humanos mais terríveis em prol do lucro, é para onde esse texto irá dentro de sua mente ao final da leitura, ou pouco depois dela, e é para essas mesmas trevas cerebrais que vai nossa capacidade de resistência, de surpresa, de fúria, de compaixão, de ação e não-ação. A mesma passividade com que enxergamos algo ruim é a que usamos para algo bom dentro de nosso julgamento, dada a completa falta de responsabilidade que pensamos ter em relação ao curso dos eventos, um distanciamento total de causa e efeito, e assim permitimos que nosso cotidiano seja construído da maneira que melhor aprouver seus engenheiros.

Esses engenheiros, que fazem a manutenção desse modo de "vida", são ninguém menos que os homens que detêm mais riqueza material acumulada, essa riqueza retirada da Terra para virar dinheiro, que, muito esperta, mas não inteligentemente, nos escraviza em torno da ilusão de seu ganho como recompensa pelo trabalho, como fim de nossos meios, modo de sobrevivência ou mesmo possibilidade de realização de sonhos, felicidade. Na condição de seus ajudantes, nós, a classe média incrivelmente dependente das migalhas desses acumuladores, que são como larvas purulentamente brancas a engordar, tratamos então de cuidar dos detalhes mais precisos e técnicos dessa manutenção, ocupando-nos com burocracias que se tornaram tediosas demais aos ricos, e cumprimos com rigor religioso, pensando estarmos enobrecendo nossas almas com trabalho. Ajudamos o mundo a se desenvolver, mas não fazemos a menor idéia do que esse desenvolvimento é ou representa.

A ilusão de desenvolvimento pode ser notada na percepção do homem comum em relação ao avanço tecnológico na arquitetura, por exemplo, em que um prédio "mais moderno", isto é, feito de modo tecnicamente diferente da maioria dos edifícios, com forma e aparência renovadas, já basta como justificação para um sem número de barbaridades presenciadas todos os dias nas metrópoles. A "evolução" é necessária, custe o que custar, mesmo que a própria seja uma representação, um fenômeno visual, talvez estético, mas sem dúvida uma miragem. Outra tarefa, menos burocrática do que estratégica, é a de divulgar os benefícios desse desenvolvimento e, principalmente, a necessidade de seguirmos ordens e padrões de comportamento, e entram em cena os propagadores de imagens e miragens, a mídia. Não bastasse o mundo que moldamos fisicamente ser em si um palco para espetáculos de ilusionismo, temos ainda meios de fazer um espetáculo que transmite esses espetáculos diariamente, para não nos esquecermos, nem no mundo virtual, imagético e imaginário, da realidade inventada. Ou seja, a imagem da imagem da imagem, até que percamos totalmente de vista o que éramos, como éramos e onde éramos.

No tocante ao avanço infra-estrutural e prático promovido pela humanidade, a ilusão é diferente unicamente na questão do tempo. Só vai durar enquanto as conseqüências dessa comodidade tecnocrata estiverem escondidas e/ou maquiadas, sendo já esse disfarce muito difícil, imaginemos em alguns anos. Isto quer dizer apenas que se, por um lado, hoje temos medicamentos para quase todo tipo de enfermidade (inclusive para estresse!), aparelhos que aquecem alimentos ao toque de um botão, tocadores eletrônicos de música e água encanada para levar de nós as impurezas, para citar algumas das maravilhas de nosso estágio evolutivo altíssimo, de outro lado está o exato oposto excremento dessa produção a preencher espaços elementares: água, ar e terra, e essa inominável massa de sujeira que nem o fogo pode mais combater. Assim como pensamos ter-nos livrado do lixo ao colocarmos um saco plástico cheio dele no meio-fio da rua, achamos que o subproduto oriundo do ridículo excesso de produtos que criamos apenas para manter uma economia fantasiosa funcionando, vai desaparecer. O mundo é o lixo, inclusive humano, de subclasses, subempregos e sub-raças, que permeiam os lugares mais afastados dos pólos de riqueza e limpeza.

Mas o surpreendente é que esse cenário aterrador e a vida diária pacífica e inerte PODEM coexistir. Não é preciso ir muito longe: o morador de São Paulo, ainda que se incomode ligeiramente com o cheiro, já se acostumou com a poluição dos rios que margeiam suas principais vias automotivas. Ou seria o contrário? Enfim, aquele lugar comprido onde gostamos de ficar parados por horas com nossos dínamos metálicos, confortáveis e possantes. O importante aqui é dizer que a convivência tranqüila entre mais o absurdo dos absurdos e o feliz contentamento do "cidadão" metropolitano reforça a idéia de alienação que foi o lampejo inicial para a criação desse texto, e contradiz o começo do parágrafo imediatamente anterior a este: a ilusão não é mais dissolvida por fatos que provam sua existência. E contradiz também o final: o lixo ESTÁ no mesmo lugar onde se produz e consome a riqueza, e a distinção ficou apenas num plano imaginário, um bloqueio mental sem precedentes na história da psicologia e quiçá da psicanálise (?), mas não estamos tratando de uma patologia e sim de um sistema ordenado e racional de se sustentar, pensar e se relacionar, não?

Se o tempo já não dá conta e as pontas se uniram, como o Ourobóros, cujo sentido ouso aqui perverter, o que pretendo eu aqui fazer? Encontrar uma solução? Fazer perguntas tolas que se auto-anulam? Sim. Talvez meu apelo atinja em cheio alguém anestesiado pela corrida circular supersônica que premia os que mais correm e menos sabem por que estão correndo, que parou um segundo para amarrar o cadarço do sapato... Pode ser cômodo de minha parte assumir que meu papel é falar. É fácil... Pois falar é fazer, semanticamente falando, não nos termos publicitários, em que fazer é comprar um celular e falar com ele, não com outras pessoas. Pois preferi simplificar minhas escolhas e com isso meus desejos, e com isso meu consumo, e com isso meu desgaste, e com isso meu futuro, e com isso minha vida. Não estou falando de mim, mas de qualquer um que ainda tenha a capacidade e a sensibilidade para tentar uma mudança. Escolhi falar tudo isso a você, e é só o que quero, e é por isso que caminho, não corro. Por que você corre? Porque quer mais? O tanto que você quer deve ser então medida para o quanto você aceita... E tomara que aceite-se responsável pelo quanto você quer.

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